Caso Suzane von Richthofen

Suzane von Richthofen foi condenada por planejar a morte dos pais com ajuda do namorado e do irmão dele. Os três estão presos

Fernando Serpone, especial para o iG |

Em 31 de outubro de 2002, os pais de Suzane von Richthofen foram mortos a pauladas enquanto dormiam. Os assassinatos foram planejados por Suzane e executados pelo então namorado da jovem, Daniel Cravinhos de Paula e Silva, e pelo irmão dele, Cristian Cravinhos de Paula e Silva. Os três foram condenados pelo crime.

Suzane nasceu em uma família de classe média alta de São Paulo. Ela e o irmão, Andreas, moravam com os pais, Manfred, engenheiro, e Marísia, psicanalista, em uma casa no Campo Belo. Estudante de direito na PUC, a jovem, então com 18 anos, namorava Daniel, de 21, havia três anos. De nível sócio-econômico inferior, Daniel não trabalhava, não estudava, e os dois usavam drogas.

Na noite de 30 de outubro de 2002, Suzane e Daniel levaram o irmão dela, Andreas, então com 15 anos, a um cybercafé, para ele passar a noite entretido com jogos de computador.

Em seguida, o casal encontrou-se com Cristian, à época com 26 anos. Os três seguiram no Gol de Suzane para a casa dela, na rua Zacarias de Góis. Pouco depois da meia-noite do dia 31, Suzane entrou com o carro pelo portão eletrônico. Dias antes, ela já havia desligado o sistema de câmeras e alarme da casa.

Dentro do carro, os irmãos vestiram luvas e meias de nylon na cabeça. Pegaram também os bastões de ferro e madeira que Daniel havia confeccionado, e o trio seguiu para dentro da casa.

Suzane subiu as escadas que davam acesso ao segundo andar, em direção ao quarto de seus pais. Ao confirmar que os dois dormiam, fez sinal para os irmãos. Os três pararam na porta do quarto. Suzane acendeu a luz do corredor de acesso ao quarto e desceu as escadas para não ver ou ouvir o crime.

Daniel entrou no quarto primeiro, seguido por Cristian. O namorado de Suzane tinha Manfred como alvo, enquanto seu irmão devia matar Marísia. O casal chegou a acordar e a abrir os olhos, mas não teve tempo de se defender. Eles foram golpeados seguidamente na cabeça com os bastões. Marísia ainda chegou a levantar o braço para tentar se proteger. Os golpes quebraram também seus dedos.

Apesar da agressão, o casal não morreu de imediato. “Quando uma pessoa sofre um traumatismo craniano grave, imediatamente, a base da sua língua não se sustenta mais, causando a morte por sufocamento”, afirma Ilana Casoy, que acompanhou a reconstituição, no livro sobre o crime “O Quinto Mandamento”. Assim, ao tentar respirar, “a estreita passagem provoca um ronco alto e horripilante que só cessa quando a morte se estabelece”. E foi o que aconteceu. O casal começou a fazer um barulho pelo qual os irmãos não esperavam.

Daniel correu para o banheiro e de lá voltou com duas toalhas molhadas. Cada um colocou uma toalha no rosto de sua vítima na esperança de finalmente matá-la por asfixia. Porém, as toalhas não solucionaram o problema. Daniel foi então à cozinha buscar uma jarra com água. Após jogar a água no rosto de Manfred, o barulho cessou.

AE
Suzane von Richthofen está presa e não receberá herança dos pais
Ao ver que Marísia continuava tentando respirar, Cristian enfiou uma toalha na boca da mulher e fechou sua cabeça dentro de um saco de lixo. O casal parecia estar morto.

Cumprida a primeira parte do plano, a dupla passou a trabalhar para fazer com que o crime parecesse latrocínio, ou seja, roubo seguido de homicídio. Orientado por Suzane, Daniel foi ao armário do closet com fundo falso. Retirou a prateleira e encontrou as joias de Marísia e o revólver 38 de Manfred. Ele espalhou as joias pelo quarto e jogou a arma em cima da cama. Cristian, que ficou incumbido de revirar as gavetas, resolveu colocar o revólver perto da mão de Manfred.

Os três afirmam que Suzane não participou do assassinato em si, mas não há certeza sobre sua posição na casa enquanto o crime ocorria e se, depois, ela viu os corpos dos pais.

De acordo com a reconstituição do crime, ela ficou no térreo, onde aproveitou para roubar o dinheiro em espécie que havia na casa, guardado dentro de uma pasta de couro com código. Suzane abriu a maleta pois sabia o segredo, mas Daniel depois cortou a pasta com uma faca para forjar o roubo.

"Chegamos em casa, eu entrei e fui até o quarto dos meus pais. Eles estavam dormindo. Aí, eu desci, acendi a luz e falei que eles podiam ir. Fiquei sentada no sofá, com a mão no ouvido. Eu não queria mais que meus pais morressem. Mas aí eu percebi que não tinha mais o que fazer, que já era muito tarde", confessou Suzane no depoimento após ser detida.

Para completar a encenação, espalharam livros pela biblioteca e também entraram pela janela da sala para deixar marcas de tênis. Os bastões ensanguentados foram lavados na piscina e tudo que foi usado no crime foi colocado dentro de sacos de lixo, tendo os três inclusive trocado de roupa.

O dinheiro roubado e algumas joias ficaram com Cristian, como pagamento por sua participação. Após o crime, ele foi deixado perto do apartamento onde morava com a avó, e o casal passou à terceira parte do plano: forjar o álibi. Os dois foram para a suíte presidencial do Motel Colonial, na Zona Sul, pela qual pagaram R$ 380. Com a nota fiscal em mãos, saíram do motel às 2h56 para buscar Andreas no Cyber Café. Posteriormente, detalhes como o motel e uma pistola encontrada dentro de um urso de pelúcia no quarto de Suzane só fizeram aumentar a revolta popular perante o crime.

Suzane deixou o namorado na casa dele e foi embora com o irmão. A jovem, ao chegar em casa, demonstrou surpresa e ligou para Daniel e para a polícia.

Alexandre Paulino Boto foi o primeiro policial ao chegar ao local. Em seu depoimento durante o julgamento do trio, classificou o assassinato como um “crime de amadores”.

“O crime era um procedimento de amadores. Largaram as jóias, celulares, deixaram uma arma no quarto do casal. Se alguém quer roubar, furtar, não deixaria isso no local”, afirmou o policial, em 2006. “Um ladrão não deixaria a arma no chão.”

Boto disse ter estranhado o comportamento de Suzane, que lhe perguntou quais seriam os procedimentos que a polícia iria seguir. “Eu estranhei a pergunta e a atitude impassível diante da morte dos pais”, afirmou. Em seguida, ela perguntou como estavam os pais. “Quando eu disse que estavam bem, ela ficou espantada. ‘Como?’, perguntou.”

O policial também estranhou as perguntas de Daniel, que chegou ao local pouco depois. "Você sabe se levaram alguma coisa de dentro da casa? Parece que a família guardava todo o dinheiro em uma caixinha." Em seguida, Daniel falou os valores exatos das quantias guardadas.

A cena do crime motivou mais suspeitas. Os rostos cobertos podiam ser um sinal de que as vítimas conheciam seus algozes. Manfred estava com o rosto lavado. O alarme curiosamente não funcionou e não havia sinais de arrombamento. Os papéis espalhados pela biblioteca também davam a impressão de que haviam sido espalhados de propósito.

“Percebemos várias coisas estranhas no local do crime. Isso fez com que desde o início suspeitássemos de que não se tratava de latrocínio”, disse o delegado Daniel Cohen. Chamada para depor, Suzane perguntou ao delegado quando poderia vender a casa.

No enterro do casal, no dia 1º de novembro, a jovem chorou muito, ficando o tempo todo ao lado do irmão.

As suspeitas em torno do casal continuaram a crescer quando, dois dias depois do crime, investigadores voltaram à casa dos Richthofen e encontraram Suzane, Daniel, Andreas e um casal de amigos à beira da piscina, ouvindo música e tomando cerveja. No dia seguinte, um domingo, o casal foi ao sítio dos Richthofen, onde comemorou o aniversário de 19 anos de Suzane. A garota, mesmo dispensada das aulas da faculdade, não faltou nenhum dia.

Apesar da série de evidências, foi Cristian quem confirmou as suspeitas. Dez horas após o crime, ele comprou uma moto Suzuki 1.100 cilindradas com 36 notas de US$ 100. Dias depois, investigadores passaram em frente à casa de Daniel e viram a motocicleta. Descobriram que ela havia sido comprada por Cristian, que não trabalhava nem tinha dinheiro para tal aquisição.

No dia 7 de novembro, a polícia disse a Cristian que precisava de sua ajuda para o reconhecimento de um suspeito. Na delegacia, após cerca de seis horas dando respostas contraditórias e confusas, acabou assumindo participação no crime. Em outra sala, Daniel e Suzane também foram interrogados e confessaram os assassinatos.

O trio, em prisão preventiva por representar perigo a Andreas, principal testemunha, foi denunciado por duplo homicídio triplamente qualificado - por motivo torpe, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima – e de fraude processual, por terem alterado a cena do crime.

Em 2005, os três receberam habeas corpus para aguardar o julgamento em liberdade. Porém, no ano seguinte, voltaram à prisão. Daniel e Cristian foram detidos após darem uma entrevista em que afirmaram que Suzane era estuprada pelo pai desde os 13 anos de idade e que ela planejava matar Manfred e Marísia com uma arma. Já Suzane foi presa novamente pois a Justiça entendeu que ela continuava sendo um risco ao seu irmão.

No ano em que ficou solta, Suzane voltou a surpreender: ela entrou com um pedido na Justiça para ter o direito de administrar os bens da família, inclusive de receber parte do seguro de vida do pai.

Em julho de 2006, o trio foi a júri popular. Suzane tentou convencer que havia sido manipulada pelo namorado, que se aproveitava da condição financeira dela e lhe dava drogas. Daniel procurou mostrar que a intenção de assassinar o casal sempre foi de Suzane e que ela a induziu ao crime.

Suzane e Daniel foram sentenciados a 39 anos e seis meses de prisão, e Cristian, a 38 anos e seis meses. A Justiça negou uma revisão das penas e não cabe mais recurso.

No fim de 2009, Suzane pediu, sem sucesso, para ter direito ao regime semiaberto, pois já teria cumprido um sexto da pena. Na ocasião, foi classificada como “dissimulada” por psicólogos e psiquiatras que a avaliaram. Dois anos depois, ela teve o pedido negado de novo.

Em 2011, Suzane foi considerada “indigna” de receber metade da herança dos pais, avaliada em R$ 11 milhões. A ação foi movida por Andreas. Suzane recebeu a notícia no presídio de Tremembé, onde continua presa.

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