Fêmea de babuíno da Etiópia aborta filhotes para evitar violência

Chegada de um novo macho ao grupo faz com que até 80% das fêmeas interrompam a gravidez

Alessandro Greco, especial para o iG |

Divulgação/Science
Grupo de babuínos gelada, com três fêmeas e seus filhotes na frente e o macho mais ao fundo
A chegada de um novo macho em um grupo de babuínos gelada ( Theropithecus gelada ) faz com que as fêmeas grávidas abortem, segundo estudo publicado nesta quinta-feira (23) no periódico científico Science.

Os geladas vivem em grupos com várias fêmeas e apenas um macho dominante e geralmente o novo “chefe” do grupo mata os filhotes concebidos pelo seu predecessor ao tomar o poder – e também aqueles que ainda estão sendo concebidos ao nascer.

O estudo, conduzido por Jacinta Beehner, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, e colegas demonstra pela primeira vez o chamado ‘efeito Bruce’ em uma população em seu habitat natural. Descrito pela primeira vez em 1959 pela bióloga Hilda Bruce, o “efeito” constata o fato de que fêmeas grávidas de certas espécies terminam sua gravidez após serem expostas a novos machos. “Primeiro descobriu-se que isto era verdade para camundongos e depois para diversas espécies de roedores, porém estes dados foram sempre colhidos em laboratório. E embora ele fosse uma descoberta consistente em experiências, não havia dados conclusivos em populações selvagens. A falta de dados levou alguns pesquisadores a sugerir que o efeito Bruce não era mais que um fenômeno de laboratório”, afirmou Jacinta ao iG .

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No estudo, o grupo de pesquisadores coletou dados demográficos e hormonais de babuínos gelada no Parque Nacional do Siemen, na Etiópia, durante cinco anos. Os resultados mostraram que 80% das fêmeas abortam quando um novo macho chega e assume o lugar de dominante e que o fenômeno ocorre (aparentemente) no mesmo dia que o novo macho sobe ao trono.

Divulgação/Science
Filhote de gelada: machos matam crias que não são deles
Os cientistas não conseguiram, no entanto, descobrir como as fêmeas gelada abortam. “Esta é questão de um milhão de dólares e infelizmente uma que nossos dados não têm como responder. É importante lembrar que o aborto nessas fêmeas não é consciente nem planejado. Ele apena acontece. Pense na fome, no estresse psicológico e outros fatores comuns para o aborto em humanos e outras espécies de mamíferos. Em condições de estresse severo, o corpo dos mamíferos opta por reproduzir mais tarde. O mesmo está acontecendo com os geladas. Talvez o estresse psicológico que as fêmeas enfrentam com a chegada de um novo macho leve a uma instabilidade hormonal suficiente para levar a um aborto”, explicou Jacinta.

Os pesquisadores concluíram que o aborto, neste caso, é um estratégia adaptativa para as fêmeas que terminam a gravidez, pois elas engravidam mais rapidamente do que aquelas que dão a luz após a chegada do novo macho. “As fêmeas que abortam após a chegada de um novo macho tem mais descendentes do que aquelas que não o fazem”, afirmou Jacinta.

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