'Não dou conta de mais uma enchente', diz moradora de Franco da Rocha

Cidade ficou ilhada em janeiro após comporta de represa ser aberta. Obras prometidas após as chuvas só foram assinadas em outrubro

Fernanda Simas, iG São Paulo |

Era início de janeiro e algumas cidades de São Paulo sofriam com das chuvas acima da média em 2011. Em Franco da Rocha, bairros da periferia também enfrentavam o problema das enchentes, mas o pior ainda estava por vir, mesmo após o sol aparecer. Os dias de chuvas constantes fizeram a represa Paiva Castro, na cidade, atingir um nível crítico e ter suas comportas abertas para que uma tragédia maior fosse evitada. Mesmo assim, as consequências foram críticas para muitos moradores. Residências, comércios e prédios da administração pública ficaram cheios d´água e ilhados. Moradores só conseguiam se locomover pela cidade de bote .

AE
População de Franco da Rocha sofreu com enchente em janeiro
Marli Aparecida Bueno Nunes, 55 anos, mora desde 1986 em uma casa térrea no bairro Nossa Senhora Aparecida e desistiu de investir na sua casa depois de perder quase tudo nesta última enchente. Ela se acostumou com a absurda rotina de se preparar para deixar a casa a todo verão.

“Daqui a pouco eu estou saindo daqui de novo. Esse é um dos bairros mais gostosos de morar, é tranquilo. Eu não tenho problema, estou perto de tudo. Mas chega o final do ano, eu tenho que sair”. Na enchente do início do ano ela só conseguiu salvar pertences pessoais e objetos de valor. “Minhas coisas ficaram quase um mês dentro de um baú de caminhão e eu fiquei na casa das minhas irmãs. A água vai subindo muito rápido ou você se salva ou salva as coisas. Eu não dou conta de mais uma enchente.”

Outras 100 famílias aproximadamente foram prejudicadas na enchente de janeiro. De acordo com a Defesa Civil municipal, na ocasião, as duas entradas da cidade – por Mairiporã e por Caieiras – ficaram inacessíveis. Franco da Rocha ficou mais de três dias alagada e decretou estado de emergência.

A convivência com os transtornos das chuvas começou em 1987 , meses depois de Marli ter comprado a casa onde vive até hoje. Naquele ano, uma grande enchente atingiu Franco da Rocha e deixou comércios e residências alagados. Depois disso, Marli decidiu investir o seu dinheiro apenas nos filhos. “Eu tenho medo de investir qualquer dinheiro aqui. Tenho medo de fazer muito sacrifício porque quando comprei essa casa, eu fiz tudo e perdi tudo em uma enchente grande. Então decidi investir nos meus filhos, no estudo deles, que vai ficar para o resto da vida.”

Indignada, Marli explica que tem um esquema preparado para a época de chuvas para tentar evitar perder seus pertences, mas a vontade de ter uma casa arrumada ficou para trás. “Roupas, objetos de valor e coisas leves eu consigo tirar de casa. Mas os móveis ficam. Por isso já perdi geladeira, armários, mesa. Aquele prazer que eu tinha de arrumar a minha casa, deixar tudo bonitinho, eu tenho mais, eu perdi.”

Antes de mostrar para a reportagem do iG como ficaram os móveis da casa após a enchente, ela explica que tinha decidido abrir o próprio negócio e montado um restaurante. “Ou eu salvava a minha casa ou eu salvava meu restaurante e preferi salvar a casa. Perdi todo o restaurante. Não tenho mais o imóvel e há três meses decidi retomar a atividade, mas agora não tenho lugar para as pessoas irem então faço a comida e entrego em forma de marmitas”. Ela lembra de outra cena que retrata o clima de desespero dos moradores em janeiro. “Estava tendo um velório no cemitério aqui perto e o corpo precisou ser levado em um barco porque estava tudo cheio de água”, relata.

Fernanda Simas
Comporta de ferro na entrada da casa não segurou a água
Ao andar pelos cômodos da residência, é possível ver que a comporta de ferro pesado colocado na entrada da casa não conseguiu segurar a água. Na cozinha da residência, apenas os armários que ficam junto ao teto foram salvos, toda a parte de baixo foi perdida. Nos quartos, as portas e alguns móveis têm bolhas decorrentes da infiltração da água. “Meu guarda roupas tinha um mês de uso e eu perdi porque ele estourou e não consigo mais arrumar”, afirma Marli. A porta de ferro que fica entre a cozinha e o quintal enferrujou.

Bairros diferentes, mesmo problema

Cristiane Isabel Remuszka, 36 anos, mora em um bairro afastado do centro de Franco da Rocha, mas também sofre com as enchentes. Sua casa em Pouso Alegre foi uma das afetadas em janeiro. “A gente não achou que ia ficar tão feia a situação. Acabaram as minhas coisas, ficou tudo esfarelando. Só consegui salvar roupas, mantimentos e móveis leves porque levei para o andar de cima que não foi atingido”, conta a dona de casa. A comporta na entrada principal da residência também não segurou a água. “A gente tem a comporta aqui, mas a água foi subindo pelos ralos da casa porque o rio encheu”, explica.

“Meu marido levou as crianças no meio do alagamento para a casa da minha sogra porque elas precisavam comer, tomar banho e a casa aqui não podia ficar vazia se não poderiam entrar para roubar as coisas”, lembra Cristiane, que tem quatro filhos. Ela conta que agora as crianças ficam assustadas quando sabem que vai começar a chover. “Eles ficam apavorados, têm medo de perder as coisas, os brinquedos.”

Depois de dois dias com água dentro de casa, Cristiane começou a limpar e ver o prejuízo. “A única coisa que a Prefeitura deu para a gente foi material de limpeza como rodo e desinfetante. Não fizeram mais nada, não deram nenhuma ajuda simbólica”. A dona de casa ressalta que só conseguiu salvar algumas coisas. “Em 1 hora minha casa encheu de água, ficou tudo embolorado, a geladeira queimou. Agora a gente tem medo de passar por tudo de novo.”

Ajuda do governo

Em janeiro, o governador de São Paulo Geraldo Alckmin esteve nas regiões afetadas de Franco da Rocha e determinou que famílias deixassem as residências que estivessem em áreas consideradas de risco. Além disso, anunciou uma ajuda financeira para as famílias prejudicadas pela enchente, sendo que o governo pagaria R$ 1.000 para cada casa afetada. As duas entrevistas pelo iG , Marli e Cristiane, afirmaram que nunca receberam o dinheiro.

Ainda em janeiro, Alckmin anunciou a criação de quatro piscinões em Franco da Rocha e o desassoreamento do rio Juqueri. Então passaram nove meses e apenas no fim de outubro (dia 27), um convênio para a criação desses piscinões foi assinado entre o governador e o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho. Os quatro reservatórios terão capacidade para acumular 723 mil m³ de litros de água, mas só ficarão prontos em 2014. Antes disso, Marli, Cristiane e outros moradores precisam se preparam para os verões de 2012 e 2013.

Segundo a prefeitura de Franco da Rocha, medidas mais rápidas estão em andamento. Durante o ano, foi feita a dragagem do rio Juqueri, a limpeza de córregos, bueiros e bocas de lobo e o desassoreamento do canal do rio Ribeirão Euzébio. De acordo com a assessoria de imprensa, polders (muros para contenção da água) também serão construídos na cidade, sendo que a licitação está concluída, mas ainda sem previsão de conclusão.

Represas

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) anunciou que, sob a recomendação da Agência Nacional das Águas (ANA), aumentou o espaço vazio das represas do Sistema Cantareira - responsável por abastecer a Grande São Paulo e a região metropolitana de Campinas - para evitar que comportas sejam abertas. Isso quer dizer que as represas vão ficar menos cheias para que possam receber mais água das chuvas neste verão.

As represas de Atibainha, Cachoeira e Paiva Castro devem ficar com 50% de sua capacidade vazia para poder armazenar a água da chuva. Essas represas são pequenas, em relação a outras do Sistema Cantareira, e por isso precisam ter mais espaço livre para não precisarem ter as comportas abertas.

A represa de Jaguari, maior do Sistema, ficará com 70% da sua capacidade neste mês. “Esse espaço de 30% que vai ficar vazio é mais do que o suficiente para acumular as águas de chuvas muito intensas, vamos dizer até anormais”, afirma o diretor metropolitano da Sabesp, Paulo Massato. No ano passado, a Jaguari ficou com 80% da sua capacidade cheia, mas os 20% restantes não foram suficientes para segurar toda a água da chuva. Em janeiro, a cidade de Piracicaba ficou embaixo d´água, na segunda maior enchente dos últimos 30 anos e as comportas da represa precisaram ser abertas.

Massato explica, no entanto, que a abertura de comportas ajuda a evitar danos maiores. “O homem não controla a natureza. Mesmo nesses 3 últimos anos em que choveu bem acima da média, as barragens tiveram grande contribuição para minimizar os danos em áreas alagadas. As chuvas sobre as cidades que provocaram as inundações. As barragens seguraram a água, que só foi liberada quando não estava mais chovendo.”

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