
Uma parceria entre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Polícia Técnico-Científica de São Paulo pretende transformar a forma como o estado acompanha a circulação de drogas sintéticas. A iniciativa, chamada NSP-Monitor, vai criar um sistema inédito para reunir, em um único banco de dados, informações sobre apreensões policiais, análises toxicológicas e atendimentos relacionados a intoxicações.
O projeto é desenvolvido em conjunto pelo Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) da Unicamp e pela Polícia Científica, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A previsão é que o trabalho seja concluído em quatro anos.
A proposta surge diante do crescimento das chamadas Novas Substâncias Psicoativas (NSPs), drogas sintéticas produzidas por pequenas alterações químicas em substâncias já conhecidas. Como muitas delas aparecem rapidamente no mercado ilegal, seus efeitos ainda são pouco conhecidos, o que dificulta tanto o combate policial quanto o atendimento médico.
Segundo o Relatório Mundial sobre Drogas 2026, da Organização das Nações Unidas (ONU), 755 novas substâncias psicoativas estavam em circulação no mundo em 2024, sendo 118 identificadas pela primeira vez naquele ano.
Banco de dados vai acelerar identificação
Hoje, os laboratórios da Polícia Científica produzem laudos sobre drogas apreendidas em diferentes regiões do estado, mas essas informações ainda não são integradas automaticamente.
De acordo com o coordenador do CIATox e professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp, José Luiz da Costa, essa falta de integração faz com que a identificação de uma nova substância em uma cidade demore para chegar a outras regiões e também aos profissionais da saúde.
Com o NSP-Monitor, os próprios laudos produzidos pelos peritos alimentarão automaticamente o sistema, permitindo acompanhar quase em tempo real:
- quais novas drogas começaram a circular;
- em quais regiões elas foram encontradas;
- quando passaram a ser identificadas;
- quais efeitos tóxicos estão provocando.
A plataforma reunirá dados de laudos periciais, registros de apreensões, análises laboratoriais e informações clínicas do CIATox. A Unicamp será responsável pelo desenvolvimento científico da ferramenta e pela organização das informações, enquanto as análises continuarão sendo realizadas pela Polícia Científica.
Ferramenta poderá antecipar tendências
Mais do que armazenar informações, o projeto pretende transformar os dados em inteligência para orientar decisões.
A plataforma deverá gerar indicadores geográficos e temporais, emitir alertas sobre o surgimento de novas drogas e identificar padrões de circulação das substâncias.
Essas informações poderão auxiliar operações policiais, apoiar ações preventivas e fortalecer políticas públicas. A expectativa dos pesquisadores é que, futuramente, o sistema também possa ser integrado ao programa Muralha Paulista, do Governo de São Paulo, ampliando a troca de informações entre os órgãos de segurança.
Ganhos também para hospitais
Os pesquisadores destacam que o projeto terá impacto direto na área da saúde. Como muitas drogas sintéticas chegam ao mercado antes mesmo de serem estudadas pela comunidade científica, médicos frequentemente enfrentam dificuldades para identificar a substância responsável pela intoxicação e definir o tratamento mais adequado.
Com o compartilhamento mais rápido das informações, hospitais e centros especializados poderão receber alertas sobre novas drogas em circulação, conhecer seus possíveis efeitos e oferecer atendimento mais eficiente aos pacientes.
Entre os benefícios esperados estão:
- maior rapidez no diagnóstico de intoxicações;
- apoio ao tratamento de pacientes;
- alertas para hospitais sobre substâncias perigosas;
- redução do tempo de resposta diante de novos surtos de intoxicação.
Parte das informações será pública
Embora os dados ligados a investigações permaneçam restritos, o NSP-Monitor também terá uma área de acesso público.
A população poderá consultar informações sobre as substâncias apreendidas no estado, permitindo maior transparência sobre as drogas que estão circulando em São Paulo.
Implantação começa neste ano
O convênio entre Unicamp, Polícia Científica e Fapesp já foi firmado, e a equipe trabalha na organização das bases de dados e no desenvolvimento da plataforma.
A implantação ocorrerá de forma gradual. Os primeiros laboratórios da Polícia Científica devem começar a alimentar o sistema até o fim deste ano. Já a versão aberta ao público tem previsão de lançamento entre 2027 e 2028, durante a fase intermediária do projeto.
A expectativa é que o NSP-Monitor se torne uma das principais ferramentas de monitoramento de novas drogas sintéticas no estado, aproximando ciência, segurança pública e saúde para responder com mais rapidez ao avanço dessas substâncias.