
Era noite no Recife da década de 1970, uma sombra se projeta nos muros. Não parece gente, não tem corpo ou rosto, mas parte de alguém. A Perna Cabeluda não caminha, ela aparece sem aviso, ataca e assusta. Provoca uma histeria coletiva e some.
O mistério da Perna Cabeluda ganhou as páginas dos jornais recifenses em 1975 e, mais recentemente, os cinemas através do filme "O Agente Secreto", do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho.
O nascimento de uma lenda
O jornalista e escritor Raimundo Carrero dispensa o título de “pai” da Perna Cabeluda. Em entrevista ao Portal iG, Carrero conta que a lenda nasceu a partir do relato de homem que apareceu na redação do jornal onde trabalhava, o Diário de Pernambuco.
“Eu vi uma pessoa com a perna machucada e perguntei: ‘o que foi isso?’ Ele me respondeu que tinha sido a Perna Cabeluda. Eu quis saber como era essa perna e ele disse que não sabia, que não tinha visto, só sentiu o golpe. Na época, as pessoas contavam que só aparecia a sombra na parede. Então, eu disse que estava ótimo e que iria escrever sobre isso”, relembra.
A história foi publicada na coluna policial, a qual o escritor era responsável. “Eu escrevi como se fosse um folheto de Cordel”, frisa. Os textos foram publicados na edição do domingo. À época, as pessoas chegaram a dizer que Raimundo Carrero estava fazendo literatura no jornal. “É a realidade”, retrucava o jornalista.

“Após a publicação, recebi vários telefonemas. Algumas pessoas diziam que eu estava mentindo, que eu inventei. Outros jornalistas começaram a procurar pela história, iam (sic) ao pronto-socorro. Foi um pandemônio, uma maluquice. As pessoas começaram a achar que era verdade, embora, na minha cabeça, eu achava que era só uma criação, um personagem”, disse à reportagem.
Driblando a censura
O Recife dos anos 1970 estava inserido na Ditadura Militar brasileira, período marcado por repressão política, censura e controle social, como explica o professor de história e especialista em Políticas Sociais, José Carlos Mardock. Foi nesse contexto político e social que surgiu a Perna Cabeluda.
Ao Portal iG, o docente salienta que essa conjuntura contribuiu para a popularização da lenda.
“O clima de medo e repressão favoreceu a circulação de rumores e narrativas orais. A censura à imprensa estimulava explicações simbólicas para a violência e o perigo urbano. A lenda expressava o medo do “invisível” que rondava a cidade à noite. Assim, funcionava como metáfora das tensões sociais do período. O imaginário popular ganhou força nesse contexto”.
Na tentativa de driblar a censura, imposta pelo regime ditatorial, Raimundo Carrero mudou a forma de escrever.
“Ao invés de escrever comumente, eu escrevia como cordelista. Contando uma história fantasiosa e terminava em uma espécie de lenda. Mas, é claro que a censura impediu muita gente de escrever. Então, eu aproveitava de qualquer maneira a cultura popular de Pernambuco e do Brasil. Era o melhor caminho. Escrever como folheto de cordel possibilitava, naturalmente, a publicação sem dificuldade, não caía na censura”.

Oralidade, memória e identidade
O rádio, segundo Carrero, foi um grande divulgador da história. Entretanto, é na oralidade que ela resiste ao tempo. Para Mardock, as lendas, como a Perna Cabeluda, reforçam identidades locais e circulam facilmente mediante a oralidade, como também pelas redes sociais.
“No Brasil, a tradição oral fortalece essas narrativas. Mesmo em cidades modernas, o imaginário coletivo permanece ativo”, ressalta.
As lendas, conforme o historiador, são registros simbólicos da memória social.
“Elas [as lendas] revelam sentimentos coletivos como medo, insegurança e repressão. No caso do Recife, ajudam a entender o impacto da ditadura no cotidiano popular. Funcionam como narrativas alternativas à história oficial. Assim, contribuem para a compreensão cultural do período”.
Para Raimundo Carrero a lenda está presente no imaginário pernambucano, principalmente, para quem nasceu no Recife. “Foi uma coisa que ultrapassou toda a imaginação do próprio criador, ganhou as rádios e está aí até hoje”.
Por questões de saúde, Carrero ainda não assistiu ao “Agente Secreto”, mas espera vê-lo em breve. “Quando eu ver, a gente volta a conversar”, finalizou a entrevista.