'Faraó dos bitcoins' alegou princípios de infarto para desbloquear conta
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'Faraó dos bitcoins' alegou princípios de infarto para desbloquear conta

Em maio de 2021, três meses antes de ser preso, Glaidson Acácio dos Santos, o  "faraó dos bitcoins", se via em meio a um impasse. Sucessivamente, diversos bancos encerraram ou bloquearam contas do próprio ex-garçom, de associados ou da empresa dele, a GAS Consultoria, que prometia lucro mensal de 30% aos investidores mediante supostas transações com criptomoedas. Segundo a denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra a quadrilha, que resultou em 17 integrantes do grupo se tornando réus na Justiça Federal por crime contra o sistema financeiro nacional e organização criminosa, Glaidson chegava a fazer intensos apelos para tentar reaver o controle das movimentações.

"Venho, de forma DESESPERADA, solicitar mais uma vez que libere meus limites de transferências diárias em R$ 3 milhões, tanto para transferência para lista de favorecidos, quanto para transferência da mesma titularidade", pediu o ex-garçom em um e-mail para uma funcionária de uma das instituições bancárias com as quais mantinha relação. Na mensagem, com data de 12 de maio de 2021, Glaidson prossegue: "Já tive dois princípios de infarto, porque tenho RESPONSABILIDADE de pagar meus fornecedores e estou sendo impossibilitado de fazer as transferências com MEU próprio capital". As palavras em caixa alta foram mantidas do mesmo modo que na correspondência eletrônica original.

Na busca de convencer o banco, o empresário também cita o "caos pandêmico" e o "desemprego batendo recorde". Ressaltando estar "fora do país" e "desesperado com essa situação", ele, literalmente, implora: "Peço, PELO AMOR DE DEUS, que libere meu limite solicitado". De acordo com o próprio Glaidson, aquele era o terceiro dia consecutivo em que ele enviava e-mails semelhantes à mesma funcionária. O texto da denúncia do MPF não esclarece se houve alguma resposta por parte da instituição.

O documento obtido pelo GLOBO, assinado por seis promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), também traz várias mensagens enviadas pelos bancos para Glaidson. Em 25 de fevereiro, um e-mail remetido por dois gerentes de uma agência situada no NorteShopping pedia que ele comparecesse ao local depois de ter sido identificada "incompatibilidade entre a movimentação financeira e o faturamento/receita comprovado da empresa". A conta acabaria encerrada, sob protestos devoldidos também por e-mail: "Lembramos, com vulto destaque, que o objeto social da empresa prevê muito movimentação de capital de terceiros", argumentava a réplica.

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No dia 14 de junho, outro banco avisou sobre a intenção de romper o vínculo com a GAS Consultoria e seus associados. "Informamos que, neste momento, não temos interesse comercial na continuação do nosso relacionamento. Por isso, comunicamos que estamos promovendo o encerramento de sua conta e do contrato de cartão de crédito", vaticinava a sucinta mensagem.

Para o MPF, a desconfiança das instituições bancárias se deu porque havia "incompatibilidade entre a movimentação financeira e o faturamento/receita comprovado". Além disso, também teria servido como alerta o "uso disseminado de criptomoedas como tipologia de lavagem de dinheiro". Ainda segundo os promotores, esse cenário culminou em "múltiplas comunicações ao COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras, vinculado ao Banco Central), obstáculos de todos os gêneros relativos à operação das contas bancárias e até mesmo encerramento do relacionamento".

Uma das estratégias utilizadas pelo grupo para contornar o problema foi a determinação imposta aos clientes para que não fizessem qualquer referência a criptomoedas ao justificar para os seus bancos as transferências de valores destinados a novos investimentos. A regra constava em uma espécie de manual da empresa, ao qual todos os colaboradores e consultores deveriam seguir. "Informar ao cliente que no momento da transferência NÃO deverá ser mencionado descrição que faça alguma referência a Bitcoin, criptomoedas, criptos, investimentos, BTC",  diz parte do texto.

A regra também constava na ficha cadastral de cada investidor. No documento, a empresa alertava que, caso informações sobre a natureza das transações fossem repassadas a gerentes e funcionários de instituições financeiras, o cliente poderia ter o contrato rescindido, e o valor aplicado, devolvido. O texto alegava que "os bancos estão perdendo mercado na área de investimentos pois as pessoas estão conhecendo outros investimentos mais rentáveis".

Confira quem virou réu:

  • Glaidson Acácio dos Santos (preso)
  • Mirelis Yoseline Diaz Serpa (foragida)
  • Felipe José Silva Novais (foragido)
  • Kamila Martins Novais (foragida)
  • Tunay Pereira Lima (preso)
  • Márcia Pinto dos Anjos (presa)
  • Vicente Gadelha Rocha Neto (foragido)
  • Andrimar Morayma Rivero Vergel (responde em liberdade)
  • Diego Silva Vieira (responde em liberdade)
  • Mariana Barbosa Cordeiro (responde em liberdade)
  • Paulo Henrique de Lana (responde em liberdade)
  • Kelly Pereira Deo de Souza Lana (responde em liberdade)
  • João Marcus Pinheiro Dumas Viana (foragido)
  • Larissa Viana Ferreira Dumas (responde em liberdade)
  • Guilherme Silva de Almeida (responde em liberdade)
  • Alan Gomes Soares (responde em liberdade)
  • Michael de Souza Magno (foragido)

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