Hipster da PF, Lucas Valença
Reprodução / Instagram
Hipster da PF, Lucas Valença

“Dane-se o Cunha! Quem é esse boy policial?”, disparou em letras garrafais uma usuária do Twitter na tarde de uma quarta-feira, há cinco anos. Seu comentário veio junto com uma das primeiras fotos divulgadas após a prisão do ex-deputado Eduardo Cunha, que estampavam as manchetes dos principais sites de notícia do país. A imagem mostrava Cunha ao centro, escoltado por agentes da Polícia Federal, quando entrava no jatinho que o levaria à prisão em Curitiba.

O “boy” destacado era jovem, de porte atlético, com uma longa barba e cabelos presos com um coque samurai. Usava camiseta preta, jeans e tênis de trilha.  Logo ganhou o apelido de Hipster da Federal. Foi assim que, em 2016, a Revista Época descreveu, pela primeira vez, o perfil do rapaz crossfiteiro e com barba de lenhador que ganhou popularidades após uma rápida aparição como coadjuvante na notícia de prisão de Cunha, preso num dos mais rumorosos casos de corrupção do país.

Em variações, além de Hipster ou Lenhador da Federal, também virou o Boy magia da corporação. O jatinho mal pousara em Curitiba e, por volta das 17 horas da quarta-feira, dia 19 de outubro daquele ano, e a turba do Twitter já estava em festa: o perfil do agente misterioso havia sido descoberto – seu nome é Lucas Valença ( assassinado na última quarta-feira ) –, assim como um álbum no Instagram de 96 fotos. Em um terço delas, ele aparece sem camisa. No restante, há imagens de noitadas com os amigos, treinamentos de tiros, saltos de paraquedas, drinques em Jurerê Internacional e até um selfie em vídeo fazendo caras e bocas embaixo de uma cachoeira. Em 24 horas, o perfil, antes seguido por algumas centenas de pessoas, passou a reunir mais de 164 mil curiosos. Ontem, depois do anúncio de sua morte trágica , esses números tiveram novo impulsionamento após só ter aumentado nos últimos anos.

Veja fotos de Lucas Valença, o Hipster da Federal:


Naquela época, no auge da novidade, as fãs mandavam declarações: “Me chama de Cunha e vem me prender”, escreveu uma. “Olá! Cometi crimes, mas só confessarei a você”, disse outra. “Eu me rendo! Pode me algemar... que gatooo”, sugeriu uma terceira simpatizante, em meio a outros comentários impublicáveis. O sucesso foi tamanho que, nas chamadas dos principais sites do país, as notícias sobre a prisão de Cunha dividiam espaço com as que perguntavam: “Afinal, quem era o tal Hipster da Federal que causara comoção nas redes sociais?”.

Lucas Soares Dantas Valença, de 30 anos, está lotado na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Na PF desde 2014, Valença chegou a integrar o Comando de Operações Táticas da corporação. Também trabalhou na Polícia Militar do Distrito Federal. O agente é natural de Posse, cidade do interior de Goiás com apenas 33 mil habitantes. Antes de iniciar a carreira como policial, Valença cursou engenharia elétrica na Universidade Federal de Goiás. Na madrugada da última quarta-feira, ao tentar invadir a casa de um fazendeiro, em Buritinópolis, em surto psicótico, ele foi morto com um tiro . Lucas foi se recolher numa cidade ainda menor, de apenas 3 mil habitantes, também em Goiás, mas no interior. Uma situação muito diferente da de quando era o centro das atenções. Logo depois de roubar a cena na prisão de Cunha, ele passou a ser bombardeado por pedidos de entrevistas de jornalistas de diversos veículos.

Ao site EGO, do grupo Globo, limitou-se a dizer a tradicional frase de quem é alçado repentinamente a herói e quer transparecer humildade: “Estava só fazendo o meu trabalho”. Em uma das fotos que surgiram depois do turbilhão em que sua vida foi transformada, ele já aparecia mais confortável no papel de celebridade, vestindo um terno com a legenda "Defendendo a sociedade brasileira", seguida do emoji de mãozinhas para o alto, como se agradecesse aos céus, e de um muque insinuando força.

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A euforia coletiva em torno de Lucas só deu uma refreada quando uma parte de seus fãs de última hora descobriu chegou a suas contas em aplicativos de relacionamentos, como Tinder e até mesmo em sua conta no Facebook. Surgiram histórias de mulheres que disseram já ter “dado match” com o Hipster da Federal no Tinder. A expressão é usada quando dois usuários mostram interesse mútuo e iniciam um diálogo. Na abordagem, segundo os depoimentos, Valença se mostrou muito mulherengo. Em seu perfil no aplicativo de paquera, sua autodescrição corroborava os testemunhos: “Simples, sincero, divertido e meio safado. Fazer o quê”.

No Facebook, a investigação se aprofundou para além das questões de relacionamento. Em comentários, Valença fazia duras críticas aos ex-presidentes Lula e Dilma Roussef. Numa publicação em apoio ao impeachment de Dilma, feita ainda em 2014, o policial escreveu: “Não sei quem foram os felas que colocaram ela (sic) lá! Mas faço questão de fazer parte de quem vai tirar!”. Em outro comentário, Valença colocou em dúvida a confiabilidade do sistema de votação no Brasil. “Por mais que certa parte da população tenha votado nela, a despeito do seu despreparo, gagueira, insegurança, apoio de uma massa de corruptos, prefiro crer que a manipulação das urnas foi o grande responsável por esse lastimável resultado!” Depois da prisão de Cunha, o agente da PF apagou as mensagens assim que se deu conta da repercussão, mas já era tarde demais. Sites de notícia já falavam sobre as posições políticas de Valença. Blogs e perfis nas redes sociais contrários ao impeachment de Dilma questionavam se o Hipster da Federal, na posição de um agente de Estado, poderia se pronunciar de forma tão veemente.

Sua última foto no Instagram era uma pose ao lado do presidente Jair Bolsonaro, mas o registro desapareceu misteriosamente após a  notícia de sua morte se espalhar.


No caso da Lava Jato, as redes sociais já haviam propiciado outros casos de fenômenos de popularidade efêmeros em espaços de tempo curtíssimos. O burburinho sobre o Hipster da Federal é algo parecido com o que aconteceu com o agente Newton Ishii, que ficou conhecido como o Japonês da Federal . Ishii, que apareceu em fotos ao lado de diversos figurões presos pela Operação Lava Jato , virou uma celebridade no Brasil inteiro mesmo sem nunca ter dado uma entrevista sobre seu trabalho. Mesmo condenado por corrupção, por facilitar a entrada de contrabando na fronteira com o Paraguai, ganhou diversas homenagens no Facebook, virou marchinha e uma das fantasias mais usadas no Carnaval de 2016. Lucas Soares Dantas Valença já ganhou sua fan page no Facebook com alguns milhares de seguidores.

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