Artistas comentam fechamento do Canecão no Rio

Após 39 anos de disputa, UFRJ finalmente retoma espaço ocupado pela casa de show, o principal palco da história da MPB na cidade

Anderson Dezan e Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

AE
Fachada da casa de show em Botafogo, na zona sul carioca

“Nesta casa se escreve a história da Música Popular Brasileira”. Quem passa hoje em frente ao Canecão ainda pode ler esta inscrição cunhada pelo produtor Ronaldo Bôscoli na entrada principal. Fechada desde segunda-feira passada (10), quando a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) conseguiu reaver o espaço na Justiça, após uma ação que movia há 39 anos, a casa de shows localizada em um terreno de 36 mil metros quadrados em Botafogo, bairro da zona sul do Rio de Janeiro, está na memória da maioria da nata da MPB.

Segundo o produtor musical Nelson Motta, no entanto, a cidade não sairá perdendo. “Se forem mantê-lo como ambiente cultural, como o pessoal da UFRJ diz, acho que para a cidade e para a música, é irrelevante a troca de comando. O prédio não tem valor de patrimônio cultural, é apenas comercial, uma casa bem sucedida. O resto é conversa mole”, disse ele ao iG.

A casa de shows, que já recebeu inúmeras artistas internacionais como Tony Bennett, James Taylor, Miles Davis, Ray Charles, Black Sabbath, Buena Vista Social Club, Echo and The Bunnymen e Iggy Pop, “não desempenhava mais o papel que teve no cenário artístico carioca”, analisa o produtor. “O Canecão foi importante como palco da música brasileira e internacional. Mas o prédio não é patrimônio da cidade. O Rio tem muitas outras casas de show hoje em dia, diferentemente de quando surgiu o Canecão. A situação é diferente”, afirma Motta.

O pesquisador musical Ricardo Cravo Albim, no “Dicionário MPB”, prefere exaltar a dimensão do papel exercido pela casa de espetáculos no cenário artístico. “Dificilmente se poderão listar todos os artistas que passaram pelo Canecão, uma das maiores e mais importantes casas de show da América do Sul”, afirma. Foi neste palco que, em um dos shows no fim dos anos 80, Tim Maia agradeceu à Brahma pelo patrocínio, pedindo um copo de Antarctica. Isso antes de existir a AmBev. As histórias são muitas.

Na verdade, não há como negar a importância da casa. Basta rever a trajetória de grandes nomes inquestionáveis da música brasileira como Roberto Carlos, Tom Jobim, Elis Regina, Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Chico Buarque, Cazuza, Marisa Monte, Ney Matogrosso e Martinho da Vila para perceber que todos os caminhos levam a um palco em comum: o Canecão.

Pegos de surpresa

Futura Press
Portas fechadas no Canecão

O fechamento da casa pegou alguns artistas de surpresa. Como George Israel que, por meio de sua assessoria de imprensa, divulgou nota. “Já de antemão nos sentimos lesados. O espetáculo de lançamento do show foi produzido para ser gravado em DVD nesse único dia. Seria gravado com artistas convidados, que ensaiaram durante semanas, Elza Soares por exemplo fez quatro ensaios, músicos, cenários, projeções e cerca de 50 profissionais envolvidos”, diz o comunicado. George Israel tinha show marcado para terça-feira (11).

Para Nana Caymmi, o problema já vinha se arrastando desde que o Canecão perdeu o patrocínio da Petrobras, em novembro de 2008. A artista subiu em 2004 neste palco com os irmãos Dori e Danilo para um show emblemático em homenagem ao pai, Dorival Caymmi, que rendeu a gravação de CD e DVD ao vivo.

“A gente não está lidando com surpresas. Eu já sabia que ia dar nisso há muito tempo. Desde que a Petrobras saiu do patrocínio, 60% da bilheteria iam para a administração, uma parte para o Ecad e o que sobrava ia para o artista. Tinha atrasos grandes de pagamento de bilheteria, porque ações judiciais de vez em quando bloqueavam o repasse”, afirma.

Nana é otimista e não crê que o terreno seja abandonado. “A localização é a melhor do Brasil, ninguém é burro para perder este espaço. Talvez agora tendo a universidade como gestora, os patrocinadores deem as caras”, diz.

Em fevereiro de 2008, o Ministério Público Federal denunciou Mario Hamilton Prioli, principal sócio do Canecão. Ele foi acusado dos crimes de falsidade ideológica e estelionato, por ter usado outra empresa para aprovar, junto ao Ministério da Cultura, um patrocínio de R$ 7,5 milhões anuais vindos da Petrobras. Procurado pela reportagem do iG para comentar o fechamento do estabelecimento, o empresário informou por meio de sua assessoria de imprensa que não falaria sobre o caso. Sua mulher, Giovana Prioli, não retornou as ligações.

AE
Panfleto informa cancelamento do show de George Israel no Canecão

Abalo na vida cultural da cidade

Para o historiador Rodrigo Faour, autor do livro “História Sexual da MPB”, o fechamento da casa de shows afeta, sim, a vida cultural da cidade. “Ruim com ele, pior sem ele. Não há quase casas de shows decentes no Rio. Fechou tudo”, afirma.

Para Nana, restam as boas lembranças de um passado glorioso e críticas à atual noite carioca. “Foi uma casa que nos deu muita alegria, e agora ver desmoronar... É um fim trágico numa cidade com problemas sérios em cultura. Se o Canecão fosse em São Paulo, isso não teria acontecido. A moda agora é Lapa, barzinho, lugares menores. O Rio não é São Paulo, aqui é tudo boca livre, difícil de encher um lugar com dois mil lugares. Você tem gente com carteira de estudante aos 70 anos”, alfineta a cantora.

Outra que tem na sua trajetória, entre suas melhores apresentações, as que realizou no palco da casa de shows de Botafogo, é Ângela Ro Rô. Ela vê o fechamento do Canecão como “uma grande perda para a música” e, principalmente, para o Rio. “Digo isso como artista e plateia. Fiz shows importantes lá, como um no final de 2008 com a participação da Ana Carolina e outro ao lado da Elba Ramalho no projeto ‘Loucos por Música’. Também assisti apresentações memoráveis na casa, como do John Mayall”, diz, referindo-se ao pai do blues britânico.

O cantor Toni Platão acredita que, apesar de todos os problemas, essa é “uma grande perda para o Rio”. “Temos poucas casas para se apresentar na cidade. O Canecão tem muita história, a MPB inteira passou por ali. O fechamento é um desastre cultural. O Canecão é um lugar que dá arrepios quando você pisa naquele palco, porque você se lembra de quanta gente importante já passou por lá”, diz Toni, que recebeu lá o Prêmio da Música Brasileira de melhor DVD de 2009.

Shows memoráveis

AE
Interior da casa de show

Tendo como seu fundador Mário Priolli, a casa de shows foi inaugurada no dia 20 de junho de 1967, inicialmente como cervejaria. Depois de uma longa temporada na Europa, Maysa resolve voltar ao Brasil em 1969. Para marcar o seu retorno, a cantora fez uma grande apresentação no Canecão, que naquela época ainda não era vista como uma importante casa de espetáculos. O público lotaria a casa durante toda a turnê de Maysa, que entraria de vez para a história como uma das mais bem sucedidas do país.

Em 1977, outro show de grande sucesso reuniu Tom Jobim, Miúcha, Toquinho e Vinícius de Moraes, permanecendo seis meses em cartaz. Ao iG, Miúcha lamenta o fechamento do Canecão. “Fiquei oito meses em cartaz com eles. Foi histórico. Era uma oportunidade única de ver Tom e Vinícius lado a lado no palco. Também assisti a diversos shows inesquecíveis lá”, diz.

João Gilberto enfrentou dificuldades com a sonorização da casa, em 1979. Embora estivesse no palco sozinho com seu violão. As reclamações do pai da Bossa Nova com a acústica, dali em diante, seriam quase que como um mantra em suas apresentações mundo afora.

Cazuza, em 1988, fez sua última turnê, “O tempo nao para”, na casa de shows de Botafogo. Uma cena que ficou eternizada para os que presenciaram a sua apresentação foi a do cantor, já bastante debilitado pela Aids, indo ao fundo do palco, utilizar um nebulizador de ar, para ter fôlego até o final do show. Ângela Ro Rô estava nesse dia entre as duas mil pessoas presentes. “Estava sentada na primeira mesa ao lado da Lucinha (Araújo) e ele dedicou para mim ‘Blues da Piedade’. O Cazuza já estava bem fraco, mas usou todas suas forças no palco e fez um show histórico”, recorda Ângela.

Recentemente, em 2007, Chico Buarque lotou todas as suas apresentações no local, com o show “Carioca”. No mesmo ano, Roberto Carlos voltou ao palco que o consagrou de vez na década de 70. “O primeiro show no Canecão foi um marco em minha vida, a primeira vez que cantei com grande produção e direção”, disse Roberto, na época.

Funk carioca

Embora associada à MPB, o espaço abrigou outros gêneros. "Foi lá que surgiu o primeiro baile funk do Rio, quando a casa ainda não era, de fato, uma casa de espetáculos. Na década de 60, Ademir Lemos e o Big Boy montaram lá o 'Baile da Pesada', que virou uma febre na cidade. O repertório da festa tinha muito soul e, principalmente, James Brown", conta o DJ Marlboro, que tocou lá com a equipe do Big Mix, com a Orquestra Imperial e com Fernanda Abreu.

O show não pode parar

O projeto da UFRJ é usar o terreno para a construção de um centro cultural. É o que informou o reitor da UFRJ, Aloísio Teixeira, em coletiva de imprensa na terça-feira (11). “A gente quer usar o espaço para atender aos interesses da população e da universidade", disse ele, comunicando ainda que, no local, haverá eventos acadêmicos e culturais. Aloísio acredita também que, por não terem fins lucrativos, os próximos eventos no espaço terão preços mais baixos dos que são cobrados atualmente.

"O fechamento da casa é uma perda, mas se a UFRJ for fazer um centro cultural no local, menos mal. A universidade deve dar continuidade e transformar o espaço em um pólo de artistas", avalia Marlboro.

O Canecão não informa como será a devolução de ingressos comprados para os shows que já estavam agendados. O site da casa ainda informa que há ingressos à venda para apresentações de Edu Lobo, marcadas para 15 e 16 de maio, Johnny Winter, dia 20, Diogo Nogueira, dia 27, entre outros.

    Leia tudo sobre: CanecãoMPBUFRJArtistas

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG