Deputados ex-Arena rejeitam reedição das marchas que apoiaram golpe de 64

Por Marcel Frota - iG Brasília |

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Ex-arenistas, entre eles Paulo Maluf, dizem que o contexto político atual não dá espaço para a quebra da democracia

Deputados que foram parte dos quadros da Aliança Renovadora Nacional rejeitam hoje iniciativas que possam levar o Brasil de volta a uma intervenção militar. Na atual legislatura, 25 dos 513 deputados passaram pela Arena. A pedido do iG, parte desses deputados fez uma reflexão sobre a reedição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que em 1964 pediu intervenção militar sob pretexto de ameaça comunista. Entre eles, a opinião foi unânime: nem os militares apoiam uma intervenção nesses moldes no contexto político atual e tal iniciativa não faz sentido.

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Deputado federal Paulo Maluf (PP-SP). Foto: Futura Press Inocêncio Oliveira (PR-PE). Foto: Agência CâmaraEdinho Araújo (PMDB-SP). Foto: Agência CâmaraBonifácio de Andrada (PSDB-MG). Foto: Agência CâmaraÁtila Lins (PSD-AM). Foto: Agência CâmaraAkira Otsubo (PMDB-MS). Foto: Agência CâmaraAracely de Paula (PR-MG). Foto: Agência CâmaraCamilo Cola (PMDB-ES). Foto: Agência CâmaraGiovanni Queiroz (PDT-PA). Foto: Agência CâmaraHugo Napoleão (PSD-PI). Foto: Agência CâmaraHumberto Souto (PPS-MG). Foto: Agência CâmaraRoberto Balestra (PP-GO). Foto: Agência CâmaraJúlio Campos (DEM- MT). Foto: Agência CâmaraPedro Novais (PMDB-MA). Foto: Agência CâmaraOnofre Agostini (PSD-SC). Foto: Agência CâmaraOdílio Balbinotti (PMDB-PR). Foto: Agência CâmaraNelson Meurer (PP-PR). Foto: Agência CâmaraNelson Marquezelli (PTB-SP). Foto: Agência CâmaraSimão Sessim (PP-RJ). Foto: Agência CâmaraJutahy Júnior (PSDB-BA). Foto: Agência CâmaraJunji Abe (PSD-SP). Foto: Agência CâmaraJúlio Cesar (PSD-PI). Foto: Agência CâmaraMoreira Mendes (PSD-RO). Foto: Agência CâmaraJosé Rocha (PR-BA). Foto: Agência Câmara


Um dos maiores símbolos da Arena em atividade, o deputado Paulo Maluf (PP-SP) disputou a Presidência da República no Colégio Eleitoral em 1985 já no PDS, um dos partidos oriundos da Arena. “Essas novas marchas não têm a menor importância. Hoje temos a liberdade de imprensa, a democracia. O resto é o resto”, declara. Maluf se diz injustiçado por sua atuação naquele processo. “Sabia com quatro meses de antecedência que estava derrotado, mas não retirei minha palavra”, afirma ele. Bonifácio de Andrada (PSDB-MG), que também passou pela Arena e acompanhava a entrevista com Maluf, compartilha recordações com o colega.

Maluf defende a tese de que, se quisesse, poderia ter melado a eleição de Tancredo Neves. “Ele (Tancredo) não teve 480 votos, teve um, o meu. Se eu tivesse conspirado, ele não seria presidente”, diz Maluf em referência aos votos que Tancredo recebeu na manhã de 15 de janeiro de 1985. “Joguei o jogo limpo”, acrescentou Maluf, que não deixou de ironizar o processo todo 29 anos depois. “Deus pregou uma peça. Tancredo foi eleito, mas quem governou foi o presidente do PDS”, resumiu em referência a José Sarney, também oriundo da Arena.

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Defensores da democracia

Único deputado da atual legislatura eleito pelo PMDB de São Paulo, Edinho Araújo começou sua carreira política na Arena. Diz que a falta de espaço no MDB o levou para o partido oficial da ditadura para disputas eleitorais no começo da década de 1970. “Essa ideia de que todo mundo que estava na Arena era de direita não é verdade”, afirma Araújo, citando Roberto Rollemberg e Teotônio Vilela como exemplos que desmentiriam o senso comum. “Eram as circunstâncias da época”, acrescentou ele. Sobre as novas marchas, Araújo também rejeita qualquer iniciativa de intervenção. “Democracia e liberdade são fundamentais. São coisas a que só damos valor quando faltam. Sempre fui um democrata”, finaliza.

Também por questão de falta de espaço, Akira Otsubo (PMDB-MS) diz que acabou filiado à Arena. “Lá no Estado, todo mundo era Arena. Ou Arena 1 ou Arena 2. Não tinha MDB no Mato Grosso do Sul”, afirma. “Quem conviveu com a ditadura não a quer de volta. Espero nunca mais voltar. Por mais que não seja perfeita, não existe regime melhor que a democracia”, declara Otsubo.

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Júlio Campos (DEM-MT) lembra que ingressou na Arena por influência do pai, que do antigo PSD acabou nas fileiras do partido oficial da ditadura pelas mãos e influência de Filinto Müller, famoso por ser responsável pela deportação de Olga Benário para a Alemanha Nazista na esteira do esmagamento da Intentona Comunista, em 1935. Segundo ele, o maior problema da ditadura, foi o tempo de permanência no poder. “Se tivesse terminado com o Médici, a história seria outra”, avalia ele, que faz elogios ao falar das obras de infraestrutura do regime militar, mas critica a falta de investimento no Ensino Fundamental. Sobre as novas passeatas ele dispara. “Isso é um fracasso, não tem mais nenhum sentido”.

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Também por influência familiar, José Rocha (PR-BA) diz ter escolhido a Arena. Ele conta que atuou na militância estudantil e que até foi selecionado para participar do Congresso da UNE de 1968 em Ibiúna, no interior paulista. A influência de Antônio Carlos Magalhães, afirma Rocha, foi o ingrediente final para o ingresso no partido da ditadura. “Nesse período (década de 1970), frequentava a casa dele (ACM) e ele me disse que se voltasse ao governo me apoiaria para ser prefeito”. Rocha diz ver com olhar preocupado as novas edições da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. “Não tem cabimento nenhum, é um retrocesso absurdo. Democracia é o processo mais horizontal. Temos de trabalhar dentro da democracia”, diz o parlamentar baiano.

Prós e contras

“Não foi um período de se jogar fora”, pondera Simão Sessim (PP-RJ) sobre o regime militar. “Tirando essa parte que a gente considera horripilante, do ponto de vista das grandes obras, elas apareceram. A Ponte Rio-Niterói, por exemplo”. Sessim acredita que esse movimento está superado na sociedade atual e que, portanto, a reedição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade não faz sentido. “O Brasil vive e respira democracia. Não temos de pensar em saudosismo nem de um lado nem de outro”, resume o parlamentar.

Ex-prefeito de Curitibanos (SC) Onofre Agostini (PSD-SC) acredita que o regime militar cumpriu seu papel. Ele conta que ingressou na Arena vindo da UDN, justamente para a disputa eleitoral em 1972. “Com exceção da violência, que é algo que não concordo, prisões e essas coisas que sempre fui contra, no mais, acho que o governo militar cumpriu o seu dever”, avalia Agostini. Ele diz que a questão das perseguições foi menos notada para a população do interior do Brasil e que por isso, nesse aspecto, muita gente dessas regiões não têm do que reclamar. Sobre as iniciativas dos que pedem intervenção militar atualmente, Agostini acredita que isso é inspirado no descontentamento do povo com o governo e a baixa qualidade dos serviços públicos. De sua parte, prefere não engrossar o coro. “Não concordo, o Brasil é melhor com democracia”, diz.

Nelson Meurer (PP-PR) não tem nenhum problema em defender a ação militar em 1964, que ele classifica como “revolução”. “Era necessário. Foi muito importante a revolução para evitar que o Brasil seguisse o caminho do comunismo”, defende. Sua única crítica está no tempo de permanência da ditadura. “Não é ditadura, é revolução para colocar o rumo certo para o nosso país. As Forças Armadas cometeram um erro ao prolongar demais o sistema por meio do AI-5, a partir de onde a revolução virou uma ditadura”, avalia ele. Ao falar do quadro atual, Meurer afirma que o país precisa preservar a democracia. “Hoje vivemos a plena democracia. Não tem mais espaço para golpe militar”.

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