Departamento de Justiça dos EUA
"Fazenda" de bots: uma das estratégias digitais de influência de países não democráticos

Invasões estrangeiras podem, nos tempos atuais, dispensar o uso de forças aéreas ou terrestres e recorrer tão somente ao poder da influência. A mídia tradicional, as redes sociais, ONGs e comissões são algumas das ferramentas que países como a Rússia, a China e o Irã usam em detrimento dos interesses nacionais de países democráticos.

A população não consegue identificar de onde vêm essas forças e precisa prestar muita atenção para perceber sua atuação. Tampouco os próprios governos dos países afetados têm se mostrado eficientes em identificá-las ou conter o fluxo financeiro que as mantém.

Nos últimos anos, as universidades americanas deram o exemplo do que acontece quando a invasão é bem-sucedida. Depois de décadas recebendo doações de organizações provenientes ou ligadas a países como o Catar e a China, instituições nacionais centenárias se tornam irreconhecíveis e palco de manifestações que não expressam o ethos americano.

Hoje já não é segredo que os cataris e os chineses influenciam a formação de estudantes norte-americanos desde o ensino fundamental. O governo dos EUA está, nesse momento, buscando saídas para desmontar a estrutura já consolidada.

A Guerra Fria

A influência externa não é um fenômeno novo, e o mundo ocidental já o conheceu bem em outros períodos, como o da Guerra Fria. Hoje, no entanto, há novos elementos, como a internet e as redes sociais, que aceleram e sofisticam esse processo. Soma-se a eles a inteligência artificial, um fenômeno recente que embaralha cada vez mais o discernimento humano a respeito do que é verdadeiro e do que não é.

A web abre, nesse caso, uma porta escancarada para a atuação de agentes estrangeiros. Os países democráticos têm grande dificuldade para controlá-la (o inverso acontece com países como a China e o Irã, que controlam abertamente o acesso da população à informação).

Pelo menos dez democracias participam de investigações e iniciativas de monitoramento de operações de influência estrangeira realizadas por meio de fazendas de bots, redes de perfis falsos e campanhas coordenadas de desinformação. Entre elas estão os Estados Unidos, o Reino Unido, a França, a Alemanha e a Austrália. Essas estruturas são criadas para fomentar a discórdia, alimentar o descontentamento e direcionar o debate interno das populações de acordo com os interesses de seus operadores.

O público não tem a menor noção de quem produz ou distribui essas notícias — ele apenas as consome.

O fenômeno “analógico” do Catar

Nem sempre a influência é exercida por meios tecnológicos: países como o Catar e a China recorrem também aos métodos tradicionais de influência, baseados em contatos pessoais e muito dinheiro.

Uma pesquisa publicada em 2025 pelo Quincy Institute for Responsible Statecraft, focada na expansão das atividades de influência do Catar em Washington, revelou que o país gastou quase US$ 250 milhões com 88 empresas de lobby e relações públicas nos EUA entre 2016 e junho de 2025. Apontou, também, que representantes do Catar registraram 627 reuniões presenciais com interlocutores políticos americanos entre janeiro de 2021 e junho de 2025 — o maior número de encontros declarados por representantes de um país estrangeiro no período analisado.

Essa é a ponta de um iceberg bilionário de influência catariana não apenas nos EUA, mas em muitos outros países do Ocidente. É impossível comprovar, mas é bem provável que tenha sido assim que o Catar adquiriu seu papel de destaque em diferentes fases das negociações entre os Estados Unidos e o Irã ou entre Israel e o Hamas — cujos líderes, vale lembrar, encontraram justamente no Catar um abrigo protegido e confortável.

Contando com uma emissora estatal que atua internacionalmente como instrumento de relações públicas —  a rede Al-Jazeera —, o país tem ferramentas e dinheiro de sobra para criar narrativas enganosas que são repetidas por todo o mundo.

Robert F. Kennedy Jr., secretário de Saúde dos EUA, publicou no X sobre esse assunto nesta semana. Ele começou o post afirmando: “A campanha global de propaganda da Irmandade Muçulmana, financiada pelo Catar, faria Joseph Goebbels parecer um amador. A acusação de genocídio contra Israel é uma piada, mas é um mecanismo eficaz de legitimação do antissemitismo[…] A maioria dos ocidentais que repetem essa acusação são idiotas úteis iludidos por essa campanha de psyops que odeia igualmente judeus, cristãos, Israel e os EUA”.

Post no X: crítica à fake news de genocídio retirada do ar sem explicação.
Reprodução
Post no X: crítica à fake news de genocídio retirada do ar sem explicação.

(Aliás, psyops é um termo que você, leitor, precisa conhecer, caso ainda não o conheça. Trata-se da abreviação da expressão inglesa psychological operations, ou operações psicológicas, e refere-se ao uso planejado e sistemático de informações, propaganda, boatos, símbolos e técnicas de comunicação com o objetivo de influenciar emoções, pensamentos, motivações e comportamentos de indivíduos, grupos ou nações.)

Curiosamente, o post foi retirado do ar sem nenhuma explicação pública após alcançar cerca de 336 mil visualizações.

Por fim, a guerra de Israel em sete frentes de combate, iniciada após a invasão do Hamas, tornou-se o laboratório perfeito para testar a influência estrangeira com o apoio da inteligência artificial. Os resultados foram bem-sucedidos: a imagem internacional de Israel foi gravemente deteriorada e as fake news grassaram na mídia internacional praticamente sem impedimentos.

 Toda atenção é pouca.

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