exumação
Agência O Globo/Divulgação
Felipe (esquerda) e o irmão Fernando cobram o direito de se despedir do pai


O  sofrimento  de perder um pai em plena pandemia, ganhou um novo ingrediente, igualmente dramático, para o motoboy Felipe Moreira Moura, de 31 anos, morador em Anchieta:  não ter um corpo  para sepultar.


De acordo com Felipe, o aposentado Alfredo Freitas de Moura, de 58 anos, que estava internado no Instituto Nacional de Cardiologia, em Laranjeiras, se recuperando de uma cirurgia do coração contraiu na unidade a Covid-19, que o vitimou na semana passada, e teria sido sepultado na última sexta-feira, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, no lugar de outro paciente , também vítima do coronavírus.

A família cobra agora do hospital o direito de fazer a exumação para poder finalmente se despedir do aposentado com um enterro digno.

"É uma corrida contra o tempo. O corpo que está na geladeira não vai entrar em decomposição, mas o que supostamente seria do meu pai e que está enterrado, sim. Já tem cinco dias isso. Desde sexta-feira e até agora nada. A gente está nessa luta. Um sentimento que era para ser de luto, de dor e de chorar a perda. Mas a gente não consegue fazer isso porque a gente não tem um corpo para enterrar. É revoltante . Um sentimento de indignação porque somos sres humanos. Independentemente de pandemia é uma pessoa que está ali, um corpo de uma pessoa boa e digna, que sempre trabalhou a vida toda e se aposentou há pouco tempo e não pode curtir essa aposentadoria", lamentou o rapaz, que assim como o irmão Fernando, de 28, faz questão de trazer o caso a público para evitar que o mesmo aconteça com outras pessoas.

Felipe contou que, na madrugada da última sexta-feira, recebeu uma ligação do hospital informando do falecimento do paciente. Por causa da pandemia, ao chegar na unidade, pela manhã, foi apresentada uma fotografia para o reconhecimento. Mas ele diz que a  imagem não era do seu pai. Uma nova foto foi mostrada cinco minutos depois, esta sim do aposentado. O  erro  deixou o rapaz intrigado e então ele fez questão de ver o corpo que estava na geladeira antes de ser liberado para a funerária. E, para sua surpresa, não era o seu pai.

O motoboy contou que o corpo que seria do seu pai foi enterrado no mesmo dia, enquanto o outro ainda se encontra na geladeira do hospital e já teria sido reconhecido por parentes. Felipe disse que agora são duas famílias dividindo o mesmo drama . "A outra família não consegue sepultar o parente porque já tem um corpo sepultado no lugar dele. E eu não consigo enterrar o meu pai porque não não tenho o corpo", reclamou.

Ele disse que o próprio hospital está buscando junto à Justiça meios de liberar a exumação, mas até o momento só tem encontrado  negativas . A prioridade da família do aposentado, nesse momento, é ter o corpo para enterrar, mas não descarta cobrar uma reparação judicial do Instituto Nacional de Cardiologia.

"O hospital tem de reparar os danos , pois é uma coisa que vamos levar para o resto da vida. A perda de um pai já é uma coisa dolorosa e se torna ainda pior pelo que estamos vivendo. Eu sei que é a lei natural da vida um filho enterrar o pai. Mas nunca pensei em passar por esse drama", declarou. 

O paciente, Alfredo Freitas de Moura, deu entrada no Instituto Nacional de Cardiologia no dia 26 de abril para uma cirurgia que resultou na implantação de quatro pontes de safena. De acordo com o filho, ele estava se recuperando bem e com previsão de alta, quando há cerca de duas semanas começou a sentir falta de ar e foi diagnosticado com Covid-19, contraída no hospital.

Antes de falecer, chegou a permanecer entubado por oito dias. Alfredo havia se aposentado há apenas três anos. Quando estava na ativa, trabalhava como metalúrgico. Ele deixou três filhos , sendo dois homens e uma jovem de 18 anos com necessidades especiais, que aniversariou nesta segunda-feira (13).


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