
Formadas por grupos armados, as milícias operam de forma paralela ou com o consentimento das forças de segurança estatais. No Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, o termo milícia se associou à máfia. Agentes de segurança pública (ativos ou inativos) e civis passaram a controlar territórios, atuando com atividades ilegais, incluindo a exploração de serviços essenciais, como transporte e acesso à moradia. O esquema funciona por meio da cobrança de taxas em troca da oferta de segurança.
Como surgiu
No Brasil, as milícias começaram a surgir entre as décadas de 1950 e 1960, no Rio de Janeiro, durante a Ditadura Militar. Naquele período, a atuação das forças de segurança estava concentrada principalmente nas áreas mais nobres da cidade. Ao mesmo tempo, com o aumento desordenado da cidade e o aumento da desigualdade social, a violência nas regiões periféricas aumentou.
Nesse contexto, surgiram os primeiros chamados "esquadrão da morte", grupos formados principalmente por policiais que atuavam com o argumento de combater a criminalidade nas periferias. Enquanto traficantes eram vistos como a principal ameaça à ordem e à segurança, esses grupos passaram a se apresentar como uma alternativa para enfrentar o crime, utilizando a violência como instrumento de repressão.
A partir do momento em que passaram a atuar, os moradores começaram a ser cobrados por serviços essenciais, como gás, televisão a cabo, transporte e aluguel, entre outros.
Primeiros casos conhecidos
Um dos primeiros casos conhecidos é o da comunidade de Rio das Pedras, na região de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, onde comerciantes locais se organizaram para pagar policiais para que não permitissem que a comunidade fosse tomada por traficantes ou outros tipos de criminosos, em 1979.
Em 1993, um crime que ganhou repercussão internacional explicitou o problema, a Chacina da Candelária.
Naquele ano, oito jovens foram assassinados por policiais enquanto dormiam do lado de fora de uma igreja no centro do Rio de Janeiro. O crime ocorreu após uma suposta briga envolvendo os menores e os agentes de segurança.
No início dos anos 2000, estes grupos de paramilitares começaram a competir pelas áreas controladas pelas facções do tráfico de drogas.
Ao longo dos anos, vários estados presenciaram o surgimento desses esquadrões da morte, que passaram a disputar entre si o controle territorial de regiões onde o Estado não conseguia garantir a segurança da população.
Segundo o Mapa Histórico dos Grupos Armados do Rio de Janeiro, produzido pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (Geni/UFF) e pelo Instituto Fogo Cruzado (IFC), cerca de 4 milhões de moradores viviam, em 2024, sob o controle ou a influência de grupos armados, o equivalente a 34,9% da população.
No mapa abaixo, as áreas destacadas em azul representam os territórios dominados por milícias no Rio de Janeiro até 2024. Já as áreas em vermelho representam os territórios dominados pelo Comando Vermelho. Com isso, podemos ver a disputa por territórios entre a milícia e as facções.

As milícias no Rio de Janeiro
Em entrevista ao iG, o sociólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio Souza Alves, como começou a formação dos grupos de extermínio
“De um lado, havia uma estrutura que matava, formada por policiais civis, policiais militares, bombeiros, ou seja, agentes estatais de segurança. Do outro, empresários e comerciantes que financiavam essas mortes de acordo com seus interesses. E havia ainda uma estrutura política que protegia e dava condições para que esses grupos de extermínio atuassem.”Sociólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio Souza Alves
Ainda de acordo com o sociólogo, no início da década de 1990, diversos integrantes de grupos de extermínio passaram a se eleger para cargos públicos, principalmente na Baixada Fluminense. Muitos deles se tornaram vereadores, deputados estaduais e até prefeitos da região.
Foi também em meados dos anos 1990 que, segundo ele, começaram a surgir as primeiras estruturas que dariam origem às milícias. Esses grupos ampliaram sua atuação, deixando de se limitar aos assassinatos e à cobrança de taxas de segurança para explorar outros tipos de atividades criminosas.
“São grupos que passaram a atuar na ocupação irregular de terras urbanas e a controlar serviços como a venda de lotes, o fornecimento de água, a instalação de TV clandestina e o transporte alternativo clandestino.”Sociólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio Souza Alves

Ainda de acordo com José Cláudio, com o passar dos anos, as milícias também passaram a contar com uma participação maior de civis. Apesar disso, ele afirma que, desde a origem, a base dessas organizações sempre foi formada por agentes públicos de segurança e que elas se consolidaram com o apoio de setores do poder público.
“Então é uma estrutura que, desde o início dos meus estudos, eu vejo como uma estrutura dentro do próprio Estado, com representantes no Legislativo, no Executivo e no Judiciário. Não representantes diretos, mas com suporte, apoio e proteção que recebem. E, muitas vezes, são esses próprios atores dentro do Estado que são os próprios milicianos.” Sociólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio Souza Alves
Sobre a evolução das milícias ao longo das últimas décadas, José Cláudio afirma que um dos principais marcos foi a transformação desses grupos em estruturas mais amplas, que deixaram de atuar apenas como organizações criminosas locais para desenvolver projetos de poder político e econômico.
“Primeiro, eles controlam o território, controlam o dinheiro que circula naquela área, as economias que se movimentam ali, a instalação de empreendimentos e, fundamentalmente, o controle eleitoral, ou seja, o controle dos votos.” Sociólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio Souza Alves
Segundo o professor, outro aspecto importante é a mudança nas relações entre as milícias e as facções criminosas. Ele lembra que, durante muitos anos, as milícias se apresentavam como um grupo criado para proteger a população e se colocavam como rivais do Comando Vermelho. No entanto, esse cenário mudou com as disputas internas pela liderança da maior milícia da Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Após a morte de Wellington da Silva Braga, o Ecko, seu irmão, Luís Antônio da Silva Braga, conhecido como Zinho, assumiu o comando da organização. Com o surgimento de novos líderes e disputas pelo controle da milícia, alianças antes consideradas impossíveis passaram a acontecer.
“O próprio Zinho foi capaz de fazer alianças com o Comando Vermelho, algo que, no passado, era impensável. Ele fez alianças para se proteger no confronto com outros milicianos que queriam tomar o seu lugar.” Sociólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio Souza Alves
Para José Cláudio, além da expansão das atividades ilegais, as milícias passaram a investir em mecanismos para dar aparência de legalidade aos recursos obtidos com o crime.
“Os capitais criminais vão na direção de montar empresas, participar de licitações e controlar empresas que, por exemplo, fornecem trabalhadores terceirizados às prefeituras. Ou seja, eles estão diversificando os investimentos para legalizar o seu capital. Essa é uma dimensão, um avanço que eles têm cada vez maior dentro do mundo criminal.” Sociólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio Souza Alves
Além disso, há também uma evolução nas negociações onde eles começam a cobrar taxas dos fornecedores.
“Eles passam a controlar os fornecedores ou se tornam os próprios fornecedores. As padarias, por exemplo, são obrigadas a comprar a farinha de trigo fornecida pela milícia. As farmácias só podem vender os medicamentos determinados por ela. A milícia também fecha acordos com determinadas marcas. Os pães vendidos nos supermercados, por exemplo, só podem ser de marcas específicas, que já pagam taxas ao grupo. Ou seja, eles não controlam apenas os comerciantes, mas também os próprios produtos comercializados, que passam a ser definidos pela estrutura miliciana.”Sociólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio Souza Alves
Em relação ao mercado imobiliário, José Cláudio destaca que as milícias têm forte atuação na venda de imóveis e terrenos, especialmente na Zona Oeste do Rio de Janeiro, em regiões como Muzema, Gardênia Azul, Rio das Pedras e Tijuquinha.
Expansão da milícia no Rio de Janeiro nas últimas décadas
O professor da UFRRJ, José Cláudio, afirma que, após um período de forte expansão, as milícias enfrentam dificuldades para manter o avanço territorial, principalmente devido à retomada de áreas pelo Comando Vermelho.
"O Comando Vermelho se reorganizou, acumulou capital e aproveitou fragilidades da milícia, como disputas internas. Além disso, conseguiu estabelecer acordos mais sólidos com a polícia, o que permitiu retomar áreas perdidas e frear a expansão das milícias." Sociólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio Souza Alves
Segundo o pesquisador, isso não significa que as milícias deixaram de avançar. Para ele, a dinâmica depende de fatores locais, como disputas entre grupos criminosos, alianças políticas e mudanças no cenário eleitoral.
"Sempre é um cenário muito instável. É preciso analisar a realidade de cada território, os grupos envolvidos e as disputas locais para entender como essas mudanças acontecem." Sociólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio Souza Alves
José Cláudio também avalia que o principal desafio do poder público no combate às milícias é enfrentar sua influência política e econômica, e não apenas reforçar ações policiais.
"Não basta endurecer operações policiais. É preciso identificar os grupos políticos ligados às milícias, investigar o patrimônio e os negócios que financiam essas organizações, além de proteger a população dos territórios controlados. O ponto central é impedir a presença e a influência das milícias dentro do Estado. Sem isso, elas continuam se fortalecendo.” Sociólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio Souza Alves
Na avaliação do sociólogo, apenas reforçar as ações de segurança pública não é suficiente para combater as milícias. É preciso enfrentar a estrutura política.
"A milícia é um problema essencialmente político. Não adianta apostar apenas em discursos de endurecimento ou em operações de impacto enquanto a estrutura de poder que sustenta esses grupos permanece intacta." Sociólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio Souza Alves

Segundo o professor, a prioridade deve ser proteger a população que vive sob o controle desses grupos e enfraquecer sua influência dentro do Estado.
"É preciso retirar a presença das milícias da estrutura estatal e garantir proteção às comunidades. Só assim será possível restringir sua atuação e restabelecer a presença do Estado nesses territórios." Sociólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio Souza Alves
Ele acrescenta que essa influência também beneficia outras organizações criminosas.
"O tráfico, especialmente o Comando Vermelho, também aprendeu com a estrutura miliciana a estabelecer acordos e mecanismos de proteção.” Sociólogo e professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), José Cláudio Souza Alves
CPI das Milícias
Em 2008, o envolvimento de políticos com milícias foi um dos principais pontos tratados pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou o tema há quase dez anos na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj).
A investigação durou 150 dias e mapeou como esses grupos utilizavam áreas dominadas para explorar serviços clandestinos e pedir votos.
No final, a comissão pediu o indiciamento de 266 pessoas, incluindo políticos, policiais e bombeiros. Cerca de 200 milicianos foram presos.
Segundo a Secretaria de Segurança, em 2009, ano seguinte ao da CPI das Milícias, 246 milicianos foram presos no estado do Rio de Janeiro.