Importação de médicos, engenheiros e ... professores e pipoqueiros?

Por Paulo Ghiraldelli , iG Rio de Janeiro | - Atualizada às

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Filósofo debate a questão da importação de profissionais após os últimos governos não terem feito o dever de casa

Quando li o professor Delfim Neto na imprensa dizendo que o Brasil não podia perder a chance de importar mão de obra barata, produzida pela crise europeia e americana, eu já havia escrito que este seria forçosamente o caminho da presidente Dilma. Não deu ainda um ano da emissão da minha previsão e do conselho de Delfim e a importação já está aí na praça. O governo está chamando médicos do exterior e agora, a pedido de prefeitos, a presidente Dilma anunciou que está estudando a possibilidade de importar engenheiros.

Delfim Neto estudou economia – dá sugestões e conselhos. Eu estudei filosofia – ponho moscas em sopas.

Futura Press
Protesto de médicos realizado no Rio de Janeiro

De 1993 para os dias de hoje o brasileiro dobrou sua renda, foi de 2.500 para 5.500 dólares. Passou a consumir mais. As cidades brasileiras, todas elas, nos últimos vinte anos ganharam mais “ruas de comércio” e shoppings. Nosso país está entupido de drogarias, restaurantes, bares, academias de ginástica, lojas de bijuterias, pequenos e grandes supermercados, postos de gasolina e gente na Internet. O ciclo dos governos FHC-Lula-Dilma nos deu isso. Mas, ao mesmo tempo, a mão de obra qualificada apropriada para todos esses serviços não tem dado as caras. Por quê? Simples: o Brasil não tem investido na qualidade da educação geral pública, o que possibilitaria ao mercado ter em mãos um jovem treinável, uma vez em um emprego determinado. Desse modo, tudo indica que a saída para esse impasse, a essa altura do campeonato, é a importação de mão de obra. Perdemos tempo, não fizemos o dever de casa, e agora vamos agir pelo modo que restou.

O trabalhador brasileiro tem necessitado de muitos anos de escola para conseguir se mostrar apto a um posterior treinamento, e isso mesmo em serviços que formalmente estão aquém do nível do seu diploma. Descrevo o panorama.

A menina que cursou o ensino médio não consegue fazer o troco no balcão da padaria em que trabalha – nem mesmo com a máquina de calcular! Desse modo, o empresário se vê pressionado a requisitar para esse tipo de trabalho alguém com um diploma de nível superior. O bom profissional do ensino superior, ou seja, aquele que não vai ficar no balcão da padaria, e que realmente vai exercer a profissão para a qual fez a faculdade, livra-se do concorrente, este sim, então, irá ocupar o lugar da garota formada no ensino médio. O resultado disso é um só: a mão de obra em lugares mais distantes e mais pobres começa a faltar ou encarecer. Em princípio é para tais lugares que o governo quer trazer o trabalhador estrangeiro.

Nada de novo no front. Por outras vezes em nossa história, precisamos de mão de obra e ao invés de nos voltarmos para a nossa educação, optamos pela saída de última hora, ou seja, a importação de trabalhadores. Essa solução do problema tem um preço: quando, ao final da escravidão, trouxemos o imigrante, abandonamos o negro às favelas. Depois, em outras épocas de desenvolvimento real ou fictício, também fizemos a mesma coisa e, é claro, criamos aí o favelado pobre branco. Qual será o preço social desta vez?

Os que tendem a só ver glórias nesse ciclo FHC-Lula-Dilma não querem colocar essa pergunta, se recusam em entendê-la, alguns até fingem que não é uma pergunta legítima. Mas é.

Paulo Ghiraldelli Jr, 55, filósofo, escritor, cartunista e professor da UFRJ

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