Fachada do CNPq
Herivelto Batista/Ascom MCTI
Fachada do CNPq

pane nos sistemas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) durou ao todo 14 dias e foi um reflexo da falta de investimento em tecnologia e em manutenção dos equipamentos do principal servidor da autarquia, de acordo com funcionários ouvidos pela reportagem.

Os problemas começaram na noite do dia 23 de julho e ocorreram no storage VNX8000, sistema fabricado pela EMC e usado pelo CNPq para o armazenamento de dados. O equipamento consiste em uma série de discos rígidos que, no caso do principal órgão de fomento à pesquisa no país, estavam sem manutenção adequada, de acordo com o presidente da Associação dos Servidores do CNPq (Ascon), Roberto Muniz.

"Esse equipamento (o servidor) é antigo e já está fora de linha. Dentro dele, estão os discos rígidos que armazenam a informação e não sofreram problema. A conexão da rede com os discos sim, falhou. Também ficamos sem sistemas de e-mail e sem ramais, nossa telefonia é baseada em um sistema de internet", afirma ele.

A pane afetou o acesso às plataformas Lattes e Carlos Chagas, que armazenam dados de currículos de pesquisadores brasileiros e gerenciam o pagamento de bolsas, respectivamente.

Na prática, os problemas travaram o funcionamento do órgão por quase duas semanas. No dia 2 de agosto, o acesso à plataforma Lattes foi restabelecido de maneira rudimentar, sem a possibilidade de atualização dos currículos dos pesquisadores. Somente no sábado, porém, os sistemas foram plenamente retomados.

Tragédia anunciada

Embora o CNPq não tenha em seus comunicados detalhado quais eram os problemas e por quê levaram tanto tempo para ser solucionados, servidores afirmam que era uma tragédia anunciada.

Um e-mail de um servidor do órgão datado de 26 de julho, por exemplo, três dias depois do pane, afirmava que o equipamento estava fora de garantia e sem contrato de manutenção recorrente. O texto pedia ajuda a outras instituições para substituir peças do storage.

Para Muniz, o problema é reflexo da falta de recursos e de falhas na gestão, que não priorizou a segurança das informações, apesar de ter garantido o backup diário das informações dos sistemas, que incluem mais de 7 milhões de currículos acadêmicos.

"O presidente do CNPq tem afirmado que não há falta de recursos e nós (servidores) discordamos, vemos a queda para o financiamento à pesquisa e à infraestrutura. Há também um componente de gestão, a área de tecnologia da informação deu mais atenção a fazer um aplicativo para celular da plataforma Lattes do que para reforçar o banco de dados", afirma ele.

De fato, dados do Sistema Integrado de Planejamento e Orçamento (SIOP) compilados pela Instituição Fiscal Independente do Senado mostram que o orçamento do órgão é o menor pelo menos desde 2000. Neste ano, a autarquia tem R$ 1,2 bilhão de recursos previstos, ante R$ 2,6 bilhões em 2015.

"Não é só dinheiro para bolsa que falta receita, mas para manter as coisas funcionando, como em laboratórios das unidades de pesquisa do Ministério da Ciência. Não tem dinheiro para comprar materiais como reagentes, equipamentos como microscópios e máquinas não produzidas no Brasil", alerta Muniz.

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Segundo a Ascon, a quantidade de servidores alocados na autarquia caiu de 1.400 em 2014 para cerca de 300 hoje.

Flávia Calé, presidente da Associação Nacional de Pós-Graduandos, alerta para o colapso na infraestrutura de pesquisa no país.

"A queda do Lattes prejudicou quem tentou fazer processos de seleção para mestrados e doutorados, por exemplo, que não necessariamente prorrogaram seus prazos como o CNPq fez. Além disso, a plataforma armazena a memória de toda a pesquisa feita no país", diz ela.

Calé critica o congelamento dos valores de bolsas de estudo de pós-graduação no país, que não são reajustadas há oito anos, mas afirma que o maior problema, no caso do CNPq, é a falta de verbas para a infraestrutura da ciência.

"O impacto maior que a gente sente o sucateamento é na infraestrutura de pesquisa. Os pesquisadores em geral são professores concursados, ou pós-graduados que trabalham voluntariamente porque estudam sem bolsa. A compra de reagentes, insumos e equipamentos, é feita com financiamento intermediado pelo CNPq, que está em uma crise orçamentária", afirma.

"O CNPq aprovou no em edital o financiamento de cerca de 3 mil projetos por mérito, mas não vai financiar nem 400. O estado brasileiro está limitando o alcance da pesquisa científica no país", critica ela.

O presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro diz que, com a solução do problema de seus sistemas, o CNPq terá de correr contra o tempo para definir a concessão de auxílios e aprovar prestações de contas.

"Em agosto costumam sair editais que vão colocar recursos em projetos de ciência e tecnologia. Um atraso longo no cronograma pode inviabilizar e dificultar uma série de auxílios que precisam ser definidos até o fim do ano", diz.


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