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Mara Gabrilli lembra um dos principais fatores do período eleitoral e os impactos causados pelas notícias falsas durante as eleições de 2018

Norteei minha vida na política pela conduta do meu pai, homem amável, trabalhador e ético, que viveu na pele os desmandos da corrupção no país durante a gestão do então prefeito de Santo André, Celso Daniel. Desde que meu pai se foi e entrei para a vida pública, procurei ser a antítese de tudo que a política suja representava. Procurei, além de focar em discursos sobre moralidade, mostrar na prática bons exemplos à sociedade brasileira, tão carente ainda de espelhos.

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Fake news foi um dos principais assuntos do período eleitoral
Nelson Jr./ ASICS/ TSE
Fake news foi um dos principais assuntos do período eleitoral

Nessas eleições, no entanto, o que vimos em grande parte das disputas foi uma avalanche de discursos, falas e de notícias falsas ( fake news ) que nada mostraram ao eleitor o que ele tinha e tem por direito saber: propostas e ideias de seus postulantes a representantes no Poder Público.

Nos dias que anteciparam as eleições, fui vítima de ataques que se propagaram de maneira supersônica pelo ciberespaço. Calúnias, mentiras e questionamentos absurdos que em vinte anos de vida púbica não imaginei passar.  Quando se é alvo de fake news, a sensação de angústia e vulnerabilidade são muito presentes. É torturante ver que a maioria das pessoas que recebem uma notícia falsa não buscam uma segunda fonte ou veículo confiável que confirme a veracidade do conteúdo. Elas simplesmente tomam o que recebem como verdade absoluta. E infelizmente há quem alimente essa conduta tão nociva, gerando um grande desserviço à democracia.  

Essa experiência me levou a pensar muito sobre o papel que a internet tomou no Brasil. O que antes era visto como espaço democrático para a livre troca de ideias, tornou-se um campo de trincheiras repletas de embates maniqueístas e dados manipulados.

Fato é que a disputa entre muitos candidatos tornou-se um palco de extremos, onde muitos boatos impulsionaram candidaturas e afundaram outras. Mais que isso, e o que me preocupa realmente, as eleições 2018 deflagraram o quão despreparados ainda estamos diante de uma era digital que se expande a cada dia. Será que nosso senso de interpretação e o próprio sistema educacional no Brasil ainda não caminham no analógico?

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Ao mesmo tempo que a internet abriu possibilidades para a democratização do conhecimento – o que é inegavelmente louvável – não preparamos as pessoas a se tornarem receptores aptos a detectar o que é básico: distinguir o que é uma mentira.

Segundo pesquisa do Datafolha, quase metade dos eleitores que usam o WhatsApp diz acreditar nas notícias que recebem pelo aplicativo. Para 47%, as informações que chegam são confiáveis. Por outro lado, estudos apontam que boa parte desse conteúdo não deveria ser digno de confiança. Um levantamento realizado entre 16 de setembro e 7 de outubro que monitorou 347 grupos de WhatsApp de cunho político mostrou que apenas 8% das imagens poderiam ser classificadas como verdadeiras.  Isso mostra o quão o cidadão brasileiro acessa e acredita em conteúdos falsos.

Empoderamos as pessoas a produzirem e compartilharem conteúdo, mas não as instruímos sobre outras questões mais importantes como ter senso crítico, ético e responsabilidade sobre a informação que distribui. E nós, representantes da sociedade, temos que dar o exemplo para que o conteúdo que chega até o estudante, à dona de casa, aos jovens, aos idosos e a qualquer cidadão, seja propositivo, não ofenda a dignidade humana e não incite nenhuma forma de violência ou discriminação.

Nessas eleições, foram registrados dezenas de casos de agressão por motivações políticas. E nesse sentido, nós, políticos, temos, sim, o dever de pautar não só nossas campanhas de forma ética e responsável, mas nossos mandatos, que, fundamentalmente, devem contemplar o diálogo. É um compromisso que temos com o futuro das gerações.

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A maioria de nossas crianças têm acesso a tecnologias cada dia mais cedo. Não por acaso, as escolas têm um desafio enorme pela frente, que é o de ensinar e capacitar seus alunos a ler e interpretar o mundo com olhar crítico. Hoje, a maior parte de nossos alunos tem dificuldades em decodificar e interpretar um texto simples. E essa também é uma responsabilidade do candidato que nessas eleições combateu ou não as fake news. Essa é uma responsabilidade de todos nós, sociedade.

As eleições passaram e temos à frente grandes expectativas para o país. As maiores e mais positivas, dependerão, no entanto, do acesso à educação, politica pública com maior poder de transformar realidades, e da conduta que nossos representantes adotarão daqui para frente. Em era de fake news , os esforços em prol da transparência e da ética precisam ser redobrados – e comprovados.

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