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Cortes do governo federal ameaçam pesquisas em andamento e funcionamento de universidades

ciencia brasileira
Divulgação
CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico)

Aqui no instituto onde trabalho há uma sala de estudantes tomada pelo mofo. Pesquisadores muitas vezes devem trabalhar em computadores defasados, com 15 anos ou mais. No banheiro, lavamos as mãos com detergente de cozinha.

Ainda assim, fazemos pesquisa de ponta. Temos projetos de colaboração com a NASA, com Harvard, com a França, Suécia, Japão. Utilizamos os telescópios mais avançados do mundo. Temos pesquisadoras premiadas nacional e internacionalmente por contribuições à ciência. E temos estudantes de mestrado e doutorado que, mesmo com salários congelados há 6 anos, trabalham duro para seguir em frente e levar adiante uma luta pela excelência.

Infelizmente, o cenário é cada vez pior. O governo anunciou recentemente um contingenciamento de mais de 2 bilhões de reais no orçamento do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, o que compromete as atividades de pesquisa de 2019.

Além disso, recentemente anunciou um corte linear de 30% para todas as universidades federais, o que impossibilita as instituições, já em situação precária, de seguir funcionando normalmente. E essa verba não irá para a educação básica, que também sofreu bloqueios de pelo menos 1 bilhão de reais.

Enquanto escrevia esse texto, li sobre as suspensões de bolsas de pós-graduação . É um pacote de medidas que ataca diretamente o potencial de pesquisa brasileira.


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O caso do financiamento privado à pesquisa

Escrevi sobre os cortes nas redes sociais, e recebi diversos comentários sobre como deveríamos buscar financiamento privado.

Acho que parcerias com empresas são fundamentais em qualquer país que queira crescer. No entanto, elas não deveriam ser vistas como solução final.

Empresas investem em atividades que gerem lucro imediato, e uma das principais características da ciência básica é o planejamento a longo prazo. Não há um produto a ser vendido, mas um crescimento através do conhecimento. Não conheço nenhuma empresa interessada em investir em minha pesquisa sobre a formação de galáxias, mas nem por isso a considero menos importante.

A NASA é um excelente exemplo. Existem parcerias com a indústria aeroespacial, mas a maior parte da verba da agência vem do governo estadunidense. Esse dinheiro deve cobrir todas as atividades de pesquisa da instituição.

Sem financiamento público no mundo, não haveria foto do buraco negro, não haveria onda gravitacional, não haveria Bóson de Higgs.


O caso das universidades privadas

Pior ainda, quando falo da situação das universidades recebo diversos comentários sugerindo a substituição do modelo pela implantação do ensino superior privado. Dizem que o custo por estudante é muito elevado nas universidades federais.

É importante entender que o ensino não é a única atividade desenvolvida em universidades. Aqui se faz pesquisa, divulgação científica. Temos laboratórios, hospitais. Os custos da universidade vão muito além da sala de aula.

As universidades privadas respondem por menos de 5% da ciência no país — o resto é desenvolvido em universidades ou institutos de pesquisa públicos. É inevitável: o foco de instituições particulares é diferente, aplicado. Das 20 melhores universidades do país, apenas uma (a PUC-RS) é privada.

Se você acha que as universidades públicas têm problemas, acredite: eu também acho. No entanto o caminho não é a sua destruição, mas sim o investimento para que possam crescer, ao invés de morrerem sufocadas. As universidades públicas são o berço da inovação no Brasil.


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O caminho do futuro

Eu sei que é um chavão, mas precisamos lembrar: ciência e educação não são gastos, mas sim investimentos. Deveríamos quebrar com um modelo colonial de dependência científica de países desenvolvidos. 

A proposta de cortes visando a eficiência é equivocada. São medidas tomadas por políticos com pouca vivência em ambientes de pesquisa básica, onde o importante é fomentar o pensamento crítico científico a longo prazo.

Estamos em uma encruzilhada, e podemos optar pelo obscurantismo ou o crescimento. Para escolher bem, o apoio da sociedade é fundamental, e nós cientistas devemos mostrar a todos o que fazemos. Sair às ruas, divulgar ciência. Ou então seremos jogados para escanteio e cairemos no esquecimento.


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