Pelo menos oito farmácias foram interditadas durante operação contra a lavagem de dinheiro da milícia.
Rafael Nascimento de Souza/Agência O Globo
Pelo menos oito farmácias foram interditadas durante operação contra a lavagem de dinheiro da milícia.

O poder paralelo das milícias tem se espandido no Rio de Janeiro , se apossando de diferentes serviços. Ameaças, inclusive de mortes, a fiscais do Conselho Regional de Farmácia (CRF) passaram a ser cada vez mais constantes há pelo menos cinco anos, segundo o órgão.

Os funcionários são intimidados com armas, proibidos de fazerem a fiscalização e, em um dos casos, uma chegou a ser rendida por um miliciano, que entrou em seu carro, em 2018.

Nesta quarta-feira (21), a Polícia Civil faz uma operação em farmácias das zonas Norte e Oeste para coibir a ação do grupo paramilitar que teria no comando Wellington da Silva Braga, o Ecko .

As denúncias feitas pelo conselho foram recebidas e investigadas pela polícia, que viu, nesse tipo de comércio, uma operação de fachada para lavar dinheiro da milícia. As investigações deram início à essa ação, com 10 pessoas foram presas e oito estabelecimentos interditados nesta manhã.

Segundo o CRF, as ameaças aos fiscais que atuavam, principalmente na Zona Oeste, vinham acontecendo há pelo menos cinco anos. Entretanto, as intimidações se intensificaram em 2019. Em pouco menos de um ano foram mais de 60 denúncias de ameaças de morte a esses profissionais.

"O fiscal tem uma rota de fiscalização e cada dia que eles vão, descobrem que aquela área se tornou de risco. Eles têm sido ameaçados com armas, mesmo identificados. Por exemplo, milicianos de Santa Cruz afirmam que ali é a região deles e que as fiscalizações são proibidas", afirma Denise Ribeiro, porta-voz do CRF.

Segundo Denise, em 2018 uma fiscal chegou a ser sequestrada momentaneamente por um miliciano. Com medo do que poderia acontecer, a mulher pulou do carro em movimento.

"Um miliciano entrou no carro da fiscal em 2018 e a obrigou a sair dali. Com medo ela pulou e acabou se machucando", disse.

André Neves, titular da Delegacia do Consumidor (Decon), afirma que, a partir das denúncias do conselho a respeito das ameaças sofridas pelos fiscais nessas regiões, os investigadores acreditam que essas farmácias eram utilizadas para a lavagem de dinheiro dos criminosos.

"Essa investigação começa a partir de notificações do CRF. Fiscais do órgão receberam ameaças de morte durante as fiscalizações [em área de milícia] e a partir daí comecemos a apuração. Hoje, chegamos nesses locais e encontramos dezenas de medicamentos controlados sem permissão e autorização da Anvisa. Além isso, muitas dessas lojas estavam sem alvará de funcionamento", afirmou Neves.

O policial afirma que é preciso combater o braço financeiro desse grupo paramilitar atacando de todas as formas.

"Sabemos que a milícia tem vários braços financeiros, e farmácia é um deles. Há suspeita de lavagem de dinheiro e as investigações estão em andamento para atacar esse grupo que lucra com o dinheiro alheio", declarou o delegado.

Todos os detidos responderão pelos crimes contra a saúde pública, economia popular, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro.

Os agentes estiveram em Campo Grande, Santa Cruz, Cosmos, Paciência, Urucrânia (sub-bairro da Zona Oeste) e Madureira. Nesse bairro, na farmácia Cumani, dois funcionários foram conduzidos à Cidade da Polícia para prestarem esclarecimentos. A loja foi interditada. Além disso, os investigadores apreenderam documentos e medicamentos . Sobre essa rede, que teve diversas unidades vistoriadas, o CRF afirma que ela não tinha licença junto ao órgão para abrir filiais.

"Nessa empresa, recebemos muitas denúncias de que havia uma abertura de filias, mas elas estavam ilegais que configuram tráfico . Apreendemos muitos enternecestes nesses locais", disse.

O Globo ainda não conseguiu contato com representantes da rede farmacêutica.

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