A favela de Paraisópolis (SP) cercada pelos prédios nobres do Morumbi; duas curvas de contaminação para a Covid-19 na mesma imagem
Foto: Eduarda Esteves/iG
A favela de Paraisópolis (SP) cercada pelos prédios nobres do Morumbi; duas curvas de contaminação para a Covid-19 na mesma imagem

Pelo nível de desigualdade que permeia as grandes cidades brasileiras, especialistas apontam que pessoas mais vulneráveis têm maior chance de contrair a Covid-19 e desenvolver complicações. A falta de políticas públicas, recolhimento e saneamento adequado faz com que o novo coronavírus (Sars-CoV-2) se propague com maior facilidade nos bairros mais pobres.

Com este problema em mente, um grupo interdisciplinar nascido de parcerias universitárias criou a Ação Covid-19 , que apresenta um modelo matemático para dar um “zoom” no mapeamento do novo coronavírus em regiões diferentes da mesma cidade.

A partir disso, foi possível identificar que o mesmo bairro pode apresentar duas curvas de crescimento ou retração para a doença, dependendo do nível de desigualdade.

“Nosso programa se mostra muito robusto para explicar territórios dentro de cidades”, afirma José Paulo Guedes Pinto, professor de ciências econômicas na Universidade Federal do ABC e idealizador do projeto. “Os modelos mais divulgados normalmente explicam países ou cidades, mas a Ação Covid-19 permite entender a dinâmica do vírus em regiões menores.”

Mesmo bairro, resultados diferentes

Moradores de prédio em Copacabana (RJ) se protegem da Covid-19 enquanto a doença se alastra pelo morro
Ana Branco / Agência O Globo
Moradores de prédio em Copacabana (RJ) se protegem da Covid-19 enquanto a doença se alastra pelo morro

A Ação Covid-19 calcula o índice de proteção ao coronavírus (IPC) a partir de informações pontuais sobre cada vizinhança: densidade populacional, índice de desenvolvimento humano e letalidade. Mas os pesquisadores logo descobriram que algumas regiões são mais complexas e desiguais que outras. Entre os melhores exemplos, é possível destacar a Vila Andrade (SP), bairro nobre que também integra a  favela de Paraisópolis; além de Copacabana (RJ), onde a classe alta carioca divide espaço com as comunidades de Pavão-Pavãozinho.

O novo coronavírus foi importado pelas camadas mais abastadas da população que retornavam do exterior em fevereiro. Em meados de maio, os bairros nobres de Copacabana e Barra da Tijuca concentravam 70% da transmissão do novo coronavírus no Rio de Janeiro, segundo a Ação Covid-19.

A partir do fim do mesmo mês, o vírus passou a se alastrar dentro das favelas cariocas, revelando a existência de duas curvas de contaminação da doença. Segundo os pesquisadores da Ação Covid-19, isso se dá ao fato das comunidades terem saneamento inadequado, moradias lotadas e contato inter-individual frequente. 

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Ação Covid-19
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Em um modelo que simula o alastramento do vírus na área nobre de Copacabana em comparação com o complexo Pavão-Pavãozinho, a Ação Covid-19 observou que mesmo com a adoção de um lockdown rigoroso em ambas as regiões (com 92% de recolhimento), o vírus ainda teria maior potencial de contaminar os moradores da comunidade. “Como o país é super desigual, a pandemia também se alastra de forma desigual”, diz o pesquisador.

“Na Cidade de Deus, por exemplo, 29% das pessoas se contaminaram com o novo coronavírus, pois nenhuma política foi feita para que essas pessoas ficassem em casa. Ao custo de muitas mortes, eles estão perto da imunidade de rebanho”, afirma José Paulo, que também destaca a falta de políticas públicas e incentivos governamentais para que as pessoas mais vulneráveis ficassem em casa.

A crise sanitária imposta pela Covid-19 não é democrática

Cinco tópicos são necessários para o enfrentamento da doença enquanto uma vacina não surgir em um horizonte próximo: políticas públicas, isolamento social, lockdown, testes em massa e  uso de máscaras. O país, entretanto, não segue nenhum deles com vigor. Segundo a Ação Covid-19, o Brasil está nos trilhos para se tornar o novo epicentro da pandemia no mundo. 

Com base nos dados de vulnerabilidade, o grupo alerta sobre os danos da insistência por uma reabertura precoce do comércio geral e a ausência de um plano de isolamento. Só um conjunto de ações por parte de Governo Federal, estados e municípios podem mudar o panorama do enfrentamento à pandemia, de acordo com a Ação Covid-19.

Soluções para o enfrentamento eficiente

Governo deve assegurar políticas públicas para que a população mais vulnerável tenha como se recolher durante a pandemia
Agência Brasil
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Segundo os pesquisadores, os estados brasileiros deveriam, antes de tudo, implementar fila única para leitos de UTI entre rede privada e pública e mobilizar agentes comunitários de saúde para monitorar populações vulneráveis e traçar focos de contágio.

Os municípios precisam trabalhar na distribuição de insumos adequados para prevenção da Covid-19. No Rio de Janeiro, a prefeitura distribuiu máscaras descartáveis de papelão, inadequadas para a contenção do novo coronavírus. Além disso, municípios também precisam garantir um fundo de apoio financeiro para que pequenos comerciantes possam manter as portas fechadas durante o período de quarentena.

Já o Governo Federal deve fortalecer a política emergencial para que as pessoas tenham como ficar em casa, além de fortalecer linhas de crédito para empresas com função social. 

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