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Embalada pelos grupos nas redes sociais, teoria da conspiração ainda conta com celebridades para se massificar; entenda o perigo da pseudociência

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Reprodução/Shutterstock
Refutado há 2 mil anos, terraplanismo segue vivo com a ajuda da internet

Uma das mais conhecidas e mais absurdas teorias da conspiração da atualidade é o terraplanismo, crença de que o planeta Terra tem formato achatado e não esférico, conforme já provado pela ciência e até por meio de vídeos e fotografias do espaço.

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 Apesar dos constantes avanços científicos e do aumento de missões no espaço, o aumento das tecnologias também se formou um ambiente ideal para a proliferação de teorias conspiratórias, como é o caso do terraplanismo . Apesar de auxiliar na democratização do conhecimento, a internet acabou virando ferramenta para os grupos conspiracionistas, que utilizam a rede para espalhar suas fake news e ganhar um número maior de seguidores.

Entenda agora a história da teoria da Terra plana, as origens do movimento e porque ele não é tão inofensivo quanto parece.

História

A ideia de que a Terra seria redonda foi registrada pela primeira vez na Grécia, pelo matemático Eratóstenes, que utilizou as sombras para comprovar a esfericidade do planeta cerca de 200 anos antes do nascimento de Jesus.

"Imagine uma bola de basquete atravessada por dois espetos. Se você acende uma lanterna a uma certa distância diretamente sobre um dos espetos, de tal forma que ele não faça nenhuma sombra, o segundo vai projetar uma sombra sobre a bola, e quanto mais distante esteja este espeto do primeiro maior será a sombra. Eratóstenes usou esse método, sabendo a distância entre duas estacas, e chegou a um valor do raio da Terra muito próximo ao verdadeiro", explica o doutor em astrofísica e colunista do iG Thiago Signorini.

A teoria era bastante difundida dentro da comunidade científica e aceita pela maioria dos estudiosos. Durante o período da Idade Média, alguns autores se mostraram contrários à ideia da Terra esférica, mas o tema foi pouco explorado.

Na sociedade em geral, pouco se falava sobre o formato do planeta ao longo dos séculos. A igreja católica, por sua vez, estava mais preocupada em tentar provar que a Terra seria o centro do Universo, teoria que também foi desbancada pela ciência.

A esfericidade da Terra chegou ao conhecimento popular quando as grandes navegações foram responsáveis pela descoberta da América. A partir deste momento da história, a ideia do planeta redondo acabou sendo mais estudado e foi difundida para toda a sociedade.

Quem são os terraplanistas de hoje?

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Creative Commons / Strebe
Projeção azimutal do globo terrestre, usado como modelo de mapa da Terra Plana.

Apesar de alguns autores se mostrarem a favor do terraplanismo ao longo dos séculos, a teoria da conspiração só ganhou a forma que tem hoje em 1956, quando o britânico Samuel Shenton criou a Sociedade da Terra Plana, grupo mais proeminente do gênero. A sociedade nasceu da Sociedade Zetética Universal, que também defendia a mesma teoria, com um foco religioso. Alguns anos depois, a sede foi transferida para a Califórnia, nos Estados Unidos.

Shenton foi o responsável por substituir a crença cristã pela pseudociência, que é o grande combustível dos terraplanistas modernos. "A existência de teorias da conspiração tem um fundo sociológico e psicológico. Em grande parte acontecem porque o indivíduo se sente de alguma maneira especial ou privilegiado", explica Signorini.

Em uma reportagem de janeiro, o iG monitorou os fóruns internacionais para traçar um perfil dos militantes antivacina. O perfil traçado foi de mães, norte-americanas, na faixa dos 30 anos, suburbanas, de classe média-alta, donas de casa ou vendedoras em empresas de marketing multinível.

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No caso dos terraplanistas, os membros são majoritariamente homens, de todas as idades, escolarizados e também de classe média-alta. Pesquisando o histórico de postagens dos defensores da Terra plana, é possível observar que, ao contrário dos antivacina , eles são propensos a acreditar em outras teorias da conspiração e se consideram mais inteligentes que as outras pessoas.

Um dos termos mais usados pelos terraplanistas é "sheeple" que, em inglês, e a junção das palavras "ovelha" e "pessoa". É um termo pejorativo para  conformistas.

A questão política também é importante para traçar o perfil desses conspiracionistas que, em geral, têm ideias ligadas à extrema direita e à negação da ciência. O governo e agências como a Nasa, o FBI e a CIA são alguns dos principais alvos dos membros destas comunidades.

"Eles [o governo] não querem que a gente espalhe a verdade", escreve um dos membros em um fórum do Reddit. "Tomem cuidado, pois nós somos monitorados a podemos sofrer represálias a qualquer momento", escreve outro. 

De acordo com Signorini, as redes sociais representaram uma sobrevida para os terraplanistas. "A Sociedade da Terra Plana estava quase extinta antes da internet. Mas a web e as redes sociais permitiram que as teorias conspiratórias chegassem a um número muito maior de indivíduos. Em aproximadamente 50 anos, desde sua criação, a sociedade chegou a um máximo de 3500 membros, quase desaparecendo devido a um incêndio em sua sede. Hoje, após a criação de grupos de discussão online, os grupos que defendem o modelo da Terra Plana contam com centenas de milhares de membros", explica o cientista.

A teoria conspiratória já atravessou as fronteiras dos Estados Unidos e se espalha como um vírus por todo o mundo. Uma pesquisa divulgada pelo Instituto Datafolha em julho revelou que 7% dos brasileiros acreditam que a Terra é plana.

Os famosos e a Terra plana

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Divulgação
Shaquille O'Neal, um dos maiores jogadores de basquete de todos os tempos, acredita no terraplanismo

As celebridades norte-americanas também auxiliaram na popularização da teoria da Terra Plana. Cantores como Kanye West e B.O.B, além do influenciador digital Logan Paul já "saíram do armário" como terraplanistas.

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No entanto, a teoria parece atrair principalmente os atletas: Shaquille O’Neal, um dos maiores jogadores de basquete de todos os tempos se revelou a favor da teoria. Astros da NBA como Draymond Green e Kyrie Irving também acompanharam o ídolo. No futebol americano, astros como Stefon Diggs e Sammy Watkins também já se revelaram terraplanistas.

Já no Brasil, a figura mais famosa ligada ao terraplanismo está na política. Apesar de nunca ter afirmado concordar com a teoria, o filósofo Olavo de Carvalho, considerado guru ideológico do presidente Jair Bolsonaro, deu a entender que tem dúvidas sobre a esfericidade do planeta.

"Não estudei o assunto da terra plana. Só assisti a uns vídeos de experimentos que mostram a planicidade das superfícies aquáticas, e não consegui encontrar, até agora, nada que os refute", escreveu Olavo.

É fácil provar que a Terra é redonda?

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Nasa
Uma série de experimentos simples pode comprovar a esfericidade da Terra

Thiago Signori explica que é muito fácil, até para leigos, entender a esfericidade da Terra. Além do método de Eratóstenes, o astrofísico deu mais alguns exemplos. "As constelações do céu noturno são diferentes no hemisfério norte e no hemisfério sul, e giram no céu de forma bem conhecida. Isso acontece porque a Terra é uma esfera que gira no espaço", explica.

"Finalmente, eu poderia citar os eclipses. Não apenas a sombra da Terra na Lua durante um eclipse lunar mostra o formato da Terra, mas a trajetória da sombra do Sol na Terra durante um eclipse lunar é uma curva complicada devido ao formato terrestre. Conseguimos prever a hora e local exatos de um eclipse solar que acontecerá daqui a 50 anos, e isso só é possível com um entendimento preciso da circunferência terrestre", exemplifica o doutor.

No entanto, segundo o cientista, ainda é difícil convencer quem acredita da teoria conspiratória, que apresenta refutações falsas para os experimentos. Ao mesmo tempo, eles também negam a autenticidade milhares de imagens do planeta feitas por satélites e astronautas.

Os perigos das teorias da conspiração

Por conta da exposição dos famosos e da internet, a teoria da Terra plana também passou a ser motivo de piada nas próprias redes sociais, no entanto, a massificação das pseudociências pode ser perigosa, de acordo com Signorini.

"Se a ideia da Terra Plana parece inocente, temos que pensar também como as evidências científicas deveriam guiar a formulação de políticas públicas referentes, por exemplo, ao aquecimento global ou o desmatamento na Amazônia", diz o astrofísico.

Ele ainda cobra mais engajamento dos colegas acadêmicos para combater teorias como o terraplanismo . "Ainda existem cientistas que acreditam que simplesmente listar os fatos é suficiente, e isso é um erro", opina. "Temos que fazer um trabalho de comunicação mais aprofundado, conectando com a sociedade de maneira mais profunda, fazendo com que entendem não apenas os fatos mas o próprio funcionamento da ciência e o método científico", diz o astrofísico.