PT promove maior renovação de sua história

Por Ricardo Galhardo - iG São Paulo |

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Por razões estatutárias, partido sairá das eleições internas deste domingo mais jovem, mais negro e mais feminino

O PT vai sair menos plural do Processo de Eleições Diretas (PED) que acontece neste domingo. Segundo estimativas de líderes petistas, a Executiva Nacional – responsável pela administração direta do partido – deve ser composta por apenas três grupos, sendo que dois deles são aliados. Outras quatro tendências devem ser alijadas da executiva e, talvez, do diretório nacional, órgão colegiado que define os rumos políticos do PT.

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Além disso, por razões estatutárias, o PT sai das eleições internas deste domingo mais jovem, mais negro e mais feminino. O 5º Congresso Nacional determinou que 50% das vagas de direção devem ser ocupadas por mulheres, 20% por jovens e 20% por etnias minoritárias. Com isso, o partido deve passar pelo maior processo de renovação de seus quadros em 34 anos de existência.

De acordo com as projeções, apenas as chapas Para Mudar o Brasil (composta pelas correntes Construindo um Novo Brasil, PT de Lutas e de Massa e Novos Rumos), Partido é para Todos na Luta (encabeçada pelo Movimento PT) e Mensagem ao Partido terão votos suficientes para indicar membros na executiva. As duas primeiras se aliaram em apoio ao atual presidente nacional do PT, Rui Falcão.

Divulgação
PT realizou debates com os candidatos a presidente do partido


Correntes importantes com representação nacional como Articulação de Esquerda, Militância Socialista, Esquerda Marxista e O Trabalho não devem ter representantes na executiva e correm o risco de ficar fora do diretório nacional pela primeira vez desde a fundação do PT.

Estas correntes, rotuladas pela mídia como “radicais”, tem pouca influência nas decisões do partido e do governo, mas garantem a pluralidade nos debates internos do PT e fazem o contraponto à esquerda em relação ao pragmatismo eleitoral/administrativo que domina a cúpula petista desde a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002.

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São estes grupos que lutaram contra a política econômica conservadora dos primeiros anos do governo Lula, denunciaram o distanciamento em relação aos movimentos populares e combatem a política de alianças com partidos de centro-direita como o PMDB.

A organização em torno de correntes remete ao processo de criação do PT composto por três pilares principais: sindicalistas, remanescentes da luta contra a ditadura militar e Igreja progressista, em volta dos quais gravitavam dezenas de grupos de esquerda. A fórmula permitiu que estes grupos se acomodassem no partido sem perder a identidade.

Para os integrantes das alas majoritárias, a esquerda petista perdeu espaço devido às próprias falhas. Já integrantes dos grupos ameaçados acusam a manipulação das regras do PED por parte da cúpula partidária.

Segundo Valter Pomar, candidato a presidente do PT pela Articulação de Esquerda, o diretório nacional fez três reuniões para flexibilizar medidas de controle aprovadas no 4º Congresso do PT como, por exemplo, a proibição de pagamentos em massa da contribuição partidária e a obrigatoriedade dos filiados participarem de pelo menos uma atividade por ano para terem o direito de votar.

Além disso, Pomar afirma que a direção do partido fez vista grossa para irregularidades como pagamentos em massa, existência de filiados fantasmas e até caixa dois. Segundo ele, foram protocolados mais de 300 recursos referentes ao PED desde o início do processo. A maioria foi ignorada, o que pode levar a uma avalanche de processos judiciais depois da votação.

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O iG teve acesso a um áudio no qual uma pessoa que diz representar o candidato à presidência do diretório municipal do PT em Belo Horizonte, Miguel Corrêa, oferece transporte para um filiado em troca de voto.

O próprio Pomar enviou emails pedindo votos para filiados da região de Campinas e recebeu respostas do tipo: “PT .. Partido dos Trambiqueiros. O PT é a demonstração clara do estágio atrasado dos valores do homem. Tenho repúdio ao Partido dos Trabalhadores. Desejo honestamente, para o bem do país a retirada por meio do voto democrático nas eleições próximas do PT do controle nacional”.

O autor do email é Paulo Henrique Silveira de Lima, apto a votar no PED na cidade de Santa Cruz da Baixa Verde (PE), sob o número 5018909. “Como uma pessoa assim pode ser chamada de petista? Alguém é capaz de acreditar que essa pessoa pagou a contribuição partidária?”, questiona Pomar. “O sistema eleitoral adotado pelo PT não corresponde ao nosso discurso para a sociedade. Este sistema está falido”, completou Pomar, comparando o PED à campanha do partido pela reforma política.

Um dado revela o descompasso entre o colégio eleitoral apto a votar no PED e a militância real do PT. Enquanto 812 mil pessoas estão em condições de votar, apenas pouco mais de 300 mil firmaram o abaixo assinado do partido pela reforma política. A direção nacional decidiu obrigar todos os diretórios a disponibilizar formulários para o abaixo assinado nas mesas de votação durante o PED deste domingo.

Em um dos debates entre candidatos a presidente, Markus Sokol, da corrente O Trabalho, falou claramente em caixa dois nas eleições internas do PT.

Outra queixa das correntes minoritárias é em relação à falta de divulgação. Eles reclamam do não cumprimento em tempo hábil da determinação estatutária de enviar material de divulgação pelos correios.

Uma fonte petista disse que o envio foi dificultado porque o partido possui os endereços físicos de apenas 525 mil filiados.

Os candidatos minoritários também se queixam do último programa do partido na TV que nem sequer citou o PED embora tenha dado espaço para Rui Falcão e do não cumprimento do número mínimo de debates entre os candidatos a presidente. Dos mais de 800 mil aptos a votar, apenas 30 mil participaram de debates.

A voz dissonante é a do deputado Paulo Teixeira, candidato a presidente do PT pela Mensagem. “Nossa estimativa é que o quórum vai cair e as correntes menores vão se manter na direção”, disse ele.

O secretário nacional de Organização do PT, Florisvaldo Souza, responsável pela organização do PED, disse que o último debate não foi realizado porque os próprios candidatos criaram dificuldades de agenda.

Segundo dirigentes petistas, a investigação das denúncias não foi levada a cabo por falta de provas. “Não dá para aceitar uma denúncia com base em indícios e suposições”, disse Francisco Rocha, o Rochinha, coordenador nacional da corrente majoritária CNB e integrante da Comissão de Ética do PT.

Ele nega que a cúpula do partido tenha flexibilizado as regras do PED e diz que as mudanças foram aprovadas dentro das regras estatutárias pelo diretório nacional. “O PT não está preparado do ponto de vista técnico e operacional para implementar aquelas propostas”, afirmou.

Cotas no partido

Para Rochinha, o PED deste domingo vai representar a maior mudança na história do PT. A adoção das cotas vai fazer com que quadros novos assumam cargos de direção forçando uma mudança geracional. Nomes históricos como o do deputado José Genoino e o secretário de Comunicação, Paulo Frateschi, já anunciaram que vão deixar a direção petista.

“Não tem mais jeito. O PT está passando por profundas transformações. É a maior revolução na história do partido”, disse Rochinha.

Os petistas vão às urnas neste domingo para escolher mais de 100 mil cargos entre presidentes, integrantes dos diretórios nacional, estaduais e municipais e delegados para o Encontro e o Congresso nacionais que o partido pretende fazer em 2014. O PT é o único partido do país que faz eleições diretas para escolher seus dirigentes.

"A redução da pluralidade é um risco. O PED nivela as campanhas pelo tamanho das máquinas eleitorais internas que elas representam. Nosso principal objetivo é manter o expaço na executiva nacional", disse o deputado federal renato Simões, secretário nacional de Movimentos Sociais e candidato a presidente do PT.

Seis nomes disputam a presidência nacional do PT, Rui Falcão, Paulo Teixeira, Valter Pomar, Renato Simões, Markus Sokol e Serge Goulart.

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