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Reprodução/Facebook
Nilza Iraci fala sobre tempo que passou internada

SÃO PAULO - A coordenadora executiva da ONG Geledés - Instituto da Mulher Negra, Nilza Iraci, de 70 anos, desfilou na escola de samba Viradouro no carnaval deste ano, em uma ala com dez mulheres. Fumante "a vida inteira", como ela mesma diz, não imaginava que a idade e o cigarro, além dos seus poucos 46 quilos, seriam suas "adversidades" na luta contra o coronavírus, doença que a deixou oito dias internada na semana seguinte à ida ao sambódromo.

"O processo é violento, mesmo que no hospital eu não tivesse essa dimensão quando estava internada. Você percebe que atravessou uma linha muito tênue entre estar viva e morrer, ainda mais considerando todas as minhas condições adversas".

Em conversa com O GLOBO, Nilza relatou o processo de ser atendida em hospital público mesmo com plano de saúde, a rotina diária de convivência apenas com profissionais de saúde, as dificuldades do isolamento durante a internação e os dias de angústia à espera do temido resultado positivo de coronavírus.

Confira o depoimento a seguir:

"Eu tenho 70 anos, venho de uma geração mais antiga, e nessa história de que não vai acontecer com a gente pagamos um preço muito alto em relação à Aids. Então eu nunca acho que nada vai acontecer com a gente, mas não estava tão próximo ainda. Quando voltei do carnaval do Rio de Janeiro para São Paulo, chovia muito, e eu estava meio mal, mas achava que era sinusite crônica. Não passou pela minha cabeça a questão do coronavírus.

Até porque, me lembro que quando eu estava no Rio de Janeiro, começou-se a falar que tínhamos que tomar cuidado, e eu pensei: "Como é que estão pedindo para tomar cuidado se amanhã tem 1 milhão de pessoas no Bola Preta (bloco de carnaval)? Sem contar o sambódromo?". Isso passava por nós como uma preocupação, mas não era com a gente, não ainda.

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Eu sentia dor no corpo, tinha febre intermitente, o que também é causado por sinusite, dor no rosto, mas eu não tinha sintomas clássicos como tosse. É tudo muito confuso. Hoje, a gente já liga os sintomas ao coronavírus, mas não era o meu caso. Eu sentia muita dor no corpo, mas o que também pegou foi a fraqueza.19

No dia 17 de março, com meu plano de saúde, resolvi ir a um hospital particular de São Paulo pedir alguma coisa para sinusite, porque estava com muita dor no corpo. Eram onze e meia da noite. Eles me deram uma máscara e eu fiquei em um saguão com muita gente, esperando para ser atendida. Depois de um tempo, fui atendida, expliquei (os sintomas) ao médico, ele me examinou, pediu uma tomografia e um exame de sangue. Andei pelo primeiro andar, pelo terceiro, voltei para o saguão lotado, e aguardei o resultado. Depois de um tempo, o médico, que era bem displicente, aliás, me chama, e diz que estou com pneumonia viral, compatível com Covid-19.

Eu pedi um remédio para dor, disse que era alérgica a dipirona. Acendeu uma luz e questionei sobre coronavírus. Ele me mandou cuidar da pneumonia e disse para voltar ao hospital, se precisasse. Ele nem sequer fez o teste. Me deu uma receita para pneumonia e me mandou ir embora. Nem me medicou. Nenhuma orientação de que eu deveria ficar em casa. Isso é de uma irresponsabilidade. Eu tenho 70 anos, sou fumante, acima de tudo, e ele tinha na mão uma tomografia que demonstrava pneumonia compatível com a Covid-19.

Esperei amanhecer um pouco porque eram três horas da manhã, chovia muito, e não tinha táxi na porta. Pela internet, descobri que tinha uma farmácia dentro de um mercado 24 horas ali próximo. Por volta das 5h, deixei o hospital, a farmácia estava fechada. A loucura é que, já que eu estava esperando abrir a farmácia, resolvi comprar umas frutas, porque na hora que eu chegasse em casa não teria que sair mais.

Eu já estava contaminada, passei pelo mercado, escolhi fruta. Passei pela caixa do supermercado, fui atendida em duas farmácias, e voltei pra casa. Na medida em que o hospital me manda embora sem teste, eu saio de lá sem orientação e contamino as pessoas. Em tese, eu só tinha pneumonia.

Conhecidos contaram a um médico do Instituto de Infectologia Emílio Ribas que eu estava me sentindo muito mal e, então, ele (o médico) me ligou e me falou para ir até o hospital, naquela mesma manhã, porque eu passei toda a madrugada no saguão do hospital particular esperando clarear e depois fui comprar os remédios e as frutas.

Cheguei em casa com as compras do supermercado, onde eu devo ter contaminado um monte de gente, olha a loucura. Peguei a bolsa e fui para o Emílio Ribas. Eles fizeram o teste, me examinaram e me internaram com suspeita de coronavírus e para tratar a pneumonia. Eu não queria ser internada, não tinha noção da gravidade. Fui imediatamente internada com a roupa do corpo e uma bolsa.

É aí que cai a ficha. Estou em um instituto de infectologia, com suspeita de coronavírus, com pneumonia. É um processo meio louco, porque foi tudo muito rápido. Da passagem do hospital privado à internação no público foi apenas uma noite.

Quando cai a ficha, você vive medo, insegurança, ansiedade. Como eu tenho uma conexão com o mundo externo, eu começo a acompanhar a situação lá fora e me dou conta da gravidade do que está acontecendo. Por outro lado, dentro do hospital - embora eu tenha ficado em isolamento, em uma bolha - eu tive que confiar naquelas pessoas com quem eu tinha contato, os profissionais de saúde. É uma sensação muito ruim (a de isolamento). Eu sou uma pessoa hiperativa.

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Eu podia falar pelo celular (por ligação) e por mensagem, mas sem receber visita. Eu entrei em um dia e no dia seguinte já fecharam as visitas. Peguei o processo (de isolamento) no começo, que depois foi se acirrando. Fiquei oito dias internada. Ao mesmo tempo em que eu ia entendendo a gravidade da situação, tinha a sensação de confiança no tratamento dentro daquela bolha. Eu tive contato com o mundo externo por meio de tecnologia, mas o contato de verdade foi com aquelas pessoas.

Conversei muito com os profissionais de saúde, porque foram eles que me ajudaram a tomar banho, levaram comida, aplicaram medicação, trocaram roupa de cama, mediram pressão. Era meu único contato. Eu buscava sempre conversar com eles, que me diziam para ficar tranquila e que daria tudo certo. Eles chegavam (no leito) totalmente paramentados, de máscara, macacão. Eles me contaram que, saindo do hospital diariamente, pegavam um trem, um metrô e um ônibus. E encontravam com suas famílias. Então, eu ficava pensando, 'quem cuida de quem cuida?' Porque quando chegam em casa, não tem esse aparato todo, e eles estão lá todos os dias. Muitos tem dois empregos. Esse é um lado que me tocou profundamente.

Eu penso nos profissionais de saúde que estão atendendo e, ao mesmo tempo, penso nos outros que estão fazendo piquenique, passeando na avenida Paulista, tomando cerveja no boteco. Para mim essa é a dimensão de que mundo é esse. Não existe empatia pelas pessoas que estão deixando suas famílias para cuidar da gente. O vírus me deu a dimensão de como falta compaixão e empatia das pessoas. Os hospitais de São Paulo estão lotados. Enquanto alguém está cuidando de doentes, outro está brigando para comprar ovo de Páscoa.

Eu oscilava muito, às vezes tinha muita dor. Eu era medicada, tinha muita insônia. Eu como muito mal, no geral, mas por outro lado tinha uma consciência de que eu tinha que engolir (a comida) para melhorar. Esse era meu sentimento. Eu não estava intubada, não cheguei a ir para a UTI, mas estava na bolha do isolamento. Em algum momento, tomei oxigênio porque estava difícil (de respirar). Eu não estava mal o suficiente para ir para uma UTI, mas eu estava internada e isolada. E enquanto isso, aguardava o resultado do exame, o que é uma insegurança muito grande. Eu não sabia ainda se tinha sido infectada ou não pelo vírus.

Ficava acompanhando o que estava acontecendo aqui fora e isso me dava uma sensação de impotência total. Eu não podia fazer nada, nem comigo, nem para os outros. Tive que assumir, literalmente, que era paciente, e ter paciência. Um dia depois do outro, aguardando o resultado. O que me chamou atenção foi uma notícia de que, na noite que eu busquei um hospital privado morreram várias pessoas naquele local. Foi um dia de terror. Na madrugada que eu passei por lá, as pessoas estavam morrendo. Se eu ainda não tivesse o vírus, seguramente teria pego lá.

Eles me deram alta quando meu quadro evoluiu e meu padrão respiratório estabilizou. Me mandaram, então, ficar isolada por 14 dias em casa, porque a gente continuava sem o resultado do exame. Até então, eu era suspeita (para Covid-19). Fiz exame no dia 18 de março e só em 6 de abril que saiu o resultado. Voltei para casa, onde moro sozinha, para outra uma bolha mais confortável. E aí foi a preocupação. 'Será que eu tinha coronavírus, será que não?' 'Se tivesse, poderia passar pelo processo de novo?' 'Será que o isolamento de 14 dias seriam suficientes para voltar à atividade normal?' Foi muita insegurança.

Mesmo depois que você recebe o resultado, de que é positivo e de que você cumpriu aquele período, fica uma sensação de muita insegurança. A gente não conhece o vírus direito. Por isso, buscamos informações, metade é correta, metade é fake news, isso faz muito mal para quem está doente. Um diz uma coisa, outro diz outra, e o leigo se pergunta o que faz de verdade.

Ficar em isolamento, por mais que você possa acessar informação externa, é um momento seu, é muito íntimo e pessoal. É você lidar com seus fantasmas, com seus medos, mas eu não fiz escândalo ou entrei em desespero. Eu sabia que se eu apertasse uma campainha, teria alguém perto de mim. O processo de impotência e angústia tinha muito mais a ver com o que estava acontecendo lá fora do que estava acontecendo comigo. Mas, é óbvio que isso te impacta pessoalmente.

Eu dormi e durmo muito pouco. Pensava: 'Se eu morrer eu deixei coisas para fazer?' Para mim pesava mais a questão de insegurança e impotência. Acho que não cheguei a pensar na morte. Mas, é óbvio que eu estava assustada. Ninguém engana o próprio travesseiro. Eu passava notícias (a amigos e familiares) de que estava tudo bem, que eu estava vencendo. Em nenhum momento falei para as pessoas de fora que eu estava insegura. Vivi um processo comigo.

De verdade, eu não saí de lá um ser de luz. Eu não sou outra pessoa. É obvio que na medida em que você passa por isso, você repensa. Na hora em que eu saí do hospital não brilhava uma aura ou uma luz em cima de mim. Isso é conversa. Parece que quem sobreviveu ao vírus é outra pessoa, mas não é. Não sou a super mulher que venceu o vírus. Por alguma razão, eu venci. E que bom. Algumas pessoas não estão conseguindo. Até porque eu tinha condições adversas por ter 70 anos, pesar 46 quilos e não gostar de comer. Tudo convergia para eu ter tido consequências mais sérias. Apesar das adversidades, eu venci o vírus, e isso também demonstra como ele é esquisito e ninguém sabe muito sobre ele. Isso me coloca numa condição de pessoa privilegiada, porque venci a morte, mas não me torna um ser de luz.

Sou uma pessoa que teve um processo e agora quer voltar. E eu estou voltando para o meu trabalho. Eu ainda estou em casa, de home office, não estou saindo, estou cumprindo o isolamento social. Voltei a trabalhar, trabalho com mulheres que estão em situação de extrema vulnerabilidade social.

Hoje, estou tomando um complexo vitamínico e paracetamol quando tenho dor. No hospital, tomei antibiótico para pneumonia e outros que não lembro o nome. Não cheguei a tomar cloroquina, nem pensar. Em nenhum momento a gente falou em cloroquina. Nem se cogitou. Eu saí do hospital ainda com suspeita. No hospital, a primeira providência foi um adesivo anti-tabagismo. Ele me ajudou, a ponto de que quando eu saí do hospital a primeira coisa que eu fiz foi comprar. Eu estou usando para tentar parar de fumar.

Eu estou melhor, mas um pouco cansada. Você olhar o mundo pela tela da TV e do computador, e viver tudo aquilo, é muito confuso. Você vê pela TV, e depois vivencia. É confuso."

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