Morte de ex-presidente afegão reflete dificuldades para a paz

Partidários se reuniram em Cabul para protesto contra o assassinato de Burhanuddin Rabbani, encarregado de dialogar com o Taleban

iG São Paulo |

O assassinato do ex-presidente Burhanuddin Rabbani, encarregado de dialogar com o Taleban, é mais uma perda para o governo afegão e seus aliados ocidentais, incapazes de convencer os insurgentes de negociar, em um momento em que eles intensificam sua guerrilha.

Em uma corrida contra o relógio, que deve terminar no final de 2014 com a retirada das forças da Otan e a passagem da segurança do país para as mãos das forças afegãs, os ocidentais, base de sustentação do governo de Cabul, condenaram fortemente o ataque fatal à Rabbani.

"Aos que oferecem ao povo afegão somente morte e destruição, nossa mensagem é clara: vocês não ganharão", afirmou o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, logo depois que um homem-bomba se passando por um mensageiro matou Rabbani em Cabul.

Com essas declarações, o atentado de terça-feira parece distanciar ainda mais qualquer perspectiva de paz. "O governo vai entender que qualquer esperança de paz com os talibãs era cega", avaliou Mahmood Saikal, um ex-vice-chanceler.

Os rebeldes, apesar de fragmentados, estão em posição favorável depois de ganhar terreno nos últimos anos, enquanto os ocidentais, que nunca confirmaram publicamente o interesse em negociar, enfrentam a opinião pública,que pede a retirada das tropas, apesar da deterioração da segurança.

O Conselho Superior para a Paz (HPC), criado por Hamid Karzai no ano passado e chefiado por Rabbani, não registrou nenhum avanço até o momento. Alguns analistas questionam a nomeação do então presidente - um tadjique - para este posto, já que ele fazia parte da antiga Aliança do Norte, inimiga de longa data do Taleban, majoritariamente pashtun.

O ex-chefe da inteligência afegã Amrullah Saleh, ressalta a ingenuidade de Karzai, que mantém a esperança de levar pelo menos uma parte do Taleban à mesa de negociação. "Nenhuma facção Taleban quer a paz", declarou Saleh ao canal de televisão Al-Jazeera. O ex-chefe da inteligência afegã também é tadjique e ex-membro da Aliança do Norte.

"Como nós iremos negociar com esses demônios selvagens?", disse o governador da província de Balkh, Atta Mohammad Noor. "Nós precisamos de paz, mas paz com quem? Nós queremos paz com pessoas que valorizem a paz."

"O Taleban não é complacente. Eles matam nosso povo. Eles mataram nosso líder - Rabbani. Nós não queremos perder tempo com esse tipo de gente", afirmou ele à Associated Press.

Já os americanos procuram estabelecer contatos diretos com o Taleban, mas sem êxito aparente até o momento. Muitos especialistas, incluindo ocidentais, questionaram nos últimos meses a incoerência da política dos Estados Unidos, que intensifica suas operações militares contra os rebeldes ao mesmo tempo em que busca o diálogo com os insurgentes.

O Taleban "precisa ser prejudicado ao máximo para estar realmente pronto para as negociações", reiterou no início do mês o embaixador americano Ryan Crocker. Mas essa estratégia não contribuiu para estabilizar o país, enquanto os rebeldes se beneficiaram de bases no Paquistão.

A facilidade com a qual o Taleban assumiu o controle de locais onde os americanos abandonaram suas posições permanentes, como nas províncias de Kunar e Nuristão, é um mau presságio para o governo de Cabul na perspectiva da retirada do Ocidente.

O Taleban parece aguardar, e continua a desmentir qualquer negociação com o ocidente. O mulá Omar disse no mês passado que considera "todas as opções legítimas" para alcançar o objetivo de restabelecer um "regime islamita independente" e fora de qualquer influência ocidental.

Nessa perspectiva de futuro, segundo Mujda, o assassinato de Rabbani mostra um interesse certo dos rebeldes: ele "divide e desintegra um pouco mais" seus inimigos no cenário afegão.

Brasil

O governo brasileiro repudiuou o atentado contra Rabbani e manifestou seu compromisso com o processo de reconciliação nacional do Afeganistão.

"Ao tempo que se solidariza com o governo e o povo afegãos e com as famílias do ex-presidente Rabanni e do restante das vítimas, o Brasil reafirma seu compromisso com um processo pacífico de reconciliação nacional no Afeganistão e reitera, além disso, seu repúdio a todos os atos de terrorismo", segundo um comunicado oficial.

O assassinato de Rabbani, que foi condenado por vários países, assim como pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, forçou o atual presidente afegão, que se encontrava nos Estados Unidos, a retornar a seu país.

AP
Homens seguram cartaz com a foto do ex-presidente afegão Burhanuddin Rabbani, durante uma marcha em Cabul

Investigações

Até esta quarta-feira, o Taleban não reivindicou a autoria do atentado. Se eles de fato o fizeram, confirmarão "a rejeição de um processo de paz, que consideram ser dirigido pelos americanos", diz o especialista afegão Waheed Mujda, ex-funcionário do regime Taleban (1996-2001).

Eles informaram nesta quarta que estão investigando as circunstâncias do assassinato de Rabbani e afirmaram que não se pronunciarão a respeito, até que suas verificações tenham terminado. "Ontem o chefe do Conselho de Paz foi assassinado. Nossa investigação sobre o assunto não está completa, portanto, naõ podemos dizer nada a respeito por enquanto", indicou o movimento fundamentalista em comunicado.

Os insurgentes acrescentaram que as informações publicadas na imprensa em nome do grupo "não têm fundamento". Em declarações à emissora local Azadi, o porta-voz do Taleban Zabiullah Mujahid já havia negado horas antes a responsabilidade do movimento no ataque.

De acordo com a agência EFE, a polícia afegã acredita, no entanto, que o terrorista suicida que matou Rabbani em sua residência "foi enviado diretamente" pelo conselho que o líder máximo do Taleban, o mulá Omar, supostamente dirige do Paquistão. "O assassino, Esmatula, foi enviado pela 'shura' ('conselho') de Quetta (oeste do Paquistão). Estamos investigando se exerceu o cargo de ministro durante o regime Taleban (1996-2001)", disse à Agência Efe o chefe da Polícia de Cabul, Mohammed Zahir.

Rabbani, que era o chefe do Conselho de Paz, encarregado de negociar com os insurgentes, foi assassinado na terça-feira por um suicida que detonou uma carga explosiva escondida em seu turbante durante uma reunião com o ex-presidente em sua casa.

Segundo Zahir, Esmatula marcou uma reunião com Rabbani com o pretexto de levar uma "mensagem muito importante da 'shura' que poderia ter um efeito positivo para a tarefa do Conselho de Paz", formado no ano passado pelo governo afegão.

De acordo com Zahir, Esmatula ativou a carga explosiva que levava em seu turbante ao se aproximar do ex-presidente para saudá-lo. A polícia descartou que Wahidyar, antigo vice-ministro do Taleban para os Refugiados, estivesse envolvido no atentado, o último de uma série dos insurgentes afegãos contra altos cargos do governo.

O governo do Paquistão negou no passado que mulá Omar esteja dirigindo o movimento Taleban em seu território, embora as autoridades afegãs sustentem que o líder terrorista se mantém ativo nos arredores de Quetta, de onde lideraria os insurgentes.

Protesto

Centenas de afegãos se reuniram em Cabul para protestar contra o assassinato de Rabbani. Segundo a agência AFP, o ex-chefe de Estado será homenageado com um funeral nacional na sexta-feira e com um luto nacional de três dias a começar desta quinta-feira, afirmou uma fonte ligada à Presidência.

Os manifestantes exibiam imagens do ex-presidente, alguns com faixas pretas na cabeça recitavam versos do Corão, segundo um jornalista da AFP.

Herói da resistência contra as tropas soviéticas nos anos de 1980, mas questionado como todos os outros senhores da guerra afegãos por organizações dos Direitos Humanos na década de 1990, Rabbani foi presidente do país de 1992 a 1996.

Membro da etnia tadjique e originário do norte do Afeganistão, ele voltou à cena política no ano passado ao ser nomeado chefe do Conselho Superior para Paz (HPC).

Com AFP, EFE, Reuters

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