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Colunista do iG, Mara Gabrilli conta a importância de Temple Grandin para o o processo de inclusão no campo e como isso é importante para economia

A autista Temple Grandin passou boa parte de sua infância sem se comunicar com o mundo. Até os 12 anos, ela não olhava nos olhos de ninguém, tampouco falava. Nascida em 1947, época em que pouco se sabia sobre o autismo, a americana foi levada pela família a passar uma temporada na fazenda longe dos ruídos tão incômodos da cidade. Era isso ou a internação numa clínica psiquiátrica.

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No campo, Grandim descobriu sua empatia com os bichos e criou um método que revolucionou o manejo humanitário de gados. Ela projetou currais curvos que reduziam o estresse dos animais antes de serem levados ao abate. Temple Grandin  se tornou referência para pecuaristas no mundo inteiro, inclusive aqui no Brasil, onde a prevalência de deficiência entre a população rural é tão considerável quanto na zona urbana.

De acordo com o Censo 2010, cerca de 15% dos brasileiros com deficiência moram em áreas rurais. São aproximadamente sete milhões de pessoas, número que equivale a toda população do nosso vizinho Paraguai.

De acordo com o Censo 2010, cerca de 15% dos brasileiros com deficiência moram em áreas rurais. São aproximadamente sete milhões de pessoas, número que equivale a toda população do nosso vizinho Paraguai.

Mara Gabrilli conta história de Temple Grandin
Arquivo pessoal
Mara Gabrilli conta história de Temple Grandin

Diferente do que muita gente pensa, esse contingente também produz na zona rural. Aliás, incluir pessoas com deficiência no setor é fundamental para que a produção do país caminhe de forma sustentável, afinal não existe sustentabilidade quando não há inclusão.

O agronegócio é um dos principais pilares que sustentam a economia nacional, se não o principal. São 19 milhões de pessoas empregadas diretamente e dezenas de empresas ligadas à cadeia que fornecem os insumos para o campo, que compram a matéria-prima e fazem o processamento para a colocação no mercado, gerando mais emprego e renda para os brasileiros.

Nosso estado de São Paulo, por exemplo, é o principal produtor e exportador agrícola do Brasil. O campo paulista é um dos mais desenvolvidos no planeta, responsável por 15% da economia do estado.

O interior paulista ainda é o maior produtor mundial de suco de laranja e responde por 58% do suco produzido industrialmente no planeta. Pouca gente sabe, mas de cada 10 copos de suco de laranja consumidos no mundo, 6 são originários de São Paulo.

Valorizar essa produção e incluir a diversidade humana nesse processo é um compromisso que quero levar ao Senado.

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De acordo com o Censo Agro 2017, a idade das pessoas que trabalham em estabelecimentos rurais aumentou nos grupos acima de 45 anos, o que mostra o potencial do setor em incluir também uma parcela da população que muitas vezes encontra resistência para se recolocar no mercado de trabalho.

Tal dado deflagra nossa necessidade de investir também em equipamentos e tecnologias assistivas que possibilitem a contratação de mão de obra idosa, de pessoas com algum tipo de dificuldade de locomoção, que não ouve ou que não enxerga.

Nos EUA, por exemplo, há safras de vinhos produzidas integralmente por agricultores cegos, um diferencial na produção que faz toda a diferença no produto final que vai parar na prateleira e passa a ter valor agregado. Um diferencial que o consumidor leva em consideração na hora de escolher determinado produto.

E para alavancar ainda mais esse setor, o trabalho das cooperativas têm um papel fundamental, inclusive com a participação das mulheres. Hoje, cerca de 14% dos lares na zona rural são dirigidos por elas. A ONU, inclusive, decretou 2018 como o Ano da Mulher Rural. A ideia é chamar atenção para quem cuida desde a terra até a comida que vai parar no prato.

Sabemos que ainda há um longo caminho para o equilíbrio de direitos e oportunidades para as mulheres no campo, principalmente quando nos referimos às mulheres indígenas, que criam o gado, plantam, pescam, caçam e, ainda assim, não fazem parte da tomada de decisões de diversas políticas em nosso país. Só em 2018, o Brasil conseguiu eleger sua primeira deputada federal desde que a Câmara foi criada, em 1824. Um passo fundamental para o processo de empoderamento da mulher indígena.

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Precisamos olhar para o futuro do agronegócio vislumbrando o meio-ambiente, o emprego e o uso de novas tecnologias, sem deixar de incluir todas as pessoas e culturas do nosso país. A maior riqueza do Brasil está em nossas terras e na diversidade e potencial de trabalho do nosso povo. Como já apontava  Temple Grandin .