Área de floresta amazônica preservada na região do Rio Ayari, afluente do Rio Içana, Alto Rio Negro
Fellipe Abreu/Instituto Socioambiental
Área de floresta amazônica preservada na região do Rio Ayari, afluente do Rio Içana, Alto Rio Negro

As temperaturas registradas durante o El Niño de 2023–2024 expuseram cerca de 75% das florestas tropicais  do planeta a níveis extremos de calor, seca ou ambos. Segundo um estudo publicado neste ano na revista científica Earth's Future, essas condições podem se tornar o padrão anual na maioria das regiões tropicais em menos de duas décadas.

O artigo analisa os impactos climáticos do fenômeno nas florestas tropicais de diferentes continentes. Com base em dados de satélite, reanálises climáticas e modelos do sistema terrestre (CMIP6), os pesquisadores avaliaram a intensidade e a duração de secas e ondas de calor extremas.

Contexto:  El Niño testa preparação do Brasil para incêndios florestais

O objetivo foi comparar o evento de  2023–2024 com as condições climáticas observadas entre 2000 e 2024 e com as projeções para o período de 2025 a 2100, a fim de investigar se o fenômeno representa uma antecipação dos desafios que essas florestas enfrentarão nas próximas décadas.


Temperaturas extremas podem se tornar o "novo normal"

Durante o El Niño de 2023–2024, três quartos das florestas tropicais analisadas enfrentaram, em média, seis meses de seca e calor extremos simultaneamente. Considerando os fenômenos separadamente, 80% da área florestal tropical registrou condições mais secas que o normal, enquanto 100% enfrentou temperaturas acima da média.

A comparação com o El Niño de 2015–2016 também revelou diferenças entre os continentes. Em 2023–2024, a área florestal afetada pela seca foi 18% maior nas Américas e 20% maior na África. Na Ásia, por outro lado, houve uma redução de 22%.

Apesar dessas diferenças, as ondas de calor duraram de 10 a 13 meses a mais em 2023–2024 do que no evento anterior, considerando as três regiões continentais.

Leia também:  El Niño intenso deve durar até 2027, aponta nova projeção

As projeções indicam que a probabilidade de temperaturas extremas semelhantes às registradas em 2023–2024 aumentará drasticamente nas florestas tropicais. Sob os cenários de emissões de gases de efeito estufa que não contemplam as maiores reduções, a maioria dessas áreas poderá atingir, a partir de 2043, uma probabilidade de 100% de experimentar temperaturas recordes todos os anos.

Projeções de seca variam entre os continentes

Ao contrário das temperaturas, que devem subir de maneira generalizada, as tendências de precipitação variam conforme a região. Na Amazônia e na América Central, a probabilidade de secas severas semelhantes às observadas em 2023–2024 deve aumentar significativamente. Na Amazônia, esse risco poderá ser até nove vezes maior até 2100.

Em contrapartida, as projeções apontam para uma redução da probabilidade de secas na maior parte da Ásia tropical e na África Ocidental. 

O aumento da frequência e da intensidade de secas e ondas de calor pode comprometer a capacidade de recuperação das florestas tropicais. Entre as possíveis consequências estão o aumento da mortalidade de árvores, a intensificação dos incêndios florestais e a redução da produtividade primária bruta (GPP), indicador da quantidade de carbono absorvida pela vegetação por meio da fotossíntese.

Esses efeitos também podem comprometer o papel das florestas como sumidouros de carbono, ou seja, ecossistemas que absorvem mais carbono do que liberam. Sob condições extremas, elas podem passar a emitir mais carbono para a atmosfera do que conseguem retirar, agravando o aquecimento global.

Diante desse cenário, os pesquisadores alertam que o El Niño de 2023–2024 pode ser uma prévia das condições climáticas que ameaçarão as florestas tropicais no futuro. Segundo o estudo, evitar os cenários mais severos depende de reduções rápidas, drásticas e sustentadas das emissões globais de gases de efeito estufa.


    Compartilhar
    Comentários
    Clique aqui e deixe seu comentário!

    Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

    Mais Recentes