Aparecida
Reprodução/Viação Itapemirim - 19.09.2022
Aparecida


As cidades de  Aparecida e Guaratinguetá , localizadas no interior paulista, podem perder o status de  estância turística  devido às regras de ranqueamento utilizadas pelo Estado de São Paulo . A metodologia utilizada, no entanto, não é bem vista pela professora doutora da USP Mariana Aldrigui , especialista ouvida pelo  Portal iG .

Essa possível  mudança  pode acarretar a perda de recursos fundamentais para as cidades, procuradas principalmente para o chamado turismo religioso.

Cidades podem ficar sem alternativas 

Na avaliação de Mariana Aldrigui, que é professora e pesquisadora em Turismo na Universidade de São Paulo (USP), as vizinhas Aparecida e Guaratinguetá têm características diferentes, apesar do público procurar basicamente o mesmo destino, que são as atrações ligadas à fé.

''Aparecida é sem dúvida o destino mais visitado do estado, sem efeitos de sazonalidade, e totalmente dependente do turismo religioso para sua economia. Guaratinguetá ainda tem outras alternativas, mas está se consolidando gradualmente como um centro de peregrinação religiosa.”

Os impactos, segundo a pesquisadora, serão refletidos na infraestrutura, como segurança pública e preservação, o que comprometeria a experiência do turista.

O Santuário de Nossa Senhora Aparecida  recebe 9 milhões de visitantes ao longo do ano, o que causa uma demanda constante de serviços básicos, como transporte, coleta de lixo e atendimento médico. Sem o título de estância, não haverá apoio estadual, e o peso dos custos recairia sobre as prefeituras.

Aparecida tem pouco mais de 30 mil habitantes e como a maior parte da receita vai para o santuário, a arrecadação direta da prefeitura fica limitada. Por isso, há a necessidade de investimentos públicos para equilibrar a balança, segundo a especialista.

Basílica da Nossa Senhora da Aparecida
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Basílica da Nossa Senhora da Aparecida

Já em Guaratinguetá, a escala é menor, mas os recursos poderiam ser usados para melhorar acesso e permanência dos visitantes sem interferir no cotidiano da cidade, avalia a especialista.

A cidade, de acordo com Aldrigui, ainda teria alternativas ligadas ao patrimônio histórico e cultural, mas também está cada vez mais identificada com o turismo religioso. O  Santuário de Frei Galvão, por exemplo, recebe mais de 1 milhão de visitantes ao ano.

A Serra da Mantiqueira ganha vida em Guaratinguetá, no bairro do Gomeral, oferecendo gastronomia e natureza a todos
Reprodução/Flickr/MATHIAS, M H
A Serra da Mantiqueira ganha vida em Guaratinguetá, no bairro do Gomeral, oferecendo gastronomia e natureza a todos






Ranqueamento

Mariana Aldrigui avaliou que o atual sistema de repasse de verbas estaduais que define as estâncias, não acompanha as mudanças do setor.

O que fez sentido há mais de 70 anos já não é mais aceitável, especialmente quando existem metodologias capazes de medir fluxo de visitantes, arrecadação, tipo de turismo de forma muito mais confiável e independente da redação de documentos baseados em aspectos fixos e pouco relacionados com o turismo contemporâneo'', disse ao iG .

Basílica da Nossa Senhora da Aparecida – Aparecida/SP
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Basílica da Nossa Senhora da Aparecida – Aparecida/SP

Para a pesquisadora, os recursos não são aplicados de forma transparente.

A maior parte dos projetos tem pouca relação com turismo em si, pela falta de dados consistentes sobre o que foi financiado ao longo dos anos e qual foi o resultado obtido em termos de números de visitantes e receita/arrecadação .”

Segundo Mariana, cidades com comprovada vocação turística ficam de fora da lista de beneficiadas, enquanto outras que não apresentam atividades significativas continuam recebendo repasses sem resultados práticos.

A professora defendeu que o governo estadual e a Assembleia Legislativa assumam a responsabilidade de propor mudanças. Para ela, é preciso adotar critérios modernos, baseados em dados reais, para medir a importância e a demanda de cada município.

Futuro do turismo religioso no Vale do Paraíba

A professora da USP avaliou que esse momento poderia ser usado para pressionar o governo estadual a rever a política que determina o título de  Estância Turística .

Eu penso que os dois prefeitos deveriam liderar um movimento de revisão dessa política arcaica de ranqueamento, exigindo que se usem dados mais modernos e independentes para avaliação do turismo local .”

Entre os indicadores que poderiam ser utilizados, ela aponta o volume de empregos gerados, diretos e indiretos, o número de turistas em relação ao de habitantes e o tempo médio de permanência dos visitantes.

Esses dados, segundo Mariana, permitiriam uma análise mais justa da importância de cada cidade no mapa turístico do estado. Ao mesmo tempo, ajudariam a definir estratégias de crescimento sem sobrecarregar a população local.

Naturalmente, se há uma regra, ela deve ser cumprida, mas é fundamental que haja bom senso e reconhecimento de que as práticas evoluem e a gestão pública do turismo também deve evoluir .”

Estado rebate as críticas

Em nota enviada ao  Portal iG, a  Secretaria de Turismo e Viagens de São Paulo rebateu as críticas feitas e afirmou que se trata de um processo técnico e transparente. 

" O resultado do ranqueamento referente ao ano de 2024 ainda será divulgado, com base nos requisitos (fluxo turístico, atrativos turísticos, equipamentos e serviços e obrigatoriedades e melhorias implementadas). Esse processo, que ocorre a cada três anos, é técnico, transparente e conta com a participação das associações que representam os municípios (APRECESP, AMITESP e AMITUR). "

A pasta ainda afirma que " a prestação de contas dos convênios em andamento não fez parte dos critérios aplicados neste ranqueamento, que não se trata de uma decisão política, mas sim um instrumento técnico de gestão previsto em lei, tendo como objetivo a garantia de que os recursos sejam destinados de forma justa e transparente . "

Por fim, a nota esclarece que o processo é atualizado constantemente, como em 2024, quando os critérios mudaram após consulta pública e diálogo com as entidades representativas dos municípios. O  iG  entrou em contato com a  ALESP  para comentar o caso, mas não obteve respostas.

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