"Vinicius de Moraes era um ímã", diz garçom que servia o "poetinha" em Ipanema

Por Nina Ramos , iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

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iG faz um passeio pelos bares frequentados pelo artista e resgata histórias de amor e boemia: "O bar podia estar vazio, era só ele chegar para atrair o pessoal"

O Rio de Vinicius de Moraes não existe mais. Sua boêmia Ipanema, onde passou bons anos da vida, foi engolida pelo comércio e perdeu parte da bossa. Poucos botequins tentam respirar madrugada adentro, resgatando a raiz malandra do carioca (ou dos amantes da nossa cultura), mas muitos deles são podados pelas tais leis do silêncio. O xaveco que rola a caminho do mar até continua - afinal, não se mata a conquista. Mas no lugar das cantadas letradas, é mais comum escutar de rabo de orelha um “qualé, gatinha, já é?”, bem carregado na malemolência.

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Era no bairro da zona sul da Cidade Maravilhosa que caminhava o “Poetinha”, que completaria 100 anos neste sábado (19), sempre com uma caderneta nos bolsos para não perder nenhum soluço de inspiração.

Tom Jobim, morador da Rua Nascimento Silva, 107, era parceiro nas andanças. Os dois, aliás, se conheceram no centro da cidade anos antes, no Bar Villarino, que até hoje resiste bravamente na esquina das avenidas Calógeras e Presidente Wilson. Como não poderia deixar de ser, o local virou chamariz de turistas e fãs.

O altar de Vinicius e Tom no bar Garota de Ipanema: 'Todo mundo quer conhecer, bater foto, ler a composição da música'. Foto: Nina Ramos/iG RioA rua batizada com o nome do artista no Rio de Janeiro. Foto: Nina Ramos/iG RioO bar Garota de Ipanema, antigo bar Veloso, que era frequentado por Vinicius de Moraes. Foto: Nina Ramos/iG RioFoto antiga do bar Garota de Ipanema, frequentado por Vinicius de Moraes. Foto: Divulgação

Outro bar que ganhou repercussão foi o Amarelinho, na região da Cinelândia. As marcas de Vinicius foram deixadas por lá na década de 40, na companhia de grandes nomes como Oscar Niemeyer. Atualmente, o Amarelinho testemunha os protestos que tiveram início na cidade em junho.

Quem não venceu o tempo foi o Zeppelin. Localizado na Avenida Visconde de Pirajá, no coração de Ipanema, hoje quem passa por lá encontra lojas de roupas, mas na memória de antigos moradores, ali era onde se encontravam Vinicius, Nelson Motta, Tom, Newton Mendonça, entre outros.

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“Eu me recordo de passar, cedinho da manhã, com o carrinho de bebê a caminho da Praça Nossa Senhora da Paz e eles estavam na mesa da calçada, virados da madrugada e bem ‘acabados’”, contou dona Inês Castro.

Não longe dali, localizado na rua que leva o nome do compositor (antiga Rua Montenegro), o mais tradicional boteco de Vinicius é ponto turístico 24h por dia. O Garota de Ipanema, antigo Bar Veloso, guarda memórias riquíssimas dos últimos anos do “Poetinha”.

Nina Ramos/iG Rio
Adonias Mendes Teixeira, de 58 anos, um grande contador de histórias sobre Vinicius de Moraes

O garçom Adonias Mendes Teixeira, de 58 anos, que o diga. Aliás, para falar com o funcionário é quase preciso marcar hora, tamanha fama. “Outro dia, um grupo de japoneses chegou aqui no bar e começou a apontar para mim. Quando fui ver, eles estavam me reconhecendo no guia turístico deles. Eu tinha uma foto no guia turístico do Japão, acredita?”, conta, orgulhoso, o homem que servia a mesa de Vinicius.

O iG conversou com Adonias enquanto ele arrumava os centros de mesa antes da abertura do estabelecimento. Alternando um sachê de sal, mostarda, catchup e um punhado de guardanapo para cada objeto, ele relembrou as andanças do centenário aniversariante.

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“Eu comecei a trabalhar aqui com 20 anos. A música (‘Garota de Ipanema’) já havia sido lançada. O Vinicius era um ímã. O bar podia estar vazio, era só ele chegar para atrair o pessoal”, disse ele, que garante, contrariando alguns, que a música inspirada em Helô Pinheiro foi feita ali.

O horário de chegada no Veloso era cedo, mas nada de café da manhã. “Ele chegava por aqui umas 10h, 10h30 e já caía no uísque. O Tom gostava de chopp na pressão, com meio copo de espuma. Eles ficavam aqui até umas 14h da tarde, mais ou menos. E não almoçava também. Ele pedia porção de azeitona, cebolinha, tremoços”, relembrou.

Divulgação
Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Como bom boêmio, Vinicius caprichava na bebida para “garantir inspiração”. “Às vezes ele bebia umas cinco, seis doses. Às vezes só duas, três… Sempre com gelo e água com gás para acompanhar”, falou Adonias. A cantoria rolava solta no bar. “Ele era muito gente boa. Falava com todo mundo quando chegava aqui, batia foto com quem pedia e chegava junto na hora da gorjeta”, garantiu o garçom.

E sobre os mil amores de Vinicius? “Ele tinha umas namoradas espalhadas por aí, né? Mas aqui ele chegava sozinho sempre”, afirmou.

Num cantinho perto do banheiro, duas cadeiras de madeira e uma mesinha “zelam” o altar de Vinicius e Tom: “Todo mundo quer conhecer, bater foto, ler a composição da música. Senta lá também você!”. Então, pega o violão e desce um uísque, por favor, seu Adonias. E viva Vinicius.

Roteiro Vinicius no Rio de Janeiro:

- Casa onde nasceu: Rua Lopes Quintas, 114 - Gávea
- Casa onde morreu: Rua Frederico Eyer, 149 - Gávea
- Garota de Ipanema (antigo Bar Veloso): Rua Vinicius de Moraes, 49 - Ipanema
- Casa Villarino (bar onde conheceu Tom Jobim): Av. Calógeras, 6-B - Centro
- Bar Amarelinho: Praça Floriano, 55 - Centro
- Casa de Tom Jobim: Rua Nascimento Silva, 107 - Ipanema
- Casa da irmã Leta (hoje, a irmã Lygia ainda mora lá): Rua das Acácias, 87 - Gávea

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