
A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante para se transformar em uma questão operacional para o mercado de comunicação . Depois de meses em que agências, marcas e profissionais experimentaram ferramentas generativas de maneira quase artesanal, o movimento agora entra em outra fase: a tecnologia começa a ganhar estrutura, equipe, processos e orçamento próprios.
O lançamento do Global Studio, nova vertical da agência Global dedicada à produção potencializada por inteligência artificial generativa, é um sinal dessa mudança.
A proposta reúne profissionais de direção criativa, design, audiovisual, motion, produção e especialistas em IA para desenvolver imagens, vídeos, áudios, shootings híbridos, motion graphics e concept art. O núcleo atende tanto clientes da agência quanto marcas externas e já aplicou o modelo em trabalhos para empresas como Docile, Fruki e Elev .
À primeira vista, pode parecer apenas mais uma agência criando uma área de IA. Mas o movimento revela algo maior sobre o futuro da publicidade : a inteligência artificial começa a deixar de ser uma ferramenta complementar para se tornar parte da infraestrutura criativa das marcas.
Da experimentação à operação
Até pouco tempo, incorporar IA à publicidade significava, muitas vezes, testar uma ferramenta, gerar uma imagem, produzir um roteiro ou acelerar alguma etapa da pós-produção.
Agora, a discussão é outra.
Quando uma agência cria uma vertical específica para isso, com liderança, profissionais especializados e uma lógica própria de operação, a tecnologia deixa de depender da curiosidade individual de um funcionário ou da iniciativa isolada de uma equipe.
Ela passa a fazer parte do negócio.
Essa transição é importante porque responde a uma pressão concreta do mercado. O ambiente digital exige cada vez mais conteúdo, em mais formatos, para mais plataformas e em intervalos menores. A lógica de uma grande campanha com poucas peças está sendo substituída por uma necessidade permanente de produção.
O consumidor não vê uma marca apenas em um comercial de 30 segundos. Ele a encontra em um vídeo curto, um story, um carrossel, uma animação, um anúncio personalizado, uma experiência interativa.
A escala passou a fazer parte da criatividade.
Produzir sem perder a identidade
É justamente aqui que a discussão sobre IA fica mais interessante. Produzir centenas de imagens ou vídeos não é, por si só, uma vantagem competitiva. Se todas as marcas puderem fazer isso, a abundância rapidamente se transforma em ruído.
O verdadeiro desafio será produzir muito sem parecer genérico.
A Global aposta em um modelo que combina ferramentas generativas com profissionais de criação, design, audiovisual, motion e produção. A premissa é partir de um conceito, de uma linguagem e de um sistema visual de marca para depois usar a tecnologia como instrumento de escala.
Essa lógica parece mais sustentável do que simplesmente perguntar o que uma ferramenta de IA consegue produzir.
A pergunta passa a ser: o que a marca quer dizer e como a tecnologia pode ajudá-la a dizer isso melhor, mais rápido e em mais lugares?
É uma mudança sutil, mas fundamental.
A criatividade humana muda de lugar
Existe também uma dimensão cultural nessa transformação. Quando uma máquina consegue gerar imagens, vídeos, trilhas e outras peças em poucos segundos, o valor do trabalho criativo não desaparece. Ele muda de lugar.
Briefing, direção, repertório, curadoria, edição e capacidade de reconhecer o que faz sentido para uma marca ganham ainda mais importância.
O profissional criativo tende a deixar de ser apenas alguém que executa uma peça para assumir, cada vez mais, o papel de quem define caminhos, seleciona possibilidades e constrói coerência.
Isso também explica por que o Global Studio não é estruturado apenas com especialistas em IA . A equipe combina tecnologia com diferentes disciplinas criativas.
A inteligência artificial pode ampliar as possibilidades. Mas ainda é necessário alguém para decidir quais delas merecem existir.
Quando velocidade vira expectativa
Há, entretanto, um risco que o mercado precisa discutir. Se a IA reduz tempo e custo de produção, é natural que os clientes passem a esperar mais entregas, mais versões e mais velocidade. O ganho de produtividade pode, paradoxalmente, criar uma nova pressão sobre os profissionais.
A pergunta será se a tecnologia será usada para liberar tempo para pensar melhor ou simplesmente para produzir mais. Essa diferença determinará boa parte do impacto da IA na indústria criativa.
O Global Studio chega justamente nesse momento. A unidade será liderada por Vini Marques, na direção criativa; Jordana Rosa, na frente comercial; e Roberto Simões, responsável por infraestrutura e execução . A estrutura reforça a ideia de que IA não é mais apenas uma pauta do departamento de inovação. Ela atravessa criação, negócios e operação.
A próxima disputa será pela originalidade
A publicidade sempre foi uma indústria de escala, mas também de diferenciação. A IA resolve parte do primeiro problema. O segundo continua em aberto.
Quanto mais fácil fica produzir conteúdo, mais difícil pode ficar produzir algo que realmente importe.
Por isso, o movimento mais relevante do Global Studio talvez não esteja na tecnologia em si. Está na tentativa de colocá-la dentro de um modelo criativo organizado.
A próxima vantagem competitiva das agências não será simplesmente saber usar IA. Isso tende a se tornar básico.
Será saber o que não pedir para a IA fazer, em quais espaços a inteligência humana continua indispensável e como transformar velocidade em relevância. No fim, a tecnologia pode produzir mais conteúdo. Mas não garante que alguém queira parar para olhar.
* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG