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Padre publicou retratação após comentários

O Ministério Público de Mato Grosso instaurou um procedimento referente às ofensas de um padre  contra a menina de 10 anos que foi estuprada pelo tio ao longo de quatro anos no Espírito Santo.

O MP informou, nesta segunda-feira (24) que o ofício foi remetido à igreja para que sejam informadas as "providências administrativas de apuração da conduta" do sacerdote Ramiro José Perotto.

Procurada pelo EXTRA, a Diocese de Sinop não se pronunciou. A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por sua vez, apenas recomendeu que a questão fosse dirigida à diocese responsável pela Paróquia São Paulo Apóstolo, em Carlinda (MT), sem mencionar repúdio aos insultos.

O padre havia escrito no Facebook que a criança abusada sexualmente "gostava de dar". As postagens já foram deletadas e o padre excluiu seu perfil, mas capturas de tela foram registradas e continuam circulando pela web. Deste modo, o MP requisitou à Polícia Civil de Mato Grosso a instauração de procedimento investigativo criminal "para averiguar possível cometimento de crime de apologia ao estupro na modalidade de incentivo.

O delegado da Polícia Civil, Pablo Carneiro, que responde pelo município de Carlinda, na região norte de Mato Grosso, determinou na sexta-feira (21) a instauração de um Termo Circunstanciado de Ocorrência por crime de apologia supostamente praticado pelo religioso.

Intimado a prestar esclarecimentos à Polícia Civil, o sacerdote compareceu nesta segunda-feira à delegacia de Alta Floresta, onde foi ouvido. A corporação acrescentou que outras diligências continuam sendo realizadas.

Os comentários do padre Ramiro foram feitos em meio a uma conversa sobre o caso da criança, que após ter engravidado, passou por um procedimento de aborto respaldado pela legislação. A interrupção da gravidez é autorizada a vítimas de estupro, a mulheres que correm risco de morte em razão da gravidez, e em caso de o feto for anencefálico. A criança nesta situação se enquadrou nos dois primeiros itens.

O padre Ramiro, porém, demonstrou discordar que a criança fosse uma vítima. "Vá defender isso em outro lugar. Você acredita que a menina é inocente? Acredita em papai noel também? 6 anos, por 4 anos e não disse nada. Claro que tava gostando. Por favor kkkk, gosta de dar, então assuma as consequências", escreveu ele. "Duvido uma menina ser abusada com 6 anos por quatro anos e não falar. Aposto minha cara. Ela compactuou com tudo e agora a menina é inocente kkkk. Gosta de dar, então assuma as consequências".

Após a repercussão nas redes sociais, gerando indignação entre internautas, que criticaram a fala do padre, ele se manifestou novamente, desta vez com um pedido de desculpas.

A Defensoria Pública de Mato Grosso repudiou as falas do padre por meio de um comunicado. "É inadmissível que um representante da Igreja Católica, instituição com grande influência na sociedade na qual está inserida, se valha das redes sociais, com largo alcance, para disseminar ódio e fazer apologia à cultura do estupro, transferindo a responsabilidade do fato criminoso para a vítima", afirma em trecho.

Em nota enviada ao "Mato Grosso Ao Vivo", na quinta-feira, dia 20, Ramiro assumiu a autoria das postagens e reconheceu ter "proferido palavras desagradáveis".

Leia abaixo, na íntegra, o pedido de desculpas do padre Ramiro Perotto:

"Caríssimos. Eu, Pe. Ramiro José Perotto, pároco na Paróquia São Paulo Apóstolo, Carlinda, MT, venho por meio desta dizer-vos que assumo toda a responsabilidade de três postagens em meu Facebook sobre a defesa da vida, no caso do aborto ocorrido no último dia 17.

As postagens foram excluídas por mim mesmo quando percebi inúmeros comentários que atacaram a minha defesa. Assumo a responsabilidade de ter proferido palavras desagradáveis, e justifico que compartilho da defesa da vida, nunca condenar e tirar julgamentos.

Não foi minha intenção proferir palavras de baixo calão, as quais não comungam com minha fé e minha crença na pessoa humana.

Àqueles que se sentiram ofendidos, só resta meu pedido de perdão. Excluí meu facebook por não querer mais ofender e ser ofendido. Precisamos ser fraterno. Sempre peguei isso.

As vezes que não fui, que Deus me perdoe. Lutemos pela vida, ela é dom de Deus. “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” Jo. 10,10

Pe. Ramiro José Perotto/Pároco de Carlinda – 20 de agosto de 2020"

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