Tamanho do texto

Em depoimento, familiares de Willian Augusto da Silva revelaram um surto psicótico durante um churrasco: "ele se sentia deprimido e estava sofrendo"

Sequestrador Rio arrow-options
Reprodução
Willian dizia estar em depressão e "sofrendo muito", além de ter passado a beber demais

No início deste ano, parentes de Willian Augusto da Silva, o  sequestrador do Ônibus na Ponte Rio-Niterói, começaram a notar mudanças em seu comportamento. Era um rapaz introvertido, de poucos amigos. Na Delegacia de Homicídios, na Barra, a família contou que, em janeiro, durante um churrasco, ele teve um surto psicótico. Disse que se sentia deprimido, que estava sofrendo muito e que ouvia “vozes dentro da cabeça”. Depois desse episódio, passou a beber muito. Além disso, ficava a maior parte do tempo usando um celular para navegar pela internet.

Leia também: Vídeo mostra sequestrador de ônibus sendo baleado; assista

Os pais de Willian, moradores do bairro do Jockey, em São Gonçalo, perceberam a mudança, mas o jovem, de 20 anos, não chegou a receber atendimento médico. Ele nunca tratou a depressão. Na madrugada de ontem, enviou uma mensagem para os pais, avisando que iria acabar com a própria vida. Pouco mais de cinco horas depois, às 9h04m, ele foi morto com seis tiros disparados por um sniper do Bope.

Para a polícia, não há dúvida de que toda a ação foi planejada com bastante antecedência pelo sequestrador . Por volta das 5h, ele chegou ao ponto final do ônibus 2520, em Alcântara (São Gonçalo), e entregou ao motorista uma nota de R$ 20. Recebeu o troco de R$ 10,85 sem falar nada. Numa mochila, carregava todo o material que iria usar durante o sequestro — a réplica de uma pistola, uma arma de choque, garrafas PET cortadas para acondicionar gasolina, barbante, um isqueiro e um livro, “O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio”, do escritor Charles Bukowski.

A obra é uma reflexão sobre a vida, mostra como a sociedade negligencia pequenas coisas que poderiam torná-la melhor. O livro foi publicado em 1998, quatro anos após a morte de Bukowski. “Todas aquelas pessoas. O que estão fazendo? O que estão pensando? Todos nós vamos morrer, que circo! Só isso deveria fazer com que amássemos uns aos outros, mas não faz. Somos aterrorizados e esmagados pelas trivialidades, somos devorados por nada”, diz um trecho.

"Meu primo era um ótimo filho. Ele desencadeou um quadro depressivo. Tinha que pagar pelo que fez hoje, e, graças a Deus, quem está chorando é só a minha família. Digo isso porque outras 39 poderiam estar chorando. Foi ele quem quis pagar com a própria vida pelo que fez. Eu procurei todas as famílias de passageiros para pedir desculpas. Pedir desculpas é o que minha família pode fazer agora", afirmou Alexandre Silva, emocionado.

O sequestro foi anunciado às 5h26m. Willian mostrou a arma , ameaçou incendiar o ônibus inteiro e ordenou que o veículo ficasse atravessado na pista sentido Rio da Ponte . “Quero entrar para a História”, disse o sequestrador. Obrigou uma passageira a pendurar os potes feitos coms garrafas PET, cheios de gasolina. Amarrados com lacres de plástico, o s reféns frisaram que não foram agredidos, mas disseramque temiam pelo pior, já que Willian parecia determinado a não se entregar.

O comandante do Bope , tenente-coronel Maurílio Nunes, que assumiu o papel de gestor de crise no local do sequestro, disse que a decisão de atirar foi tomada depois que William parou de se comunicar com os policiais.

"Ele não queria praticar um assalto, isso ficou claro desde o começo. Tinha a intenção de fazer algo grande, de ferir pessoas ou cometer suicídio", afirmou o oficial.

Na delegacia, a mãe de Willian passou mal e precisou sair do prédio para respirar. Quem a consolou e lhe ofereceu uma garrafa d’água foi Paulo César Leal, de 54 anos, pai de uma réfém, Raiane, de 23.

Leia também: "Agimos corretamente e salvamos vida", diz Witzel sobre ação contra sequestrador

"Eu não tenho poder de julgar. Falei para ela ter calma e confiar. O que você fala para uma família que perdeu um filho? Tentei confortar. Tentei ajudar. A minha intenção foi tentar ajudar porque a dor é sentida pelos dois lados. E ali, naquele momento, ela estava precisando de apoio. Fui falar alguma coisa. Ela sofreu um desmaio. Não adianta ver só o meu lado, a minha família. Somos todos humanos", disse Paulo César.

A família de William não tem dinheiro para bancar o enterro do jovem. A Secretaria estadual de Vitimização e Amparo à Pessoa com Deficiência assumiu o compromisso de arcar com a despesa. O sepultamento ainda não tem data nem local definido.