Inspirado na Cientologia, "The Master" é candidato sério ao Leão de Ouro

“Tom Cruise viu, e ainda somos amigos”, disse o diretor Paul Thomas Anderson; Joaquin Phoenix e Philip Seymou Hoffman são os protagonistas

Mariane Morisawa - enviada especial a Veneza |

Com “The Master” (“o mestre”, na tradução literal), de Paul Thomas Anderson, o Festival de Veneza 2012 tem seu primeiro candidato sério ao Leão de Ouro – ou, pelo menos, à Coppa Volpi de melhor ator, para Joaquin Phoenix. O filme foi exibido na manhã deste sábado (1º) na primeira sessão para jornalistas lotada desta edição e teve aplausos consistentes ao final, especialmente quando o nome de Phoenix apareceu.

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Ele faz o protagonista Freddie, que o espectador encontra pela primeira vez no final da Segunda Guerra Mundial no Pacífico. Claramente, é um outsider – um tema recorrente neste Festival de Veneza até agora. Daquele tipo capaz de fazer uma piada, mas que logo deixa claro ter, como diriam os antigos, um parafuso a menos. É obcecado por sexo (apesar de não fazer muito) e por uma adolescente que deixou em sua cidade natal. Bebe demais e produz sua própria bebida, com coisas leves como solvente de tinta.

De volta aos Estados Unidos, ele invade um barco e, descoberto, é acolhido por uma seita comandada por Lancaster (Philip Seymour Hoffman). Por meio de testes e regressão a vidas passadas, ele diz promover a cura de “alguns tipos” de leucemia, entre outras coisas. Entre as crenças estão a de que os traumas são carregados pelos indivíduos por trilhões de anos (!) e é possível domar o lado mais selvagem de cada um, porque ninguém é animal. Freddie prova-se um caso difícil. Mas aí a teoria pode mudar. Como diz o próprio filho do “mestre”, ele “inventa as coisas no momento”.

AP
Joaquin Phoenix fuma em Veneza, sem dar bola para a entrevista

Na coletiva de imprensa no início da tarde, Paul Thomas Anderson confirmou que se inspirou na Cientologia, criada por L. Ron Hubbard no início da década de 1950. “Tem similaridades, não sei muito sobre a Cientologia hoje, mas conheço bastante o começo desse movimento. Não posso ser mais específico que isso”, disse o diretor. Ele contou que já mostrou o filme para Tom Cruise , um dos principais porta-vozes da religião e a quem dirigiu em "Magnólia" (1999), e que os dois continuam amigos. “O resto é entre nós.”

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Nas mãos de um cineasta talentoso como Thomas Anderson (indicado ao Oscar por “Sangue Negro”), “The Master” vira um estudo dessas seitas malucas que procuram domesticar seus seguidores e da América das guerras e do sonho americano que não inclui todos, deixando outsiders incapazes de se encaixar na sociedade. As imagens filmadas em 70 mm têm força, assim como o rosto de Phoenix, magro e sofrido. Normalmente, o ator tende a exagerar nas atuações, mas, aqui, apoiado por um bom diretor, oferece a performance de sua vida. Seymour Hoffman, sutil como sempre, faz o líder mal-intencionado e carismático. “The Master” é denso, com personagens que provocam aversão e compaixão na mesma medida.

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O filme é excelente, mas a lotadíssima coletiva de imprensa foi quase constrangedora. Na primeira pergunta endereçada a ele, sobre como achou a postura do personagem, que anda encurvado, Joaquín Phoenix ficou sentado longe do microfone e não se ouviu nada. Quando os jornalistas reclamaram, ele disse apenas: “Não sei”. Saiu para fumar e depois emendou uns quatro cigarros na meia hora que durou a entrevista, sempre calado.

Mesmo o diretor Paul Thomas Anderson não falou muito. Por que usar película 70mm? “Ah, recomendaram essas câmeras gigantes, normalmente usadas em épicos. Ficou ótimo. Devíamos ter pensado direito, porque elas são barulhentas e quebravam toda hora.” Por que faz tantas histórias sobre pais e filhos? “Toda vez acho que vai ser diferente, mas no fim acaba sendo igual. Mas desta vez não acho que sejam pai e filho.” Por que Joaquín Phoenix? “Pedi para ele estar nos outros filmes, e sempre me disse não. É chato, mas valeu a pena. Dessa vez, disse sim, graças a Deus.”

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