
“O Agente Secreto ” é um filme sobre a memória ou a falta dela. E também sobre um trauma geracional, disse Wagner Moura ao receber, na madrugada desta segunda-feira (12), o Globo de Ouro de melhor ator de filme dramático. O longa de Kleber Mendonça Filho também levou o o prêmio de melhor filme em língua estrangeira.
A láurea coloca a produção em um outro patamar. Pelo mundo, quem gosta de cinema e ainda não assistiu certamente agora quer assistir. Principalmente após o discurso do ator baiano, que sentenciou: “se o trauma pode ser passado por gerações, os valores também podem”.
Mas a grande mensagem de Moura foi dada pouco antes, em entrevista ao jornal “The New York Times”.
“O Agente Secreto” é um filme retratado em 1977 e que alveja o Brasil atual. Os traumas, e os resquícios da ditadura, ainda estão por todo canto – e não morreram quando o último prédio do último Doi-Codi, onde opositores eram torturados, foi desativado na reabertura.
Tanto por aqui quanto nos Estados Unidos o processo de erosão democrática avançou em tempos recentes, quando extremistas chegaram à presidência. Donald Trump voltou ao poder mesmo depois de mentir sobre uma suposta fraude nas urnas e insuflar a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021.
O Brasil repetiria o roteiro dois anos e dois dias depois, quando o pastiche brasileiro de Donald Trump, Jair Bolsonaro, também contestou o resultado das urnas e planejou um golpe de Estado que descambou na invasão da Praça dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023.
As instituições brasileiras agiram rapidamente, enquanto as norte-americanas foram inábeis em barrar a segunda aventura trumpista, que hoje coloca o país à beira de uma guerra civil, com ameaças de intervenção nos estados governadores por opositores, e a reação em massa a uma violenta perseguição a imigrantes promovida pelo ICE, o serviço anti-imigração que atualiza a bandeira dos confederados e supremacistas. Isso sem contar a bagunça geopolítica guiada com tarifaços, ameaças, e invasões e controle territorial de países estrangeiros sem consulta ao Congresso ou ao Conselho de Segurança da ONU, um dos muitos organismos multilaterais sob ataque desde que o republicano reassumiu o trono.
Moura lembrou que, por aqui, o Supremo Tribunal Federal respondeu à ameaça condenando Jair Bolsonaro à prisão e tornando o ex-presidente inelegível. Ele foi cirúrgico ao dizer que o Brasil foi ágil em prender pessoas, encontrar os financiadores e cassar os direitos políticos do líder da quadrilha. E questionou: “As instituições no Brasil são mais fortes que as dos EUA? Acho que não. Mas, na minha opinião, isso aconteceu porque os brasileiros sabem o que é uma ditadura.”
É essa memória que o filme luta para não deixar desbotar.
Neste retrato pregado na parede de uma tela de cinema, a ditadura é descrita exatamente como é: violenta e corrupta. Ela não se manifesta apenas nos porões onde foram gestados os golpes de 1964 e de 2022. Ela se revela no guarda da esquina, onde a síndrome do pequeno poder abre campo para o arbítrio – seja do policial que pede cigarro para liberar passagem, seja no IML, seja no sistema de documentação ou na delegacia de uma capital do Nordeste sob desmando de grupos políticos, militares, empresariais e policiais. O resultado é a vocação miliciana de um país torturado, uma das chagas contemporâneas gestadas no regime cuja memória gente como Bolsonaro tenta reescrever enquanto seus agentes seguem eliminando quem estiver pelo caminho. Tuddo isso à sombra do Estado.
Para Moura, é mais difícil enterrar a história quando os cineastas estão determinados a trazê-la à tona. Os grupos políticos (e os traumas?) passam. O cinema fica.
*Este texto não reflete necessariamente a opinião do Portal iG