João de Deus
Reprodução: Flickr
João de Deus

A Justiça de Goiás condenou João Teixeira de Faria, conhecido como João de Deus, e o Centro Espírita Dom Inácio de Loyola a pagar R$ 20 milhões por danos morais coletivos decorrentes dos  abusos sexuais praticados no contexto dos atendimentos espirituais em Abadiânia (GO). A sentença, proferida na terça-feira (6), também determina a reparação dos danos sofridos individualmente pelas vítimas.

Na fundamentação, o magistrado afirmou que os abusos violaram a dignidade e a liberdade sexual das vítimas, além da confiança depositada na instituição religiosa.

“A transformação deliberada de espaço destinado à caridade e ao culto em ambiente de predação sexual sistemática configura ofensa intolerável ao patrimônio moral difuso, apta a gerar repulsa e indignação socialmente relevantes”, escreveu.


Centro Espírita Dom Inácio de Loyota, onde ocorriam os abusos, também foi condenada
Marcelo Camargo\Agência Brasil
Centro Espírita Dom Inácio de Loyota, onde ocorriam os abusos, também foi condenada


Ao justificar o valor da indenização coletiva, o juiz destacou a repetição dos episódios, a vulnerabilidade das mulheres que procuravam os atendimentos e a dimensão dos fatos descritos no processo.

“As provas revelam centenas de vítimas, reiteração por período que se estende por décadas, aproveitamento da autoridade espiritual sobre pessoas doentes e fragilizadas, e alcance nacional e internacional.”

Responsabilidade do centro espírita

O magistrado considerou que João de Deus era fundador, presidente e principal líder espiritual da entidade. Segundo a sentença, a autoridade religiosa, o acesso às frequentadoras, os espaços reservados e o encaminhamento de mulheres por auxiliares estavam diretamente relacionados à posição ocupada pelo médium.

O juiz rejeitou o argumento de que os crimes seriam atos particulares sem relação com a instituição.

“A própria estrutura institucional forneceu a logística física, humana e de legitimação social sem a qual as agressões não teriam ocorrido com a reiteração e a segurança que os autos revelam”, afirmou.

A sentença também afastou o argumento de que os benefícios sociais e econômicos proporcionados pela entidade à cidade impediriam o reconhecimento dos danos. Para o magistrado, as atividades assistenciais tornavam mais grave a ruptura da confiança das pessoas que buscavam acolhimento.

Destinação dos recursos

Os R$ 20 milhões deverão ser depositados em uma conta judicial. A destinação será definida posteriormente, após o trânsito em julgado, quando não houver mais possibilidade de recurso, com preferência para iniciativas em Abadiânia e políticas de prevenção e enfrentamento da violência sexual contra mulheres.

O valor terá correção monetária a partir da sentença e juros contados desde 7 de dezembro de 2018.

Para garantir o pagamento, a Justiça manteve a indisponibilidade da Fazenda Agropastoril Dom Inácio, em Anápolis. Uma perícia realizada durante o processo avaliou a propriedade em R$ 41 milhões. O imóvel havia sido indicado pelo próprio João de Deus como garantia.

Além da reparação coletiva, a sentença reconheceu a obrigação de indenizar as pessoas que comprovarem ter sofrido abusos abrangidos pelo processo. Os valores serão definidos individualmente, conforme as circunstâncias de cada episódio e seus efeitos sobre a vítima.

Cada interessada deverá demonstrar que sofreu o abuso e que o episódio ocorreu dentro da entidade ou teve relação direta com os atendimentos e as atividades organizadas por ela. Para o ressarcimento de danos materiais, também será necessário comprovar os prejuízos e sua ligação com a violência sofrida.

Defesa vai recorrer

No processo, as defesas contestaram a atuação do Ministério Público, alegaram prescrição e negaram a existência de danos coletivos. O centro espírita sustentou que não participou dos crimes e que não poderia responder por atos atribuídos exclusivamente a João de Deus. Os argumentos foram rejeitados.

A defesa do médium informou que recorrerá. Os advogados classificaram a condenação como desproporcional e afirmaram que a sentença desconsiderou provas apresentadas no processo e absolvições obtidas em outras ações.

Relembre o caso

João de Deus ficou conhecido pelos atendimentos espirituais realizados na Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, que atraíam pessoas de diferentes regiões do Brasil e do exterior. As denúncias de violência sexual ganharam repercussão nacional após relatos apresentados na edição de 7 de dezembro de 2018 do programa Conversa com Bial, da TV Globo. Mulheres disseram que os abusos ocorriam durante atendimentos procurados em busca de auxílio espiritual.

Após a divulgação, o Ministério Público criou uma força-tarefa para investigar os casos. Conforme o histórico registrado na sentença cível, foram recebidos mais de 300 relatos, posteriormente consolidados em 355 atendimentos de pessoas residentes no Brasil e no exterior.
João de Deus foi preso preventivamente em 16 de dezembro de 2018. A primeira condenação por crimes sexuais ocorreu em dezembro de 2019, quando recebeu pena de 19 anos e quatro meses de reclusão em um processo envolvendo quatro vítimas.

Em setembro de 2023, o Tribunal de Justiça de Goiás informou que havia concluído, em primeira instância, o julgamento de 17 ações penais. Naquele momento, as penas impostas somavam 489 anos e quatro meses de reclusão. As condenações incluíam estupro, estupro de vulnerável e violação sexual mediante fraude.

João de Deus permanece em prisão domiciliar em Anápolis. A nova sentença trata da responsabilidade civil pelos abusos e das indenizações, em processo distinto das ações criminais.


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