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Estudantes têm que mudar de curso, perder um semestre ou, simplesmente, desistir da vaga; iG conversou com pessoas que passaram por essas situações

Alunos são pré-selecionados no Fies, mas acabam tendo sonho de entrar na faculdade adiado por não formação de turma
USP Imagens
Alunos são pré-selecionados no Fies, mas acabam tendo sonho de entrar na faculdade adiado por não formação de turma

Fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), se inscrever no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), ser pré-selecionado, juntar toda a documentação e levar para a faculdade. Após fazer todo esse caminho para alcançar o sonho de entrar em uma universidade, receber a notícia de que o curso escolhido não formou turma... pode virar um pesadelo. 

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E, acredite, essa é uma frustação comum, compartilhada por diversos estudantes, que são pré-selecionados no Fies , em todos os semestres do ano letivo. Para não ter a tão sonhada conquista arrancada das mãos tão bruscamente, os alunos decidem se submeter às alternativas dadas pelas próprias faculdades, como tentar mudar de curso ou finalizar o processo de contratação do financiamento, mas só começando os estudos no próximo semestre. 

Dar início ao curso de Engenharia Elétrica só no começo de 2018 foi a opção escolhida por Jayme de Queiroz, de 19 anos. O estudante de Curitiba, no Paraná, seguiu todas as orientações do financiamento, juntou os documentos necessários. Mas, quando recebeu a informação de que a documentação estava aprovada, também ficou sabendo que teria de começar o curso apenas no próximo ano. “Eu terei de voltar com os meus documentos e refazer o processo para ir ao banco, fazer o financiamento, tudo no ano que vem”, explica.

Segundo o estudante, perder um semestre acabou o prejudicando. “Estava nos meus planos começar a faculdade agora, eu tinha parado outras coisas, então me atrapalhou, mas acontece”, lamenta.

No entanto, a "sorte" de ter a vaga garantida não é para todos. Para Bleyne Mary de Almeida Silva, de 27 anos, a não formação de turma no curso de Administração em Maceió, no período da manhã, no segundo semestre de 2016, lhe rendeu muitas dores de cabeça e a perda do emprego.

A estudante de Alagoas havia sido pré-selecionada no curso e no turno que queria na Faculdade da Cidade de Maceió (Facima), levou toda a documentação, porém, como não foi formada a turma, Bleyme precisou recorrer às vagas remanescentes do programa. “Eles até tentaram trocar o meu turno lá na Facima, mas não adiantou. Aí, eu realmente perdi”, afirma.

Pelas vagas remanescentes, ela conseguiu ser pré-selecionada em Administração em outra faculdade, mas a única opção oferecida era no período noturno. “Eu queria no período da manhã porque trabalhava em uma Operadora de Telemarketing, no horário da tarde e da noite. No final das contas, pedi demissão para continuar meus estudos”, conta.

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“Para mim, é um pouco tortuoso você colocar uma vaga disponível sem ter certeza de que realmente vai ter turma. Isso acaba não só gerando uma esperança, mas colocando as pessoas em uma situação de prejuízo. Se tivessem me dado as alternativas de, em caso de não formação de turma, ao menos trocar o turno ou prorrogar minha inscrição para o próximo semestre, seria muito bom”, desabafou Bleyme.

Faculdades oferecem diversas alternativas para os estudantes, mas muitos acabam perdendo a vaga no programa
Reprodução
Faculdades oferecem diversas alternativas para os estudantes, mas muitos acabam perdendo a vaga no programa


Destino incerto

Quem ainda não tem certeza se irá conseguir uma nova vaga pelo programa é a estudante de Feira de Santana, na Bahia, Ana Beatriz Dias de Jesus. A jovem de 18 anos se inscreveu no curso de Nutrição da Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC), que também não formou turma.  “Eu liguei [na faculdade] e disseram que iam ter de rejeitar minha inscrição”, disse.

Ana contou que a central da faculdade ligou para ela e tentou oferecer um programa de bolsas para outro curso na área da saúde, mas ela não tem condições financeiras para aceitar a alternativa oferecida.

Ainda segundo a estudante, a faculdade disse que existia a opção de trocar de curso no site do programa, porém o prazo para fazer a troca já tinha acabado, e o Ministério da Educação (MEC) cancelaria automaticamente a inscrição da estudante. “A única alternativa agora é aguardar as vagas remanescentes.”

Ponto fora da curva

Em meio ao caos e à decepção de alguns, existem casos raros de pessoas beneficiadas pelos problemas do programa. Como aconteceu ao estudante Álvaro Henrique Andrade dos Santos, de 22 anos, que diz ter tido sorte por causa da não formação de turma. O jovem de Salvador, na Bahia, tinha como primeira opção de curso Análise e Desenvolvimento de Sistemas, mas, na hora de se inscrever para o financiamento, mudou de ideia e escolheu o curso de Sistema de Informação, a fim de ter mais chances de ser pré-selecionado.

Álvaro explica que, com a média que teve no Enem, ficou em primeiro lugar na lista, todavia, o curso de Sistema de Informação acabou não fechando turma. Por isso, a faculdade sugeriu que o jovem ficasse no curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas, ou seja, aquele que havia sido seu "Plano A".

“Eu iria cursar já esse semestre, ainda como se eu tivesse matriculado no curso de Sistema e, no segundo semestre, mudaria para Análise e Desenvolvimento, que era o que eu queria”, comemora.

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Procurado pela reportagem do iG , o Ministério da Educação informou, em nota, que a regulamentação do  programa de financiamento prevê que os candidatos pré-selecionados  que tenham sido rejeitados por não formação de turma no período inicial do curso terão prioridade de inscrição no processo de ocupação de vagas remanescentes.

A pasta informou também que as vagas são destinadas aos cursos específicos, não havendo possibilidade de transferência para outro curso.  Além disso, a Instituição de Educação Superior (IES), representada pela Comissão Permanente de Supervisão e Acompanhamento do Fies (CPSA), só deve validar a inscrição de um candidato para o curso/turno no qual foi pré-selecionado no processo seletivo. 

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