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Protagonista de "A Cabana do Pai Tomás", em 1969, atriz se tornou um dos grandes ícones da televisão do País

Ruth de Souza foi a primeira atriz negra a atuar como protagonista na TV Brasileira
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Ruth de Souza foi a primeira atriz negra a atuar como protagonista na TV Brasileira

Ícone da dramaturgia com mais de 70 anos de carreira, a trajetória marcante da atriz Ruth de Souza abriu portas para os artistas negros no cenário artístico brasileiro. Ruth de Souza foi a primeira atriz negra a atuar como protagonista na TV Brasileira, em A Cabana do Pai Tomás (1969). Ruth também fez história ao ser a primeira atriz negra a representar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Foi no dia 8 de maio de 1945, em “O imperador Jones”, de Eugene O’Neil, numa montagem do Teatro Experimental do Negro, grupo fundado por Abdias Nascimento e Agnaldo Camargo.

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Atriz premiada, no cinema, Ruth de Souza brilhou com o saudoso Grande Otelo
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Atriz premiada, no cinema, Ruth de Souza brilhou com o saudoso Grande Otelo

Com o sucesso, a atriz foi a primeira brasileira a concorrer ao Leão de Ouro, no Festival de Veneza, por sua atuação no filme Sinhá Moça (1953). Hoje com 96 anos, a carioca Ruth de Souza transformou o sonho de menina de ser atriz em realidade. Foi justamente esse pioneirismo que chamou a atenção do professor Júlio Claudio da Silva, Doutor em História Social e professor adjunto da Universidade do Estado do Amazonas, que fez deste aspecto da trajetória de Ruth de Souza, o ponto principal de sua tese de doutorado. “Dentro do propósito das universidades, de identificar a contribuição do negro na formação cultural do Brasil, e dentro do contexto da cultura do racismo”, faz questão de frisar o professor.

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Um pouco da história da atriz pode ser conferida no livro Uma Estrela Negra no Teatro Brasileiro: Relações Raciais e de Gênero nas Memórias de Ruth de Souza, de autoria do próprio Júlio Claudio da Silva (obra publicada pela Editora Manaus). O livro enfoca "esse teatro" que surgiu para denunciar o racismo e abrir espaço para o artista negro. E Ruth de Souza tem importância ímpar nessa história. A publicação - o livro não é uma biografia - mantém o foco entre os anos de 1945 a 1952, período em que a atriz ingressa no Teatro Experimental do Negro até seu retorno dos EUA.

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A atriz Ruth de Souza na noite de lançamento do livro com Júlio Claudio da Silva
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A atriz Ruth de Souza na noite de lançamento do livro com Júlio Claudio da Silva

Em sua primeira parte, a obra aborda a memória pública Ruth de Souza, analisando entrevistas que a atriz concedeu, inclusive para o MIS (Museu da Imagem e do Som) e para a produção da biografia Ruth de Souza: A Estrela Negra. Em sua segunda parte, aborda o acervo que a própria atriz colecionou ao longo da carreira. São recortes com reportagens, críticas ao grupo em que atuou, matérias a respeito das produções das quais participou, prêmios, etc.

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“É um registro dessa memória de uma pessoa púbica do ponto de vista do cenário cultural e também evidencia a forma com a qual a própria Ruth foi construindo a sua memória, o que chamamos a ‘construção de si’”, diz Júlio Claudio.Destacando ainda que, além do mérito profissional nas conquistas da atriz, não há como dissociar toda a história da artista das questões raciais e de gênero: uma grande profissional negra e mulher. Componentes que tornam ainda mais especial a trajetória de Ruth de Souza, grande dama da dramaturgia nacional.

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Em cena: Ruth de Souza, a
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Em cena: Ruth de Souza, a "pérola negra", brilha com o ator Milton Gonçalves

Sua admiração pelo cinema vem também do fato de conceder mais espaço, em sua opinião, para atores negros, afinal, para Ruth de Souza, o preconceito sempre foi uma realidade com a qual precisou lidar: “Tudo é uma questão de educação”, resume a atriz homenageada pela CCBB São Paulo, com uma mostra retrospectiva que reuniu 25 produções de cinema e TV que tiveram a ilustre participação da artista. Ruth de Souza será sempre lembrada por ter encarado palcos e estúdios com a coragem e a determinação de quem abre caminhos.