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Em entrevista, Alexandre da Silva afirmou que perdeu o emprego após o episódio e que vem recebendo ameaças: "elas vão ter que pagar por isso"

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Reprodução
Imagens desmentiram versão apresentada pela youtuber

O supervisor de manutenção Alexandre da Silva, 42 anos, afirmou que quer processar a youtuber Karol Eller, que o acusou, no último domingo (15), de tê-la espancado após ataques homofóbicos, em um quiosque na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio.

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Ao Jornal O Globo, o supervisor diz ter recebido ameaças de morte e de linchamento, além de ter perdido o emprego por conta das acusações da youtuber : "eu fiquei como monstro e ela, como mocinha. Estão me atacando, atacando minha filha. Fiquei chateado porque não sei o que levou elas a fazerem isso. Não existe isso de eu ter sido homofóbico. Eu tenho parente gay, tenho parente lésbica, amigos gay e lésbica, eu convivo com essas pessoas, jamais iria ofender, não tem lógica".

Tanto Alexandre quanto Karol prestaram depoimento na 16ª Delegacia de Polícia na terça-feira (17), acompanhados de testemunhas. A youtuber estava ferida gravemente no rosto, com dificuldade de fala e à base de remédios contra a dor, por conta das agressões que afirma ter sofrido do supervisor. Ele, por sua vez, tinha alguns arranhões e disse que as agressões foram mútuas.

Após ouvi-los, a delegada Adriana Belém afirmou que se tratava de "um caso típico de homofobia". Dois dias depois, no entanto, após ouvir funcionários do quiosque e ver as imagens das câmeras de segurança do local, a delegada mudou de opinião sobre a motivação homofóbica do ataque.

Agora, diz que a youtuber pode ser indiciada por denunciação caluniosa e porte ilegal de arma . Alexandre continua sendo investigado como suspeito de lesão corporal contra a youtuber.

Duas armas e uma discussão

O supervisor afima que havia ido buscar uma cerveja no quiosque quando viu Karol “agitada”, mostrando uma arma na cintura.

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Ele estava acompanhado de um amigo, Guilherme, que é agente penitenciário e também estava armado. Este teria ido até Karol para perguntar se ela era “colega”, ao que ela teria respondido se identificando como delegada federal.

Nesse momento, a namorada da youtuber, Suellen Silva dos Santos , teria chegado e a desmentido, esclarecendo que ela, sim, era policial civil. Os dois mostraram suas identificações profissionais.

"O Guilherme perguntou por que a Karol estava com a arma dela. Suellen sorriu e disse que ela ia guardar para ela. Karol estava agitada, pegou a arma para tirar o carregador e a bala da agulha, deixou cair o pente. Quando agachou para pegar, deixou a pistola cair. Pedimos novamente para ela devolver a arma, mas ela dizia que tinha experiência. A gente estava numa boa. O Guilherme propôs: ‘Eu guardo minha arma no carro e ela guarda a dela'. Aí, com sacrifício, ela devolveu a arma para a Suellen, que foi até o carro para guardar".

Algum tempo depois, Karol foi pegar uma bebida. Nesse momento, Silva diz que ficou conversando com Suellen sobre política e concurso público, mas que a youtuber teria ficado muito nervosa de ciúme. No depoimento, a influenciadora digital afirmou que ele teria flertado com a sua namorada e feito declarações homofóbicas .

O que os vídeos mostram

Imagens das câmeras do quiosque mostram Karol Eller agitada e sendo contida por Guilherme quando tenta avançar em direção a Alexandre. Em dado momento, ela consegue se soltar, vai até ele, puxa sua camisa e os dois caem no chão. Enquanto os que assistiam tentam separá-los, Alexandre se levanta e dá dois chutes em Karol.

Ele afirma que, depois de ter sido atacado, "perdeu a cabeça" e deu dois chutes contra ela, errando um e acertando a perna de Karol com o outro: "Eu não estou preocupado porque não fui eu que fiz esse estrago no rosto dela. Eu me defendi, eu não fui atacar, ela que me atacou".

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Ele diz ter acionado seu advogado para que Karol e Suellen respondam na Justiça pelas acusações que lhe fizeram: "vou processar quem fez mal a mim. Sujaram meu nome, causaram um mal grande na minha vida, essas pessoas têm que pagar".

O supervisor diz que “gostaria que elas se retratassem” e que, se a youtuber pedisse desculpa, ele faria o mesmo: "não tenho raiva, mesmo ela tendo acabado com minha vida".

O advogado de Karol Eller e de Suellen Silva dos Santos, Rodrigo Assef, afirmou que as clientes "estão abaladas, sentindo-se injustiçadas".

"Não tem como a gente falar sobre o que está sendo veiculado porque não tivemos acesso ao inquérito, então seria temerário falar sobre isso", disse o advogado, que afirmou que a imagem do rosto de Karol, "fala por si só".

"Não é possível que o chão tenha causado tantas lesões no rosto dela, são lesões por mecanismo físico. Do que ela lembra, foi resultado de socos e chutes", afirmou Assef.

Denunciação caluniosa e porte ilegal

Segundo a delegada da 16ª DP, Karol Eller pode ser indiciada por denunciação caluniosa —caso não se confirme que houve homofobia— e por porte ilegal de arma de fogo de uso restrito.

Pelas imagens de câmeras de segurança não é possível ver se Karol estava ou não armada. De acordo com a delegada, as investigações sobre o porte de arma ficarão a cargo da corregedoria da Policia Civil, já que Suellen é funcionária da corporação.

"Falta administrativa cometida por servidor público ou qualquer crime praticado, a gente manda para a corregedoria. E são fatos conexos. Se realmente ficar constatado que ela emprestou a pistola, só isso já configura punição (administrativa). E, se a policial empresta a arma para uma outra pessoa, ela está cometendo crime e a outra pessoa também", explica a delegada.

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Karol e a namorada serão intimadas a prestar depoimento novamente na próxima semana. Elas serão questionadas sobre as versões que apresentaram inicialmente à polícia, já que os relatos de testemunhas foram conflitantes com a do casal. Se ficar comprovado que mentiram, ambas poderão ser indiciadas por denunciação caluniosa.

"Vamos continuar apurando crime de lesão corporal, ninguém nega a agressão, eles entraram em luta corporal. Todos os depoimentos convergem que o que causou a confusão foi ciúmes, não foi injúria, nada que remetesse a preconceito", disse Adriana Belém.