Vacinação da Covid mostra racismo estrutural no sistema de saúde, diz pesquisa
Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Vacinação da Covid mostra racismo estrutural no sistema de saúde, diz pesquisa

A campanha de vacinação contra a Covid-19 preteriu a população negra, mesmo quando incluída em critérios de grupos prioritários, e evidenciou o racismo estrutural no sistema de saúde. O alerta é do estudo "Priorização territorial na vacinação da população com menos de 60 anos", realizado pelo Instituto Pólis na cidade de São Paulo.

"Quando você prioriza pessoas mais idosas, acaba priorizando a população branca, que tem maior expectativa de vida do que a negra no Brasil. Na segunda priorização, por comorbidade, acontece a mesma coisa, porque a população negra tem menor acesso a saúde e, portanto, menor acesso a estes diagnósticos", explica Danielle Klintowitz, arquiteta urbanista e coordenadora geral do Instituto Pólis.

A subnotificação de dados raciais foi outro problema identificado pelo estudo na capital paulista. Segundo a pesquisa, 61% das pessoas que receberam o imunizante não tiveram o campo "raça/cor" preenchido.

"O mais curioso é que a subnotificação é maior nos bairros mais centrais e mais ricos, onde a população é majoritariamente branca, chegando a 93% de não-preenchimento. Há uma percepção dos agentes de saúde que estão vacinando de que branco não é raça. Portanto, não é preciso preencher a ficha quando a população branca vai se vacinar", avalia Klintowitz.

Mais negros, menos vacinação

A pesquisadora atenta que a falta de dados sobre raça/cor compromete a elaboração de políticas públicas voltadas para a saúde.

"Quando olhamos os mapas gerais de vacinação, sem notificação por raça, percebemos que os bairros com maior concentração de população negra são justamente os com menos vacinação realizada. Mas, como não há uma boa notificação, não temos confirmação disso e não podemos fazer políticas públicas que revertam essa desigualdade", explica.

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O estudo foi feito com dados do DataSUS e da Secretaria municipal de Saúde de São Paulo, de março de 2020 a maio de 2021. Também participaram do trabalho Jorge Kayano, Vitor Nisida e Lara Cavalcante, pesquisadores do Instituto Pólis; Deivison Faustino, professor da Unifesp e pesquisador do Instituto Amma Psique e Negritude; e Olinda Luiz, pesquisadora do Hospital das Clínicas da USP.

O levantamento mostra que, na capital paulista, a maioria das mortes ocorre nos bairros mais vulneráveis e onde há maior concentração de população negra. Para reverter esse quadro, afirma Klintowitz, é preciso criar um critério territorial, paralelamente aos que estão sendo adotados:

"É preciso fazer mutirões de vacinação nos lugares onde há maior número de mortos, incluindo a abertura de novos postos, e não priorizar a imunização por drive-thru, que privilegia a população mais rica e branca", reivindica. "Também é recomendável promover uma busca ativa nesses bairros, com agentes de saúde, para entender por que as pessoas não estão indo se vacinar".

O avanço da campanha de imunização em áreas negligenciadas pode beneficiar toda a cidade, diz a arquiteta urbanista:

"São desses bairros que as pessoas estão saindo mais para trabalhar, então elas estão fazendo o vírus circular. Se criarmos bolhas de imunização nesses lugares, protegeremos a cidade como um todo".

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