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Astrônomos brasileiros desvendam mistérios das Nuvens de Magalhães — Mas como você poderia saber?

Exemplo de três grupos estelares na Pequena Nuvem de Magalhães observados pela equipe de astrônomos brasileiros.
ESA/Hubble, VISCACHA, Sociedade Astronômica Brasileira
Exemplo de três grupos estelares na Pequena Nuvem de Magalhães observados pela equipe de astrônomos brasileiros.

Na semana passada, astrônomos brasileiros divulgaram importantes descobertas sobre a formação de galáxias no Universo. Utilizando a tecnologia mais avançada, apontaram seus telescópios para as Nuvens de Magalhães para estudar as origens das vizinhas da nossa Via Láctea.

Ao observar os grupos de estrelas com telescópios no Chile, os pesquisadores puderam examinar com cuidado o nascimento destas estrelas. O trabalho utilizou um equipamento laser de última geração, que atinge dezenas de quilômetros de altitude e pode corrigir a distorção atmosférica, permitindo que o instrumento funcione quase como um telescópio espacial.

Dessa forma, investigando cada estrela individualmente, mediram sua composição química e sua idade. Isso permite determinar se essas estrelas foram criadas numa eventual colisão entre as Nuvens de Magalhães e a Via Láctea que pode ter acontecido há centenas de milhões de anos.

Bruno Dias, astrônomo brasileiro que trabalha no Chile e gerencia o projeto, afirmou que “as periferias das Nuvens de Magalhães guardam os segredos da história da relação com a Via Láctea, e nosso trabalho nos próximos anos será desvendar este mistério intergaláctico.”


A divulgação de ciência no Brasil


Fantástico, certo? Uma descoberta importante, mas você tinha ouvido falar? Como essas notícias chegam à sociedade?

Muito se fala de como é difícil fazer ciência no Brasil (é difícil mesmo, podem acreditar), mas algo que talvez represente um desafio ainda maior é divulgar a ciência ao grande público.

Os grandes institutos na Europa e nos Estados Unidos contam com uma equipe dedicada. Jornalistas e designers contratados exclusivamente para criar o material de divulgação. Conversam com os pesquisadores e produzem as notícias, os vídeos, os gráficos que aparecem nos jornais.

Já participei de uma reunião da equipe de comunicação da NASA, e é impressionante. São experts no assunto, e rapidamente conseguem pensar na melhor maneira para contar a história da descoberta.

Essa história é então levada aos jornalistas, que entrevistam os pesquisadores e reproduzem a matéria, que chega aos olhos e ouvidos de milhões.


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Comunicação científica no Brasil: a triste verdade


Aqui no Brasil, a coisa é muito mais complicada. Não temos verbas para um departamento de comunicação. Com poucas exceções, universidades contratam um jornalista para atender uma comunidade de 100.000 pessoas, o que é insuficiente.

O resultado? Cadernos de ciência de todo o país recebem uma enxurrada de notícias internacionais, e astrônomos norte-americanos ganham mais espaço na imprensa brasileira que os próprios brasileiros.

Acreditem, temos ciência de ponta no Brasil. Francisco Maia e Leandro Kerber, que também lideram o estudo, são excelentes cientistas, mas aqui só se ouve falar dos seus colegas estrangeiros.


A solução: investimento


Esse é um problema relativamente simples de se resolver: precisamos de mais investimentos em comunicação científica.

A população só vai entender a importância dos investimentos em ciência quando conhecer a pesquisa que se faz por aqui — e só conhecerão a ciência brasileira quando houver uma estratégia de comunicação apropriada. Para justificar o investimento em pesquisa, é preciso explicar os seus benefícios a quem paga os impostos.

Ou então podemos esperar o inverso: a população desconhece a ciência nacional, o que serve de desculpa para políticos deixarem de investir em pesquisa, em um círculo vicioso de atraso científico.


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