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Sua hora mais bonita, como parceiro da humanidade, é quando mostra sua fidelidade aos pobres moradores de rua, imundos, gente que nada tem para lhe dar, a não ser carinho

A fidelidade do cão a seu dono é legendária. Não foi à toa que Vinicius de Moraes chamou o uísque de ‘cachorro-engarrafado’, melhor amigo do homem
Reprodução Pinterest
A fidelidade do cão a seu dono é legendária. Não foi à toa que Vinicius de Moraes chamou o uísque de ‘cachorro-engarrafado’, melhor amigo do homem

A fidelidade do cão a seu dono é legendária. Não foi à toa que Vinicius de Moraes chamou o uísque de ‘cachorro-engarrafado’, melhor amigo do homem. Mas não é no colo de madame que o Luluzinho tem o seu maior momento, embora possa ser celebrado no chá das cinco, como uma vitrine de elegância e fragrância a competir com outros animaizinhos de igual pedigree.

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Sua hora mais bonita, como parceiro da humanidade, é quando mostra sua fidelidade aos pobres moradores de rua, imundos, gente que nada tem para lhe dar, a não ser carinho. Mais impressionantes são suas manifestações de afeto aos drogados largados no chão sujo e fétido, quando dá a seu dono uma lambida consoladora.

Na última ação policial na Cracolândia de São Paulo, lá estava o amigo do homem, solidário, aguentando até bombas de dispersão de multidões — ele que detesta até barulho dos estalos de São João — sem arredar pé do dono, a quem dedica sua vida, na pobreza e na pobreza, sem vislumbrar riqueza.

Tudo isso a respeito de uma moça que encontrei de manhã na Rodoviária de Paraty e que veio conversar comigo. Jovem, cabelos soltos, talvez 22 anos, cachorro colado à perna, ambos muito magros, lembrando a Baleia de Graciliano.

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Desenvolta, declara-se uma “personalidade bipolar”, sem que ninguém houvesse perguntado nada. Expressão sofisticada, mostra conhecimento técnico do distúrbio, deve ter passado por um psicólogo, talvez psiquiatra. Não pediu nada, mas me encarava com a determinação de seus olhos redondos e escuros, pronta para detalhar melhor seu diagnóstico.

“Está na fase boa?”, arrisquei, ao que ela assentiu com a cabeça. Ato contínuo, passei-lhe 15 reais, não pedidos, que ela empalmou e agradeceu. E disse: “Vou tomar café da manhã, pão com manteiga e geleia, condimento que não dispenso”.

Achei que ela não havia definido de forma correta a geleia como condimento e fui ao ‘Aurélio’ para conferir. “Condimento — substância aromática, geralmente de origem vegetal, usada para realçar o sabor dos alimentos. Portanto, geleia não é condimento. Mas o vocábulo que ela usou não foi nada mal para uma moradora de rua. Ou seria ela uma artista a desenvolver, com o cachorro, a personagem de sua próxima novela?

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