'Espero pelo pior e posso perder tudo de novo', diz moradora de área de risco

Moradores de áreas de risco alto ou muito alto contam como vivem cercados pelo medo de novas enchentes na zona leste de São Paulo

Carolina Garcia, iG São Paulo | 02/12/2011 08:00

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Foto: Carolina Garcia Ampliar

Cátia Cristina acredita que seu barraco não irá aguentar as chuvas do próximo verão

Sentir fortes ventos, ouvir o barulho da chuva e ver o nível das águas de um rio ou córrego aumentando são sensações traumáticas para quase 29 mil famílias que ainda vivem em áreas de risco em São Paulo. Durante uma visita que o iG realizou no Parque Santa Madalena e Jardim Helena, bairros da zona leste, muitos já se dizem preparados para "outra batalha" contra as chuvas de verão, estação que tem início no dia 22 de dezembro. Porém, as fortes chuvas que têm atingido a capital indicam que esse confronto pode começar antes do esperado. 

No complexo do Parque Santa Madalena, considerado pela Defesa Civil como área de risco alto (R3) ou muito alto (R4), não é difícil encontrar famílias vivendo em barracos cedendo devido às enchentes passadas. A Favela Santa Madalena, como o local é conhecido, tem histórico de inundações e destruição. No último verão, mais uma vez diversas famílias perderam suas casas e pertences mas, sem opção de moradia, optaram por construir um novo barraco no mesmo local.

“Escuto o barulho de chuva e já perco o sono. Espero pelo pior e sei que posso perder tudo de novo", diz a dona de casa Cátia Cristina Bazan, de 33 anos. Morando ali desde 2003, Cátia diz que o marido, que faz bicos como vigia de uma lanchonete do bairro, trabalha para pagar prestações de móveis que foram destruídos com a última enchente, em janeiro.

“Tenho medo das chuvas que estão chegando. Esse ano tem tudo para ser igual a 2010 [quando a água invadiu sua casa e destruiu seus móveis]. Minhas filhas perguntam se a água vai entrar de novo. Sinto a casa estremecer, mas finjo e digo para elas que tudo vai ficar bem”, conta a dona de casa que tem três filhas, uma de 2 anos, de 7 e outra de 11 anos.

Falta de informação e abandono

Outros moradores, assim como Cátia, receberam visitas da Defesa Civil com alertas sobre o perigo de morar em um local como aquele. Porém, segundo eles, o órgão foi visto pelo última vez no início do ano após a temporada de chuvas. Indenizações de até R$ 4 mil foram oferecidas e algumas famílias aceitaram e foram embora. As que ficam reclamam que, com o valor da indenização, só conseguem comprar barracos em outras áreas igualmente perigosas.

Foto: Carolina Garcia Ampliar

Famílias que fizeram acordo com a prefeitura tiveram casas destruídas (no centro da foto)

“Eles [técnicos da Defesa Civil] chegam, falam que você corre perigo e explicam sobre a indenização. Se você aceita, destroem sua casa na hora [para que não haja nova invasão]. Quem diz ‘não’ é esquecido pela prefeitura”, explica. Ela disse ter recebido o aviso da Defesa Civil em 2009 e, por ter recusado o auxílio, não foi mais procurada pelo órgão.

Com a ausência de saneamento e a proximidade de um córrego que percorre toda a comunidade, os moradores convivem diariamente com um forte mau cheiro, que está entre as principais reclamações das crianças. "Ás vezes o cheiro é ruim e tira a fome. Seria bem melhor brincar em uma pracinha com parquinho", deseja Vanessa, 11 anos, filha mais velha de Cátia, enquanto brinca em um quintal improvisado.

Foto: Carolina Garcia Ampliar

'Não dá para comprar uma casa', diz Margareth sobre o valor da indenização da prefeitura

Para a vizinha Margareth de Lima Silva, de 44, “com o tempo você nem sente mais [o mau cheiro]”. Ela, que mora há cinco anos no bairro, divide o mesmo barraco com sua mãe, irmã e sobrinhos. Ela diz sempre ter vivido com a sua família em áreas consideradas perigosas pela prefeitura.

Em 2006, quando morava na região do Mangue, também na zona leste, Margareth chegou a receber um auxílio de R$ 3.500 da prefeitura. “Aceitamos o dinheiro, mas não conseguimos comprar um barraco fora de risco e onde a água não chega. Saímos do Mangue para cá e assim vai ser sempre. Esse dinheiro não é suficiente para comprar uma casa segura”, conta observando o córrego pela janela.“Fico de olho nele. Ele é traiçoeiro e já subiu bastante. Não sei se meu barraco aguenta até janeiro”, diz.

Protegidos pelo concreto

Na parte alta favela, as famílias se sentem um pouco mais protegidas depois de algumas ações da prefeitura, como a criação de muros de contenção. Na viela 104, entre corredores estreitos e irregulares, a última casa da esquerda é a de Eliane Cristina Oliveira, de 41 anos, e sua família.

Classificada como de alto risco desde 2003, sua casa tem três cômodos e fica na beira da encosta há 20 anos. Segundo Eliane, sua família voltou a dormir tranquilamente a partir de 2009, quando acompanhou os trabalhos da subprefeitura que criou um muro de contenção a partir do seu quintal.

Evangélica, mãe de cinco filhos, com idades entre 7 e 18 anos, a dona de casa diz acreditar na proteção divina. “Sei que Deus enviou eles [técnicos] aqui para colocar o concreto. Agora consigo dormir em paz e sei que minha família está segura”, afirmou.

Conheça os moradores e a situação da Favela Santa Madalena

<span>Viela da Favela Santa Madalena, na zona leste. Acesso é difícil e muitas famílias perderam barracos na enchente de janeiro</span> - <strong>Foto: Carolina Garcia</strong> <span>Barracos são suspensos por estacas de madeira. Moradores reclamam da instabilidade de suas casas devido antigas enchentes</span> - <strong>Foto: Carolina Garcia</strong> <strong>Publicidade</strong> <span>A quantidade de lixo e mau cheiro na região impressiona na Favela Santa Madalena</span> - <strong>Foto: Carolina Garcia</strong> <span>Elaine Oliveira diz estar mais segura após a concretagem do muro no quintal de sua casa</span> - <strong>Foto: Carolina Garcia</strong> <span>Elaine e suas filhas Adrieli, de 12 anos, e Bruna, de 13</span> - <strong>Foto: Carolina Garcia</strong> <span>Morando na beira da encosta há 20 anos, Elaine diz que "Deus enviou a Defesa Civil" para concretar seu muro. No topo do morro, é possível ver a casa de Elaine</span> - <strong>Foto: Carolina Garcia</strong> <span>Famílias que fizeram acordo com a prefeitura tiveram suas casas destruídas pelo órgão para evitar novas invasões (no centro da foto)</span> - <strong>Foto: Carolina Garcia</strong> <span>Na parte alta da favela é possível ver barracos destruídos pela prefeitura para evitar novas invasões </span> - <strong>Foto: Carolina Garcia</strong> <span>Margareth Silva mostra seu barraco com quem divide com a mãe, irmã e sobrinhos</span> - <strong>Foto: Carolina Garcia</strong> <span>O chão está instável e com buracos entre as madeiras. "A cada chuva o barro desloca mais", explica Margareth</span> - <strong>Foto: Carolina Garcia</strong> <span>Viela que dá acesso aos barracos de Cátia e Margareth na Favela Santa Madalena</span> - <strong>Foto: Carolina Garcia</strong> <span>No quarto de sua irmã, Margareth mostra espaços que a última chuva criou no chão e nas laterais (pontos claros)</span> - <strong>Foto: Carolina Garcia</strong> <span>"Dinheiro não é suficiente para comprar um lugar seguro", diz Margareth afirmando que é a 2ª vez que mora em área de risco</span> - <strong>Foto: Carolina Garcia</strong> <span>Barraco de Cátia Bazan fica nas margens de um córrego, na Favela Sta. Madalena, zona leste</span> - <strong>Foto: Carolina Garcia</strong> <span>Já na entrada a terra está úmida devido últimas chuvas que atingiram a capital</span> - <strong>Foto: Carolina Garcia</strong> <span>Cátia acredita que seu barraco não irá aguentar as próximas chuvas de verão</span> - <strong>Foto: Carolina Garcia</strong> <span>Cátia e o marido José Holanda Correia com a filha Vanessa, de 11 anos. Para a garota, mau cheiro do córrego incomoda</span> - <strong>Foto: Carolina Garcia</strong>

Porém, no quintal, duas árvores de grande porte que estão muito inclinadas indicam que a terra está se movendo e que a possibilidade de deslizamento não está descartada. As casas da encosta eram registradas com risco alto e muito alto, após o muro de contenção, passaram a ser classificadas com risco médio - quando há chances reduzidas de acidentes.

“A última visita foi realizada há 8 meses, eles prometeram voltar para ver essas árvores, mas até agora nada. Se não voltaram, quer dizer que estamos bem”, acredita Eliane dizendo que, como não há possibilidade de deixar o bairro, é melhor acreditar que sua família está segura.

Outro lado

Procurada pela reportagem, a secretaria de Subprefeituras informou que no Parque Santa Madalena há oito áreas de risco R3 e R4. Nesses setores, de acordo com a nota da secretaria, encontravam-se cerca de 270 moradias. A prefeitura disse ainda “ter respeitado a indicação do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológica) retirando 200 famílias dos setores de risco mais graves”.

De acordo com o documento, o IPT indicou a necessidade de obras de contenção e drenagem para estabilizar encostas na região, como na casa de Eliane.Sobre as obras necessárias para a revitalização do bairro, a secretaria afirmou que “o projeto executivo foi concluído em 2010 e aprovado pelo governo federal”. Porém, aguarda para ser realizado com recursos do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) 2.

Mesmo com os moradores afirmando que não têm contato com técnicos da Defesa Civil desde o início deste ano, a prefeitura alega que “realiza vistorias de campo e sobrevoos semanais” na regiões mapeadas. 

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