'Estamos pedindo que Brasil declare que JK morreu de morte matada'

Por Natália Peixoto - iG São Paulo | - Atualizada às

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Presidente da Comissão Municipal da Verdade de São Paulo apresentou relatório com 90 indícios de que o ex-presidente foi assassinado pela ditadura militar

A Comissão da Verdade de São Paulo declarou, na manhã desta terça-feira (10), que o ex-presidente da República Juscelino Kubitschek foi assassinado, vítima de "conspiração, complô e atentado político", planejados pela ditadura militar.

"Nós estamos pedindo que o Brasil declare que JK morreu de morte 'matada', e não de um acidente", disse o vereador Gilberto Natalini, presidente da comissão, em atividade na Câmara Municipal. Ele atribuiu a autoria ao regime militar, especialmente aos generais João Baptista Figueiredo e Golbery do Couto e Silva.

Comissão Municipal da Verdade conclui que Juscelino foi assassinado

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Novos depoimentos reacendem dúvidas sobre morte de Juscelino Kubitschek

Natalini apresentou um relatório com 90 indícios que comprovariam o assassinato de JK em 1976. Segundo testemunhos, o motorista do presidente, Geraldo Ribeiro, teria sido vítima de um tiro na cabeça, proveniente de um veículo Caravan, que teria emparelhado com o Opala de Ribeiro. Sem comando, o carro que transportava JK se chocou com o caminhão, causando sua morte.

O relatório será encaminhado para a Presidência da República, Supremo Tribunal Federal (STF), Congresso Nacional e para Comissão Nacional da Verdade. O objetivo é corrigir o atestado de óbito de JK, a exemplo do que aconteceu com a certidão de Vladmir Herzog. Em sua causa de morte oficial, JK teria sido vítima de um acidente de trânsito em 1976, na Rodovia Presidente Dutra, junto com Ribeiro, seu motorista e amigo.

Entre os indícios reunidos no relatório, estão depoimentos de passageiros do ônibus da viação Cometa desmentindo o envolvimento do coletivo no acidente com o Opala e detalhando a condução desgovernada do carro do ex-presidente, com relatos de um "clarão" sobre o carro antes da batida e da inconsciência de Ribeiro, que estaria com a cabeça e entre a porta e o volante do carro.

Outro indício do planejamento do crime seria uma carta enviada pelo coronel chileno Manuel Contreras Sepulveda, diretor do serviço secreto do Chile, a Figueiredo, então chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), apoiando uma ação contra "certas autoridades eclesiásticas e conhecidos políticos social-democratas e democratas cristãos na América Latina e Europa".

Em 1996, a exumação do corpo de Ribeiro revelou um fragmento metálico dentro do crânio, que não foi objeto de exames. A descoberta motivou o pedido de exumação do corpo do ex-presidente e do motorista, ação que espera resposta da Justiça de Minas Gerais há dois meses.

Pouca investigação

O relatório juntou depoimentos de testemunhas, peritos, jornalistas e o secretário pessoal do ex-presidente, Serafim Jardim. O documento questiona o sumiço de fotos dos corpos das vítimas, a existência de perícias conflitantes e a omissão de informações no inquérito.

Entre os acontecimentos suspeitos, o relatório cita como suspeita a presença do médico Guilherme Ribeiro Romano, ligado a Golbery e a Figueiredo, na cena do acidente. Ele teria se apropriado de pertences encontrados no local, incluindo um diário do ex-presidente. O relatório questiona se Romano teria usado citações sobre uma amante no diário para chantagear a ex-primeira dama, Sarah Kubitschek, para que ela não pedisse a reabertura da investigação da morte do marido.

Natalini pediu a punição do crime, que considera imprescritível, dado as condições políticas em que foi cometido. "Quem matou tem que ser punido", disse.

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