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Girão é investigado por envolvimento na morte da vereadora Marielle Franco

Autorizadas pela Justiça fluminense, equipes da Delegacia de Homicídios da Capital (DHC) e do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) cumprem mandados de busca e apreensão em endereços  do ex-vereador Cristiano Girão e do miliciano Leandro Siqueira de Assis, o Leandro Cabeção ou Gargalhone.  Ao lado do PM aposentado Ronnie Lessa e de outros dois homens, também alvos da operação de hoje, a Déjà vu, eles são suspeitos dos assassinatos do ex-policial André Henrique da Silva, o André Zóio, e de sua companheira, Juliana Sales de Oliveira, em 14 de junho de 2014, na Gardênia Azul, em Jacarepaguá.

O casal foi morto dentro de um Honda Civic prata, dirigido por Zóio, fechado por uma Fiat Doblo prata ocupada por três homens em frente à sede da Associação de Moradores da Gardênia. Miliciano do bairro, Zóio levava a companheira para o trabalho. O casal foi fuzilado com 40 tiros. O crime estaria relacionado à disputa pelo poder da Gardênia.

A operação junta, pela primeira vez numa ação criminosa, Girão e Lessa. Em 2008, o ex-vereador foi denunciado pela CPI das Milícias, presidida pelo então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ), por supostamente chefiar uma organização criminosa na Gardênia. Já Lessa está preso desde março de 2019, acusado de ser o executor da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes um ano antes.

Para a polícia, a operação desta quarta-feira representa um passo importante na direção dos mandantes da morte de Marielle.

Os investigadores chegaram ao apartamento de Girão (ex-PMN, hoje sem partido), em frente à Praia da Barra, às 5h45m. Uma promotora do Gaeco e cinco policiais da DHC estavam no local para fazer as buscas e apreensões. O residencial fica a poucos passos da Avenida Lúcio Costa. Pouco depois das 6h50 os agentes deixaram o prédio com um malote. Por volta das 8h20 foi confirmado que Girão estava em um endereço em São Paulo.

Ao mesmo tempo, outros agentes da DHC e do Gaeco cumpriam mandados de buscas e apreensões em um sítio do ex-parlamentar em São Paulo. Além da residência de Girão, os agentes cumpriram mandados de busca e apreensão na Gardênia e no Complexo de Gericinó, na Zona Oeste, contra um policial militar. O objetivo é apreender o celular do PM.

As investigações chegaram aos suspeitos, seis anos depois, com o resultado da quebra do sigilo de dados digitais de Lessa, autorizada pelo juiz do 4º Tribunal do Júri, Gustavo Kalil, por conta do Caso Marielle. Lessa é réu no processo como autor dos homicídios da parlamentar e do motorista Anderson Gomes, desde março de 2019. Os investigadores constataram que o sargento reformado usou o buscador Google para pesquisar, em 2018, a morte de Zóio e de Juliana.

Entre os investigados, também estão o ex-policial civil Wallace de Almeida Pires, vulgo Robocop (morto em julho de 2019), e o PM Fábio da Silveira Santana, o Fabio Caveira, atualmente lotado no 18º BPM (Jacarepaguá). Fábio já foi preso pelo desaparecimento da engenheira Patrícia Amieiro. Na casa de Fábio, na Gardênia Azul, os investigadores apreenderam dois celulares e documentos. O sargento não estava em casa no momento da ação policial e quem acompanhou as buscas foi um irmão dele.

Robocop era apontado como sócio de Girão no comando da organização criminosa. Ele teve a prisão preventiva decretada em dezembro de 2009, durante a Operação Perfume de Gardênia, e foi expulso da Polícia Civil em 2012, sob a acusação de integrar o grupo. Em julho do ano passado, Robocop e o PM João Ricardo Silva de Souza, do 18º BPM, foram assassinados com pelo menos 18 tiros no bar conhecido como Pensão da Jô, na Rua Soldado Genaro Pedro Lima, no bairro do Anil, em Jacarepaguá.

Assinatura de Ronnie Lessa

Após constatar o interesse tardio de Lessa pelo duplo homicídio, o inquérito concluiu que as caraterísticas do crime contra Zóio e Juliana na Gardênia, em 2014, foram parecidas com a emboscada que mataria Marielle e Anderson quatro anos depois: tiros disparados de dentro de um carro contra os ocupantes de outro veículo, obstruído pelos criminosos.

Para os investigadores, a sequência de tiros com o carro em movimento, o duplo homicídio, embora o alvo fosse apenas um dos ocupantes do veículo, e a precisão dos disparos indicam que o crime tem a assinatura de Lessa.

Outro ponto em comum foi o uso de uma arma automática - no caso de Zóio, um fuzil M16, arma pequena e de pouco recuo. Na morte de Marielle, os assassinos usaram uma submetralhadora.

O assassinato do casal foi cometido por volta das 10h. Na época, um morador que não quis se identificar contou que os assassinos estavam aguardando André Zóio desde as 8h.

Na Gardênia Azul, os negócios da milícia incluíam o recebimento de aluguéis, venda de imóveis e de terrenos e até a administração de uma área onde ficava uma fábrica de lajes desativada.

Envolvimento no Caso Marielle

Girão, apontado como chefe da milícia da Gardênia Azul, havia figurado numa das linhas de investigação da polícia no Caso Marielle. No entanto, ainda na primeira fase do inquérito, a suspeita foi descartada. O ex-vereador foi preso em 2009, por comandar a milícia da Gardênia Azul. Seu nome era um dos listados no relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Milícias, cujo presidente era o então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), concluído em 2008. Depois de ficar preso por oito anos, por ter sido condenado pelo crime de formação de quadrilha, Girão foi beneficiado por um indulto em agosto de 2017. Ele cumpriu a maior parte da pena nos presídios federais de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul e, por último, em Porto Velho, em Rondônia.

Chamado para depor no dia 15 de agosto de 2018, Girão confirmou que esteve no dia 7 de março de 2018, uma semana antes da morte de Marielle e Anderson, na Câmara dos Vereadores. Alegou que estava acompanhando a mulher Edna Marinho Brum para exames médicos, no Centro, e aproveitou para visitar colegas da época de mandato, como o presidente da Casa, Jorge Filippe, e Chiquinho Brazão (Avante).

Como álibi no momento do crime, 14 de março de 2018, disse à polícia que estava na churrascaria Rio Brasa, na Barra da Tijuca, onde ficou até meia-noite. O ex-bombeiro contou que estava com a mulher e um empresário de São Paulo, do ramo da moda.

Agentes estão cumprindo em São Paulo busca em endereços ligados à Girão. No Rio, um dos endereços de Girão fica a 200 metros do condomínio onde Lessa morava, em frente à praia, no condomínio Vivendas do Sol. Girão foi detido em outubro de 2017 circulando em São Paulo com um veículo roubado no Rio de Janeiro.

No presídio, agentes cumprirão busca e apreensão na cela de Leandro Siqueira de Assis, o Gargalhone, que seria, atualmente, o miliciano chefe do Gardênia Azul junto com Cristiano Girão

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