Premiê da Turquia tenta ampliar poderes enquanto manifestantes pedem sua saída

Por NYT | - Atualizada às

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Comportamento de Erdogan em meio a manifestações alimenta questionamentos sobre seus métodos: ele está mais autoritário ou é um político que se tornou confiante demais?

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Após dias de manifestações que representam a pior crise política para o governo de uma década do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, o líder respondeu na segunda-feira com uma demonstração de suprema confiança: ele simplesmente virou as costas e subiu num avião para uma visita de cortesia de quatro dias ao norte da África.

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Em meio à recente agitação, o comportamento de Erdogan alimentou questionamentos sobre seus métodos e objetivos – se ele está mais autoritário do que democrático, ou se é um político habilidoso que se tornou confiante demais.

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Primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan concede entrevista em Ancara, Turquia


A ascensão política de Erdogan foi vista por muitos como um catalisador de uma nova era de influência e prosperidade para a Turquia, e ele exibe seu governo como um modelo democrático para as nações de população muçulmana que têm se levantado contra ditadores.

Domesticamente, ele tem segurança no apoio da base de religiosos conservadores, a maioria do eleitorado, grupo que havia sido marginalizado pelos militares e pela antiga elite secular do país.

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Ele fez alusão a esse apoio na segunda-feira, enquanto os protestos continuavam nas principais cidades turcas. Ele disse que “dificilmente poderia conter” quem o apoia de sair às ruas para um contra-protesto em sua defesa. “Fiquem calmos, isso tudo vai passar”, acrescentou.

Mas para seus opositores, ao menosprezar os manifestantes chamando-os de “arruaceiros” e, em particular, ao mandar a polícia para conter o que começou como um protesto pacífico pela manutenção de um parque na praça Taksim, o premiê demonstra publicamente seu autoritarismo. Eles citam anos de repressão a dissidentes e à mídia, e o expurgo de militares.

“Ele acredita que tendo 51% dos votos, pode governar de forma irrestrita. Não quer fiscalização e equilíbrio”, diz o cientista político Ilter Turan, da Universidade Bilgi, em Istambul.

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Depois de 10 anos de Erdogan, muitos turcos liberais e seculares expressam insatisfação com o que acreditam ser tentativas de fazer imposições a suas vidas privadas. O premiê prometeu restringir o álcool e disse diversas vezes que as mulheres deveriam ter no mínimo três filhos. Às vezes, ele se atém a pontos peculiares. Este ano, por exemplo, declarou que a “era do pão branco chegou ao fim” e os turcos só deveriam comer grãos integrais.

Em seus discursos, Erdogan é um eloquente defensor da inclusão das minorias e dos direitos humanos. Porém, parece que cada vez mais suas ações não combinam com suas palavras.

Em uma entrevista a uma revista literária no ano passado, ele afirmou: “Censura é um método inaceitável de obstrução, não apenas na literatura, mas em todas as artes, mídias, manifestações políticas e outros campos. Liberdade de expressão é um direito que trabalhamos todos os dias para solidificar."

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Mas desde que se tornou primeiro-ministro, seu governo já prendeu diversos jornalistas e escritores de oposição. E no último final de semana, quando os manifestantes usaram mídias sociais para se organizar, ele classificou o Twitter como uma “ameaça” usada para disseminar mentiras.

Erdogan, 59 anos, cresceu um bairro pobre e religioso de Istambul, quando a Turquia era governada por uma elite que baniu as expressões religiosas da vida pública. Ao chegar ao poder, ele colocou a classe social antes periférica no centro da vida pública do país. Analistas dizem que vai ser a reação dessa massa que vai determinar como ele sairá da crise atual.

Por enquanto, essa base parece manter um apoio sólido a Erdogan.

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Kasimpasa, o bairro em que Erdogan cresceu, não fica muito distante da praça Taksim, o epicentro dos protestos. Lá, os moradores se referem ao premiê como “Baba”, pai em turco. Muitos dizem que apoiam o objetivo inicial das manifestações, que era salvar o parque. Mas ficaram de fora quando os protestos passaram a pedir o fim do governo de Erdogan.

Apesar de especialistas sugerirem que as imagens dos excessos da polícia poderiam ser suficientes para mobilizar os religiosos contra o governo, a população em Kasimpasa diz estar ultrajada é pelo vandalismo e violência dos manifestantes – e isso teria levado a polícia a endurecer, segundo eles.

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Na verdade, os protestos eram pacíficos até a polícia atacar os manifestantes. Mas muitos dos noticiários de TV, há muito tempo perseguidos pelo governo, só começaram a cobrir amplamente os eventos quando eles já tinham se expandido para atos de vandalismo.

Manifestante segura bandeira da Turquia durante protesto em Istambul (05/06). Foto: NYTJovens observam através da janela de uma casa para assistir aos confrontos da polícia com os manifestantes em Istambul (05/06). Foto: NYTPôster com foto do premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, foi queimado durante protesto antigoverno em Istambul (02/06). Foto: The New York TimesManifestantes antigoverno gritam slogans enquanto se escondem atrás de barreiras durante choques com a polícia em Istambul, Turquia (02/06). Foto: The New York TimesManifestantes antigoverno entram em confronto com polícia perto do Palácio Dolmabahce, em Istambul, Turquia (02/06). Foto: The New York TimesMulher lava seu rosto após ter sido exposta a gás lacrimogêneo perto da praça Taksim, em Istambul (01/06). Foto: NYTPolicial reprime protestos perto da praça Taksim, em Istambul (01/06). Foto: NYTManifestante cobre o rosto em meio à fumaça de gás lacrimogêneo na praça Taksim, em Istambul (01/06). Foto: NYT

Após Erdogan embarcar para sua viagem na segunda-feira, o presidente da Turquia, Abdullah Gul, que tem menos poderes que o premiê, falou ao país em tom conciliador. “Democracia é mais do que eleição. Protestos pacíficos com certeza são uma parte dela”, afirmou.

Erdogan, contudo, tenta concentrar mais poder; ele quer mudar a Constituição e fortalecer o presidente, cargo para o qual vai concorrer no ano que vem. Sua ideia tem sido descrita como um sistema presidencial no estilo americano, mas Erdogan já disse que isso não seria suficiente. “O presidente dos EUA não pode decidir sozinho a nomeação de um embaixador, ou a simples venda de um helicóptero”, afirmou no ano passado.

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Analistas acreditam que o orgulho, que faz Erdogan buscar ainda mais poder, deve dar a direção para sua resposta ao levante atual. O professor de sociologia Yasin Aktay, autor de um livro sobre lideranças que inclui um capítulo a respeito de Erdogan, diz que é pouco provável que o premiê desista de seus planos, em parte porque acredita ter sido central para a ascensão da Turquia. “Ele acha que as pessoas estão sendo injustas com ele, depois de tudo que fez pelo país – as dívidas com o FMI estão pagas, a corrupção controlada”, analisa.

Por Tim Arango

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