O certo é que o ano será de agitações sociais. E o apaixonante da sociedade é que ela não obedece a cálculos simplórios, a critérios matemáticos e nem a determinações impostas

Durante o ano 2013, assistimos estupefatos, a um novo ator que ocupava (literal e simbolicamente) as ruas de São Paulo. Um novo sujeito social que provocava os mais diversos desafios institucionais, críticas voluptuosas cruzadas com defesas em grau similar de tenacidade: o black bloc. Toda ação dele era espectacularizada, elevada a níveis de pauta jornalística prioritária. Toda ação de PM, seguindo uma lógica sincrônica, servia de base de turbilhões de comentários nas redes sociais. Como consequência direta, a veemência, cada vez maior, de uma dialética banalizadora e vulgar de “manifestante vândalo, PM violenta” que não queria mergulhar num debate profundo.

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Palavras, palavras esgotadas, num momento onde talvez mais silêncio reflexivo tivesse sido sensato, para nos permitir a oportunidade de pensar sobre os sintomas que representava a presença do black bloc, sobre nosso modelo social, sobre nossa posição como cidadãos.

Todo movimento social é dinâmico, oscilante, descontinuo. Fluxos, refluxos, euforias e decaimentos formam parte da rotina da sociedade. A catarse das manifestações de junho teve uma vitalidade coletiva muito curta, esfumou-se no espaço urbano em poucos dias. No contexto da temporalidade instantânea da nossa sociedade atual, o black bloc tem tido uma presença mais longeva, impetuosa. Durante os dois últimos meses do ano, porém, esta presença foi mais escassa, nada comparável com as imagens dos protestos do dia 7 de setembro na frente da Câmara Municipal de São Paulo e 25 de outubro no Terminal Parque Dom Pedro. São fatores essenciais para entender este esvaziamento nas ruas de São Paulo, o endurecimento dos discursos políticos e da ação policial, a atuação da força-tarefa, envolvendo as Polícias Civil e Militar e o Ministério Público que desembocou num inquérito com mais de 150 identificados.

Estaríamos presenciando um momento transitório de vazante do black bloc para ganhar um impulso maior durante 2014? A rede social continua canalizando milhares de comentários indignados sobre como os preparativos da Copa do Mundo têm sido conduzidos pelo poder público, mas terá este frenesi virtual representação e visibilidade comparável nas ruas? Por enquanto, vários atos já estão marcados para finais de janeiro.

O objetivo inicial e público do black bloc sempre foi uma presença intensa durante a Copa. Sem pretensão de profecias ou oráculos impertinentes, imagino que 2014 será um ano acelerado, de espasmos e convulsões sociais. Se não bastasse a neurose nacional que sempre significa um período eleitoral, acrescentaremos outra neurose, a Copa do Mundo, que virá carregando nos ombros o peso dos holofotes internacionais. Durante alguns meses, Brasil será refém da midiatização, oportunidade que, acredito, será julgada como imperdível por muitos grupos, organizados e desorganizados, para sair às ruas e aproveitar a cenografia para reivindicar suas pautas na frente dos olhos do mundo. Por outro lado, a segurança, principalmente nas cidades sedes, será intensificada, a pressão sobre as polícias redobrada, e o risco de que estes elementos sejam utilizados como manobra eleitoreira, desde a política descuidada e não desde a gestão competente, é muito elevado.

Assistiremos a um black bloc revitalizado em 2014 ou, como deriva de uma ação político-policial mais repressiva, se verá fragilizado? O governo, as instituições, os senhores do poder têm se mostrado negligentes, incapazes, omissos para levar a cabo as reformas reclamadas em junho, portanto, é perfeitamente lógico esperar mais protestos, mais grito social nas ruas.

Sou inábil para formular prognósticos exatos, mas uma coisa é certa: o próximo será um ano de agitações sociais, além disso, toda análise prematura é uma especulação incerta, um jogo atrevido de elucubrações. O apaixonante da sociedade é que não obedece a cálculos simplórios, a critérios matemáticos nem determinações impostas.

Só espero que os senhores do poder saibam entender os desafios e agir com um mínimo de dignidade política.

* Esther Solano Gallego é doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp)

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