Cemitério
Roberto Moreyra / Agência O Globo
Enterro de vítima da Covid-19 no Cemitério do Caju, na Zona Portuária do Rio

Até pouco mais de dois anos e meio atrás, a rotina de Leonardo Santana Pereira, de 25 anos, era entre as panelas de um restaurante, onde trabalhava como ajudante de cozinha. Até que ficou desempregado, com a mulher, Ana Carolina, hoje com 23, grávida em casa. A necessidade o levou a uma outra atividade, a de sepultador no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, Zona Portuária do Rio.

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Leonardo admite que a nova profissão não foi uma escolha. Mas, com o tempo, ele se acostumou e até passou a gostar. Só não consegue se habituar à solidão do sepultamento das vítimas da Covid-19 , que há cerca de dois meses passou a fazer parte de seu dia a dia e do de tantos brasileiros. Nesta quarta-feira (13), o Rio chegou à marca de 18.728 casos confirmados da doença, com 2.050 óbitos — outros 907 ainda estão aguardando resultados. Somente na capital, já são 11.026 infectados, com 1.363 mortos.

Segundo Leonardo, é comovente realizar o enterro sem o velório nem o adeus dos parentes. Ele diz ser igualmente triste os que são acompanhados por uma única pessoa, que carrega no semblante toda a dor e todo o sofrimento dos outros membros da família representados somente por ele na cerimônia.

"A ausência dos familiares é o mais triste. O risco (de contaminação) faz com que as famílias não venham ao enterro. É algo anormal. Estamos acostumados a ver os parentes ali na hora do sepultamento, despedindo-se da pessoa. Isso mexe com a gente e com o nosso emocional", admite o rapaz.

Antes de chegar em casa, também no Caju, ele redobra os cuidados para não colocar a família em risco. Ainda no cemitério, toma banho e faz uma higienização minuciosa. Mas não descarta repetir o ritual na residência. Todas as precauções, no entanto, não impedem que ele conviva com o medo de uma possível contaminação. Nesse caso, o conforto vem da fé.

"O medo a gente tem. Só que, particularmente, minha confiança é em Deus. Então, busco ter confiança de que Ele vai me proteger. Procuro tomar todos os cuidados possíveis, e o resto é com Ele", afirmou.

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O termo coveiro deixou de ser usado em 2019, quando a concessionária Reviver, que administra sete cemitérios do Rio (entre eles, o do Caju), deu início a um processo de revitalização desses lugares e de ressignificação da morte.

Mas a pandemia do coronavírus pegou todo mundo de surpresa, mesmo quem já estava acostumado a lidar com a morte. Leonardo, assim como seus colegas, foi submetido a uma capacitação para aprender a usar os itens especiais, como o macacão descartável que coloca por cima de sua roupa nos enterros, e os chamados EPIs, os equipamentos de proteção individual, que incluem luva, máscara, óculos e botas impermeáveis de borracha e cano longo. O rapaz conta que fazia uma média de dez enterros diários antes da pandemia. Hoje, esse número chega a 12, sendo por volta de quatro vítimas da Covid-19.

"Teve um aumento muito grande. Isso acaba afetando a gente, querendo ou não. E não digo isso pelo aspecto do volume de trabalho, porque já estava acostumado. É pelo emocional mesmo", garante o rapaz.

Técnico em segurança do trabalho, Eduardo Luiz Santos, de 34 anos, preparou algumas equipes que trabalham em cemitérios para exercer suas funções longe dos riscos de contaminação. Isso incluiu a capacitação no uso correto e no descarte dos equipamentos de proteção. Ele conta que ao longo do Cemitério do Caju foram espalhados vários dispensadores de álcool em gel e que cada funcionário tem o próprio recipiente para levar no bolso.

"Sempre após o enterro de uma vítima da Covid-19, o sepultador faz uma higienização especial nas mãos com uma solução aprovada pela Anvisa composta de água sanitária, cloro, detergente e água. Fora a lavagem com água e sabão, que é sempre necessária", explica Eduardo, completando que esses cuidados redobrados com a higiene devem ser adotados pelos profissionais mesmo depois que a pandemia passar, assim como o uso das máscaras.

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Ana Carolina, a mulher de Leonardo, trabalha como caixa de um supermercado. Ela e o filho, Benjamin, de 2 anos, são seu suporte. É na família que ele busca amparo emocional para lidar com tantas despedidas sofridas sem deixar se abater. Quando chega em casa, busca deixar do lado de fora a tristeza e o peso da missão de conviver diariamente com as mortes.

"Como meu filho só tem 2 anos, ele se distrai com qualquer coisa. Por qualquer motivo, já está rindo. Isso é o que me faz ter um pouco de amparo e paz de espírito", afirma.

A Reviver aponta um crescimento de 30% nos sepultamentos após a pandemia, mas não especifica os números.

"Em março, no início da pandemia, sugerimos algumas medidas para a prefeitura. Criamos um plano de segurança, nos antecipamos na aquisição dos EPIs e montamos um quadro reserva de funcionários, não só pelo aumento (de sepultamentos), mas sabíamos que nossos funcionários poderiam adoecer e teriam que se afastar", aponta Sandra Fernandino, diretora da concessionária.

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Sobre a ampliação de vagas, Sandra diz que já havia um planejamento de expansão anterior à pandemia. Em maio, serão entregues 1.100 novas vagas. No total, até setembro, todos os setes cemitérios da Reviver somarão cinco mil vagas a mais, sendo a metade delas no Caju, onde algumas, de gaveta, entregues no ano passado, já estão sendo utilizadas para sepultamentos durante a pandemia .

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