
A erupção do Monte Pinatubo evidenciou, há 35 anos atrás, que partículas lançadas em grande quantidade na atmosfera conseguem alterar temporariamente a temperatura do planeta. Depois do episódio ocorrido em 1991, nas Filipinas, a média global caiu cerca de 0,5°C por mais de um ano. A empresa Stardust Solutions pretende chegar a um efeito semelhante, mas sem depender de vulcões.

A startup americana-israelense desenvolve partículas destinadas à estratosfera e calcula que uma operação de resfriamento em escala mundial custaria aproximadamente US$ 10 bilhões por ano, cerca de R$ 51 bilhões. Para viabilizar o arrefecimento, a empresa aposta na geoengenharia solar, tecnologia polêmica que busca diminuir as temperaturas mundiais por meio da atenuação da luz solar.

Os populares ovos de galinha chamaram a atenção da startup, já que carregam uma grande quantidade de carbonato de cálcio, o principal componente mineral das cascas dos ovos. O elemento formaria o núcleo da partícula, sendo coberto por uma camada de sílica amorfa. Além disso, a empresa também trabalha com uma segunda opção composta somente de sílica. Ambos os materiais são comuns, baratos, fáceis de encontrar e podem ser produzidos artificialmente.
A tecnologia é uma ferramenta fundamental que os governos devem levar em consideração. A Stardust queria um material melhor, mais seguro e mais controlável que as opções à base de enxofre. Yanai Yedvab, CEO da Stardust (à CNN)
Partículas precisariam de reposição

A casca de ovo propriamente dita não seria usada na pulverização, mas teria os minerais extraídos. A Stardust estima que uma quantidade próxima a um milhão de toneladas por ano poderia reduzir a média global em aproximadamente meio grau Celsius, mas cada aplicação custaria cerca de US$ 10 bilhões.

Depois de permanecer na estratosfera por aproximadamente um ano, as partículas supostamente cairiam e precisariam de reposição caso os governos decidissem manter o efeito. A startup inovadora surgiu em 2023 e tem como cofundadores Yanai Yedvab e Amyad Spector, ex-físicos nucleares ligados ao governo do estado de Israel. Com isso, o financiamento privado acumulado no projeto já soma US$ 75 milhões, cerca de R$ 385 milhões.
Quando o mundo inteiro está em jogo, satisfazer as necessidades de lucro de investidores de risco não deveria entrar em cogitação. A geoengenharia solar envolve alguns dos aspectos menos compreendidos do sistema climático, e testes pequenos não revelam a resposta em escala planetária. Raymond Pierrehumbert, professor de Física Planetária da Universidade de Oxford (à CNN)

O principal argumento da Stardust é que a sílica e o carbonato de cálcio podem oferecer uma alternativa aos compostos de enxofre, que são tradicionalmente estudados para aplicação na geoengenharia solar. O problema é que o dióxido de enxofre pode ser danoso, já que está associado a efeitos indesejados, como os danos à camada de ozônio e propensão de chuva ácida.

Na contramão do projeto da Stardust, alguns cientistas acreditam que os riscos não estão sendo levados em consideração. David Keith, professor de Ciências Geofísicas da Universidade de Chicago, criticou a confiança demonstrada pela empresa e afirmou que ela está “exagerando muito” ao dizer que os perigos seriam menores.
A Stardust está exagerando muito ao dizer que confia que os riscos [de suas partículas] são menores do que com o enxofre. A tecnologia proprietária e a intenção de lucro entram em conflito direto com a transparência necessária para legitimar esse tipo de pesquisa. David Keith, professor de Ciências Geofísicas da Universidade de Chicago (à CNN)
Há, ainda, outra preocupação: não se sabe exatamente como uma intervenção global afetaria a precipitação, as monções e a produção agrícola mundial. Para o professor de Governança Global e Políticas Públicas da Universidade de Bristol, Chukwumerije Okereke, também existe o risco político de alguns países autorizarem sozinhos uma mudança que afetaria todo o planeta.
Minha preocupação é que as decisões não sejam tomadas pelos países pobres, mas pelos ricos e por investidores privados. Chukwumerije Okereke, professor de Governança Global e Políticas Públicas da Universidade de Bristol (à CNN)

Até agora, os experimentos da Stardust ocorreram apenas no laboratório, mas a empresa pretende realizar testes externos nos próximos anos e afirma que não o fará sem supervisão direta dos governos envolvidos.