Deputados bloqueiam investigação com piadas e Bíblia em SP

Com comparações mitológicas e acusações como “farsesco e canastrão”, parlamentares retardam apuração sobre escândalo na Assembleia

Ricardo Galhardo e Nara Alves, iG São Paulo |

O senhor deveria procurar um curso de teatro para melhorar sua performance farsesca e canastrona”

Depois de cinco horas e 40 minutos de discussões recheadas de prolongadas pausas, piadas e ironias, o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar - que deveria investigar denúncias de venda de emenda na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) - não conseguiu votar toda a pauta desta terça-feira.

Leia também: Covas recua em fala sobre emendas e diz ser 'ingênuo'

Dos oito requerimentos programados para hoje, três pedidos de convocação de tucanos, partido do governador Geraldo Alckmin , foram rejeitados e dois tiveram o pedido de vista aprovados. Todos os requerimentos para convocação de integrantes e ex-integrantes do governo citados nas denúncias foram rejeitados. Na prática, a agenda das apurações se resume à apreciação do restante da pauta, na próxima quinta-feira.

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Campos Machado (PTB) organiza a base governista durante reunião nesta quarta: ele ameaçou convocar até Lula para falar sobre as emendas parlamentares em SP
“Instalamos a pizzaria 9 de julho”, ironizou o deputado Adriano Diogo (PT), em referência ao Palácio 9 de Julho, sede da Alesp.

A reunião, que começou às 14h, teve de ser encerrada, sem a apreciação dos outros três requerimentos, às 19h40, quando teve início uma sessão extraordinária no plenário. O regimento interno impede que os dois eventos sejam concomitantes.

Contradição

O presidente do Conselho de Ética, deputado Helio Nishimoto (PSDB), e o líder do PSDB na Alesp, Orlando Morando , admitiram “falha” na falta de uma data no convite feito ao deputado licenciado e secretário do Meio Ambiente, Bruno Covas (PSDB), para que prestasse esclarecimentos sobre declarações de que um prefeito teria lhe oferecido propina em troca de uma emenda. Ausente, o secretário enviou uma carta alegando que foi “ ingênuo ”.

Para a oposição, o bloqueio do Conselho de Ética é uma orientação do governador Geraldo Alckmin (PSDB), apoiador da pré-candidatura de Covas à Prefeitura de São Paulo. “Esse abafa é uma manobra, sem dúvida. É uma orientação do governo”, disse o líder do PT, deputado Ênio Tatto.

“Farsesca e canastrona”

Durante todo o tempo em que durou a reunião, os deputados se revezaram em uma sequência de declarações irônicas e trocas de provocações que, além de não acrescentar nada às apurações, ainda atrasaram as votações.

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Bruno Covas e o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, em evento no dia 6 de outubro
Depois de ser “acusado” por Morando de ser “ator de longa data”, o petista João Paulo Rillo retrucou. “O senhor deveria procurar um curso de teatro para melhorar sua performance farsesca e canastrona”.

O líder tucano deu o troco dizendo que sempre foi amante das artes cênicas, mas, no dia em que decidir fazer um curso, vai dispensar a indicação do petista. “Não vou pedir referências porque suas peças devem ter sido todas de terror”.

O petebista Campos Machado, um dos líderes da tropa de choque governista, precisou fazer um malabarismo retórico para justificar o voto contrário à convocação do senador e ex-secretário da Casa Civil Aloizio Nunes Ferreira e dos ex-secretários Luiz Antonio Marrey (Casa Civil) e Francisco Vidal Luna (Fazenda). Ele comparou os dois ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva que, até então, não havia sequer sido citado: “Então vou convocar o Lula aqui para ele explicar os 300 picaretas”.

Morando foi o alvo preferido das piadas petistas. Quando Adriano Diogo revelou que Bruno Covas daria uma entrevista exclusiva para a TV em vez de ir ao Conselho de Ética, aproveitou para provocar o tucano. “Nem para papagaio de pirata te convidaram”.

Há tempo para tudo. Este é um dos meus salmos preferidos”, disse Campos Machado para argumentar que não havia mais tempo para conselho deliberar sobre itens pendentes

O pedetista Major Olímpio protagonizou um dos momentos mais cômicos da sessão. Adriano Diogo fazia uma comparação mitológica entre o Palácio dos Bandeirantes com o Olimpo quando o deputado do PDT interrompeu: “Oi?”, disse Olímpio, como se estivesse acordando.

No quesito citações batidas, Campos Machado foi imbatível. Contou histórias sobre mendigos de Madri e pediu licença ao colega evangélico José Bittencourt (PDT) para citar a Bíblia. “Há tempo para tudo. Este é um dos meus salmos preferidos”, disse Campos Machado para argumentar que não havia mais tempo para o conselho deliberar sobre os itens pendentes da pauta.

Enquanto isso, no corredor da Alesp. O deputado Padre Afondo Lobato (PV) assinou a CPI e disse que a bancada do PV irá assinar. Pouco antes, antecipando a decisão do colega do PV, Morando cobrou em tom de ameaça fidelidade ao governo. “O PV tem participação no governo. Afinal, o PV é governo ou oposição?”

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