
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), utilizava uma casa do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, em Brasília, quando o banqueiro não estava na capital federal. É o que indicam mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular de Vorcaro, segundo reportagem dos colunistas Cézar Feitoza, Natália Portinari e Fabio Serapião, do UOL, publicada nesta terça-feira (29).
As conversas mostram que o funcionário responsável pelo imóvel, localizado no Lago Sul, bairro nobre da capital, avisava Vorcaro quando Motta iria ao local. Um dos registros é de 17 de novembro de 2025, data em que o banqueiro foi preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo.
Naquela tarde, o funcionário escreveu a Vorcaro: “À noite irei receber Hugo na casa”. O banqueiro, que estava em São Paulo, respondeu: “Ok. Me avise sempre antes”. O funcionário se desculpou por não ter comunicado a visita com antecedência.
Procurado pelo UOL, Motta informou que não iria se manifestar sobre o caso.
Mensagens mostram combinação para uso do imóvel
As conversas indicam que o acordo para utilizar a casa foi tratado diretamente entre Motta e Vorcaro em maio de 2025, três meses depois de o deputado assumir a presidência da Câmara.
Na ocasião, o banqueiro enviou ao parlamentar o contato do funcionário responsável pela residência e explicou que ele poderia organizar a recepção. Vorcaro também perguntou se Motta preferia contar com alguém para servir na casa ou se desejava ficar sozinho no imóvel.

Duas semanas depois, o presidente da Câmara pediu autorização para passar pela residência na hora do almoço. “Será que posso dar uma passada na casa hj pela hora do almoço? Mas só se vc não tiver compromisso lá”, escreveu Motta.
Vorcaro respondeu que tinha um almoço e, em seguida, seguiria para o aeroporto. “Depois disso já vou pro aero e tá liberada!”, escreveu o banqueiro.
Motta disse que combinaria a chegada com o funcionário para ser avisado quando Vorcaro deixasse o local.
Funcionário avisou sobre seis visitas
Segundo as mensagens obtidas pelo UOL, o funcionário comunicou Vorcaro sobre seis ocasiões em que receberia Motta na residência entre junho e novembro de 2025.
Os registros mencionam visitas em 24 de junho, 28 de agosto, 5, 18 e 25 de setembro e 17 de novembro daquele ano.
Em uma das mensagens, de 24 de junho, o funcionário informou que receberia à noite um “convidado Hugo”. Em setembro, os avisos mencionaram encontros para almoço e visitas durante a tarde.
Contudo, as conversas não esclarecem o motivo de cada visita, o que foi tratado na residência ou se outras pessoas estavam presentes nas ocasiões em que Vorcaro não se encontrava no imóvel.
Hugo Motta já utilizava imóveis de Vorcaro antes da presidência
As mensagens também indicam que Motta frequentava imóveis de Vorcaro antes de assumir a presidência da Câmara dos Deputados.
Em outubro de 2024, o parlamentar chegou antes do banqueiro ao apartamento dele em São Paulo e perguntou se poderia chamar o então presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), para conversar sobre um assunto.
“Posso chamar o Arthur aqui para tratar um assunto com ele?”, perguntou Motta. Vorcaro respondeu: “Claro. Casa é sua”. Em seguida, o deputado informou que Lira estava a caminho.
Relação entre Motta e Vorcaro
Nas conversas extraídas do celular do banqueiro, os dois se tratavam por “irmão”. Em fevereiro de 2025, Vorcaro também teria dito a um diretor do Banco Master que era o “number 1” do deputado.
A Polícia Federal analisa ainda um empréstimo de R$ 22 milhões concedido pelo Banco Master a uma empresa ligada à cunhada de Motta. Segundo informações citadas pelo UOL, o pedido teria sido feito diretamente pelo parlamentar ao banqueiro em 2024, conforme revelação anterior do Estadão.
Entretanto, Motta nega irregularidades.
Em maio de 2025, Vorcaro também relatou à namorada que o presidente da Câmara havia passado horas em sua residência em uma reunião que se estendeu até perto das 3h da manhã. Diferentemente das visitas em que o banqueiro estava ausente, nesse episódio ele também participava do encontro.
As mensagens obtidas pela Polícia Federal integram o material analisado no contexto das investigações sobre o Banco Master. Os registros apresentados na reportagem não detalham o conteúdo das conversas realizadas na residência nem demonstram, por si só, a prática de irregularidades por parte do presidente da Câmara.