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Mais de 300 mulheres procuraram o Ministério Público de Goiás para relatar casos de abusos sexuais sofridos. Líder espiritual nega acusações. Confira

Número de mulheres que apresentaram denúncias de abuso sexual contra médium João de Deus já ultrapassa 300
Divulgação
Número de mulheres que apresentaram denúncias de abuso sexual contra médium João de Deus já ultrapassa 300

O Ministério Público de Goiás (MP-GO) confirmou que o número de mulheres que denunciaram o médium João de Deus por abuso sexual subiu para 330 até a última quinta-feira (13). O grande número de denúncias fez com que o órgao convocasse a titular da promotoria de Abadiânia, Cristiane Marques, que estava de férias, para reforçar a força-tarefa que investiga as acusações.

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Além de Cristiane Marques, já integram a força-tarefa que colhe as denúncias de abuso sexual contra João de Deus : o promotor de Alexância (que estava em substituição à promotoria de Abadiânia), Steve Gonçalves Vasconcelos; o coordenador e o subcoordenador do Centro de Apoio Operacional (CAO) Criminal, Luciano Miranda Meireles e Paulo Eduardo Penna Prado; a coordenadora do CAO dos Direitos Humanos, Patrícia Otoni Pereira; a integrande do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Gabriella de Queiroz Clementino; e as psicólogas, Liliane Domingos Martins e Lícia Nery Fonseca.

A montagem de uma equipe desse tamanho foi necessária porque o  número de denúncias começou a crescer rapidamente depois que o programa Conversa com Bial, da TV Globo , divulgou o relato de 10 mulheres que disseram ter sido abusadas sexualmente por João de Deus. Esse crescimento exponencial costuma acontecer em casos como este em que as vítimas, em geral, sentem vergonha por terem sofrido o assédio, mas se sentem encorajadas a denunciar depois que outras vítimas fazem o mesmo.

A força-tarefa iniciou a investigação dos relatos de abuso sexual  ainda na segunda-feira (10) e foi preciso criar um e-mail exclusivo para as denúncias: denuncias@mpgo.mp.br;  além de montar uma sala de videoconferência para coletar depoimentos remotamente já que muitas mulheres não moram em Goiás. Muitas delas, inclusive, iam até Abadiânia apenas para passar pela cirurgia espiritual oferecida por João de Deus na Casa Dom Inácio de Loyola, onde a maior parte dos assédios teriam ocorridos.

Na sala de videoconferência ficam dois promotores, duas psicólogos e dois tradutores de línguas estrangeiras já que "temos casos fora do Brasil, por isso, temos a necessidade de acompanhamento para ajudar a gente a esclarecer todas essas situações", afirmou o procurador-geral do Ministério Público de Goiás, Benedito Torres.

Polícia Civil também montou força-tarefa para o caso de João de Deus

Pela primeira vez depois das denúncias de crimes sexuais, João de Deus apareceu na Casa Dom Inácio de Loyola na última quarta-feira, mas ficou por apenas 10 minutos
Marcelo Camargo/ABr
Pela primeira vez depois das denúncias de crimes sexuais, João de Deus apareceu na Casa Dom Inácio de Loyola na última quarta-feira, mas ficou por apenas 10 minutos

Assim como a Promotoria, a Polícia Civil de Goiás também montou sua própria força-tarefa para apurar os casos de denúncia contra João de Deus. A corporação informou que, até quinta-feira (14), recebeu 14 denúncias formais, sendo que 13 mulheres já foram ouvidas.

O delegado-geral de Goiás, André Fernandes, inclusive, declarou que "esse tipo de delito é um delito que ocorre escondido. Então, há maior dificuldade na coleta de provas. Estamos preocupados em confeccionar e fortalecer essas provas", disse.

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Ainda assim, no fim da tarde de quarta-feira (12), o Ministério Público de Goiás protocolou um pedido de prisão preventiva de João de Deus, após a força-tarefa do MP já ter recebido, à época, mais de duzentas denúncias de supostas vítimas do médium.

O pedido deverá ser analisado pelo juiz Fernando Chacha, responsável pela comarca de Abadiânia, mas até o fechamento desta reportagem a prisão não havia sido decretada, nem negada. De qualquer forma, a defesa do médium protocolou, na última quinta-feira (13), no Fórum de Alexânia, um pedido para o que João de Deus continue os atendimentos na Casa Dom Inácio de Loyola, mesmo que, para isso, o médium tenha que ser filmado ou acompanhado de policiais.

No pedido, o advogado Alberto Zacharias Toron afirma que "muitas pessoas são beneficiadas com o tratamento e vão em busca do João de Deus. Então para que ela possa continuar os atendimentos sem causar um embaraço à Justiça, parecer uma afronta, pedimos que se o juiz julgar necessário, coloque câmeras no local e até policiais para ver que o trabalho é feito com lisura”, disse.

O defensor explicou ainda que já havia feito outro pedido à Justiça, para que possa marcar uma data para que o médium seja ouvido. Toron relatou que ainda não teve acesso ao teor dos depoimentos das vítimas e nem ao pedido de prisão.

“Ele tem 76 anos e uma larga folha de serviços prestados. Os depoimentos têm que ser apurados com rigor. É necessário ter cuidado para que João de Deus não seja submetido a um linchamento público antecipado”, completou.

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O médium João de Deus chegou a ter uma crise de hipertensão e passar mal na noite de quarta-feira (12), após o pedido de prisão ser protocolado. Segundo administrador da Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, ele está "recolhido" e sendo medicado em uma chácara de Anápolis, a 55 quilômetros de Goiânia.

“Ele [João de Deus] está recolhido e medicado. Recolhido, porque acabou passando mal ontem quando chegou na Casa [Dom Inácio de Loyola]. E medicado por causa dos picos de pressão que tem tido, mas tudo sob controle, tomando remédios e sem riscos de algo grave. Nós precisamos saber quais serão os andamentos da Justiça em relação a esta situação e estamos acompanhando tudo”, disse o administrador Chico Lobo em depoimento ao portal G1. A reportagem do iG tentou, por diversas vezes, contatar Chico Lobo, mas não houve resposta.

Horas antes do surgimento do pedido de prisão, porém, o líder espiritual esteve na Casa Dom Inácio de Loyola pela primeira vez desde que começaram a surgir denúncias contra ele . O médium permaneceu no local por apenas 10 minutos e se disse inocente. "Meus queridos irmãos e minhas queridas irmãs. Agradeço a Deus por estar aqui. Ainda sou irmão de Deus, mas quero cumprir a lei brasileira porque estou na mão da lei brasileira. João de Deus ainda está vivo", declarou.

De acordo com o coordenador da força-tarefa do Ministério Público responsável por apurar as denúncias contra João de Deus, promotor Luciano Miranda Meireles, há indícios de que o líder espiritual tenha praticado diversos tipos de crimes sexuais, como estupro, estupro de vulnerável (quando cometido contra menor de 14 anos ou quem esteja em situação de vulnerabilidade) e violação sexual mediante fraude.

Os dois primeiros crimes, segundo observou Mendes, são considerados hediondos, sendo o estupro de vulnerável o crime com maior pena prevista, podendo resultar em condenação de até 15 anos de reclusão. Esse seria, por exemplo, o crime que João de Deus seria enquadrado caso a denúncia de sua própria filha seja comprovada. Na entrevista gravada em 2016 por uma rádio de Goiânia e exibida pelo Jornal da Record na noite de terça-feira (11),  Dalva Teixeira acusa o pai de agredi-la e abusá-la sexualmente dos 10 aos 14 anos de idade. O líder espiritual João Teixeira de Faria nega todas as acusações.

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Com a quantidade de denúncias de abuso sexual, João de Deus poderá "quebrar o recorde" de outro caso famoso, do ex-médico de reprodução assistida Roger Abdelmasshih. Ele foi condenado a 278 anos de prisão por ter cometido 52 estupros e quatro tentativas de estupro a 39 mulheres diferentes. No processo, no entanto, foram ouvidas mais de 200 pessoas, entre elas 130 testemunhas de defesa e 35 mulheres que acusavam o médico. Algumas relataram ter sofrido mais de um abuso sexual e três foram forçadas a ter conjunção carnal.