iG - Internet Group

iBest

brTurbo

 

publicidade

ULTIMO SEGUNDO

 

iG BUSCA

enhanced by


Home > Notícia
  • Tamanho do texto
  • A
  • A

Duchamp no mam

19/07 - 04:16 - Régis Bonvicino, especial para o Último Segundo

Marcel Duchamp é o maior artista plástico e um dos maiores artistas de todo o século XX. Está no nível do autor de “O Processo”, Franz Kafka (1883-1934), nascido em Praga, hoje capital da República Tcheca. Duchamp (1887-1968) nasceu em Blainville-Crevon Seine-Maritime, que se localiza perto de Le Havre, ao norte de Paris, próxima da Bélgica e margeando o Canal da Mancha, o que a torna, como cidade da Haute-Normandie, “quase inglesa”, na linha de Londres e Brighton. Como informa o poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz (1914-1998), “Duchamp ganhou quantias irrisórias com seus quadros – a maioria os presenteou – e viveu sempre modestamente, sobretudo se se pensa nas fortunas que acumula hoje um pintor que mal goza de certa reputação”. Paz aponta o espanhol Pablo Picasso (1881-1973) e Duchamp como os mais influentes artistas plásticos do século passado: ”O primeiro por suas obras, o segundo por uma obra que é a própria negação da moderna noção de obra”.

Reprodução
O artista plástico Marcel Duchamp
Paz fez essa afirmação em 1968, em seu livro “Marcel Duchamp ou o Castelo da Pureza” (no Brasil, pela Editora Perspectiva, 1977).  Antes de discutir a obra de Duchamp “como negação da noção moderna de obra”, ofereço ao leitor a precisa definição do mexicano de ready-made – o mais conhecido procedimento artístico de Duchamp – “o ready-made é arma de dois gumes: se se transforma em obra de arte, malogra o gesto de profanação; se preserva a neutralidade, converte o gesto em obra. Nessa armadilha caíram, em sua maioria, os seguidores de Duchamp: não é fácil jogar com facas”.

Hoje, pode-se ter visão diversa da obra desse artista que transcendeu os movimentos dadaísta e surrealista e demais rótulos. Duchamp percebeu, já na primeira década do século passado, que a arte havia perdido seu sentido, enquanto representação figurativa da “realidade” e ou mesmo bidimensional, cubista, dessa “realidade”, como a de Picasso – crítica, de certo modo, branda ao mundo contemporâneo; daí dizer-se que ele negava o “sistema da arte”, cultivado pelo pintor malaguenho, em gesto de agressão à burguesia.

Reprodução
O artista em sua casa
À diferença de Picasso, Duchamp “pintava” com a cabeça e não com o olhar. Seu aguçadíssimo espírito crítico e sua inteligência, levaram-no a compreender que a Revolução Industrial (séculos XVIII, XIX e XX), a revolução da máquina e das massas, havia, na verdade, liquidado com qualquer possibilidade de arte, que sobreviveria – a la Picasso – num mercado sofisticado e para poucos – como mercadoria.

 

Duchamp, que começara cubista, ao contrário de Picasso, que, durante os seus vinte primeiros anos de carreira, foi um realista figurativo, respeitoso no que se refere às convenções, decidiu trabalhar com o lixo dessa sociedade – que trazia em si a sua própria destruição, como se vê hoje com o aquecimento global. Não à toa – como assinalei em coluna anterior – Nicholas Stern conceitua o aquecimento global como o maior fracasso de mercado da história do homem, ou seja, o maior fracasso da Revolução Industrial, que o criou com o liberalismo.

O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss afirma que, no ato de consumo, de aquisição de qualquer bem, uma saia ou um carro, ainda persiste – atavicamente – o ato do homem primitivo de apanhar frutos das árvores, ou, em outros termos, o impulso aleatório de acumulação, inclusive, de capital. O ato de furto, de apropriação indébita.

Reprodução
Duchamp e a roda de bicicleta

Os ready-made de Duchamp constituem-se, ao mesmo tempo e paradoxalmente, nesse gesto de acumulação primitivo (inocente, no início da humanidade) e em violenta crítica à acumulação do capital, que, além de subjugar o homem, devasta o meio-ambiente.

 

Seus primeiros ready-mades foram “Roue de biclyclette” (1913) e “Fonte” (1917). O primeiro transforma uma roda de bicicleta, agora inútil, sem a bicicleta e sem beleza “convencional”, em “arte”: é o objeto inútil representando a si mesmo, nu e cru. A chave de sua interpretação consiste no resgate dessa inutilidade para a arte, dura crítica em relação à sociedade utilitarista, e aos artistas que, apesar de magníficos como Picasso, seguiram pintando para uma arte que não mais dizia – digamos – nada, além de reiterar-se mercadoria.

Reprodução
A "Fonte", do pseudônimo R. Mutt

O segundo é um urinol de porcelana, no qual se esculpe toda idéia de escárnio, e, sobretudo, de sujeira. A “Fonte” é assinada com o pseudônimo R. Mutt, que carrega em si também a palavra “mutation” (mutação) e a palavra mudo, de calado. Marcel Duchamp é assunto inesgotável e, também a exposição do mam, em virtude de sua heróica extensão.

 

A mostra, no entanto, evidencia que esse Museu não tem infra-esturutura para receber um Duchamp: apesar de seus bilionários patrocinadores, não há informação didática, gratuita, suficiente e de qualidade para um público mais amplo. Sinal de que a elite econômica do país se preocupa menos com a arte e mais com autopromoção, por meio justamente da “arte”. Mas, só de o mam a ter montado já é um feito e tanto! 

Reprodução
cinema

"Anémic cinéma", de 1926

Ante Duchamp, o inesgotável, e ante tão contundente exposição, opto por assinalar a importância de seu filme “Anémic cinéma”, de 1926, realizado no estúdio do fotógrafo e pintor norte-americano Man Ray (1890-1967), que se traduz numa sucessão de planos fixos de dezenove discos giratórios em movimento; cada disco contém palavras, que, ao cabo, formam um poema, com trocadilhos e aliterações.

 

O poema é de autoria de Rrose Sélavy, outro pseudônimo de Duchamp – um anagrama de “Eros c’est la vie”: rose e eros. Duchamp, o humanista-cético, ilustrador de poemas do francês Jules Laforgue (1960-1887) reaparece revolucionando igualmente a poesia, incorporando, nela, o cinema falado, a idéia de movimento e labirinto.  Há muito do nonsense dos poetas ingleses Edward Lear (1812-1888) e Lewis Carrol (1832-1898) nos textos: “Esquivons les ecchymoses des esquimaux aux mots exquis”. Esse filme de 1926, insuperável, contém tudo aquilo que se chamou trinta anos depois de “Poesia concreta”, letrista ou visual e que se pretendeu “vanguarda”.

Para finalizar, reflito sobre “Bouche-évier” (em forma de pequena medalha de bronze, versão de 1967) ou “Boca-ralo”.

Reprodução
Bouche-évier
Bouche-évier, Marcel Duchamp

O trabalho é representativo da crítica do autor de “Roue de bicliclette” ao mundo das manufaturas e à profanação – atenção – do homem, que não mais existe nos limites de seu corpo e vaza, sangra, invadido. É erótico-mórbido, ao fazer a analogia entre o ânus e a boca, gravados em medalha – relação que se revela justamente pela medalha em metal, estática, morta.

 

Quando revi o irônico e sombrio “Bouche-évier” não pensei no malogro da arte ou do ready-made como objeto de arte, como Paz corretamente observara, mas no malogro desse homem de hoje, deserotizado, seios e lábios artificiais, como “burkas estéticas” – com a “industrialização” de tudo, da boca ao ânus e, sobretudo, do ânimo.

mam
Parque do Ibirapuera
Telefone: 11 5085-1300
De terça a domingo das 10:00 às 18:00 horas
Entrada: R$ 5,00 e franca aos domingos
De 17 de julho a 21 de setembro de 2008

Leia também:


Saiba mais sobre o escritor Régis Bonvicino





US Multimídia


Publicidade


Enquete