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Canibalismo galáctico alimenta a galáxia mais luminosa já observada

Impressão artística da colisão de galáxias W2246-0526,: a galáxia mais luminosa já vista no universo, e suas três companheiras
NRAO/AUI/NSF, S. Dagnello
Impressão artística da colisão de galáxias W2246-0526,: a galáxia mais luminosa já vista no universo, e suas três companheiras

Imagine a cena. Dois protagonistas do filme Velozes e Furiosos, indo um de encontro ao outro. Ao invés de carros, cada um dirige uma galáxia de 100 mil anos-luz de tamanho. Eles se aproximam um do outro a 400.000 quilômetros por hora! Cada galáxia é composta por 100 bilhões de estrelas! O resultado é uma espetacular colisão de galáxias , digna dos melhores filmes de ação!

Ao mesmo tempo, o resultado a princípio pode ser decepcionante para alguns. Muitos pensam que as colisões de galáxias resultam no choque direto de suas estrelas, mas a coisa não funciona bem assim.

Pense o seguinte: colocando o problema em escala, se as estrelas tivessem o tamanho aproximado de bolas de pingue-pongue, a distância típica entre elas seria mais ou menos a distância de São Paulo a Bogotá, na Colômbia! Ou seja, há muito espaço vazio entre as estrelas, e as chances de que elas colidam é mínima.

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A colisão de galáxias: fogos de artifício cósmicos

Ora, se a colisão de galáxias não implica no choque das estrelas que a compõem, qual o interesse do evento? Ah, isso está relacionado aos outros ingredientes que estão presentes em uma galáxia.

Galáxias são feitas não apenas de estrelas, mas também de gás e poeira. Esse gás é o principal combustível para formar novas estrelas, e quando galáxias colidem o gás aí presente se agita o suficiente para gerar um grande surto de formação estelar, dando à luz (com trocadilho, por favor) bilhões de novas estrelas.

Não apenas isso, mas a colisão pode levar uma enorme quantidade de gás para o centro da galáxia. Na verdade, é tanto material em um espaço tão pequeno que o processo favorece a formação de um buraco negro com bilhões de vezes a massa do nosso próprio Sol.

O resultado pode ser algo parecido com o que acontece em W2246-0526, objeto de estudo de Tanio Diaz-Santos e colaboradores, publicado na semana passada na prestigiosa revista Science. Os astrônomos conseguiram confirmar que essa galáxia — a mais brilhante já vista em todo o universo! — é resultado de um processo de canibalismo, em que a galáxia central está “engolindo" suas companheiras.

Durante a refeição, grande parte do gás aí presente é levado para o centro de W2246-0526. Antes de cair no buraco negro, o gás gira em uma espiral de gás com grandes velocidades e energias incríveis, uma dança da morte espetacular capaz de brilhar mais que toda as centenas de bilhões de estrelas da nossa própria galáxia, a Via Láctea.

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O destino final de nossa galáxia

Como veremos o céu noturno durante a colisão com a galáxia de Andrômeda?
NASA; ESA; Z. Levay and R. van der Marel, STScI; T. Hallas, and A. Mellinger
Como veremos o céu noturno durante a colisão com a galáxia de Andrômeda?

Aliás, falando na Via Láctea, ela também está em rota de colisão com uma vizinha, a galáxia de Andrômeda — a meros 2,5 milhões de anos-luz de distância. Em alguns bilhões de anos as duas irão inevitavelmente se chocar.

Observando cuidadosamente o movimento da galáxia de Andrômeda com o telescópio espacial Hubble e simulando o encontro utilizando computadores de última geração, cientistas criaram há alguns anos imagens virtuais da aparência do céu noturno durante os vários bilhões de anos que a colisão de galáxias leva até sua conclusão.

O espetáculo é assombroso. É uma pena que provavelmente não estaremos mais aqui para apreciar a vista, já que provavelmente o Sol já terá evaporado todos os oceanos terrestres. Mas isso já é conversa para outra coluna… 

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